03
Fev 20

Léxico: «bico-de-pato»

Também precisamos

 

   «O número de doentes com coronavírus fora da China, nomeadamente na Europa, levou ao aumento da procura de máscaras em Portugal e há quem revele alguma pesquisa sobre a matéria. “Inicialmente, compravam as máscaras simples, agora já nos pediram bicos de pato e uma senhora perguntou se tínhamos FFP2 [com filtros]. Todos os clientes nos pedem máscaras, mas é sobretudo a comunidade chinesa. Só vendemos as máscaras cirúrgicas e temos o stock esgotado, vamos ver se as conseguimos ter segunda ou terça-feira”, explica Ana Várzea, técnica de farmácia e dona do estabelecimento com o mesmo nome, em Lisboa» («Máscaras esgotam nas farmácias, das mais simples às mais elaboradas», Céu Neves, Diário de Notícias, 1.02.2020, 23h32).

      Do dia para a noite, temos aí milhares de portugueses especialistas em epidemiologia: vão à farmácia e pedem máscaras cirúrgicas, máscaras bico-de-pato, máscaras FFP2, etc. Só não pedem bom senso e inteligência porque não se enxergam, e seria sempre em vão. Dicionários do meu país, falta-vos, evidentemente, esta acepção em bico-de-pato: «Shaped like a duck’s bill.»

 

[Texto 12 757]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Descolonizar a língua

«Detalham» e retalham a língua

 

      «Sem detalhar as listagens já feitas — “são conhecidos alguns dos objectos”, diz apenas, por referência às machadinhas polidas do Neolítico ou à arte tchokwe à guarda do MNA —, o secretário de Estado garante estarem identicadas várias peças em colecções públicas e privadas portuguesas que Angola gostaria de ver regressadas» («Um inventário para pôr Portugal a pensar sobre a colonização», Lucinda Canelas, Público, 1.02.2020, p. 41).

      Deve ter sido a deputada Joacine Katar Moreira que persuadiu a jornalista a respeitar a grafia africana da palavra. Não, Lucinda Canelas, não é assim que se escreve a palavra — é chocué. Mas é como se diz, quem não sabe é como quem não vê. Em duas linhas, «detalhar», «listagens», «tchokwe»... Livra!

 

[Texto 12 756]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «megabase | centimorgan»

Ainda não chegou cá

 

      «Pela primeira vez, identificou-se de forma robusta ancestralidade neandertal em indivíduos de populações africanas. Em média, encontraram-se 17 megabases (unidade de comprimento para fragmentos de ADN, em que cada megabase equivale a um milhão de nucleótidos) de ADN neandertal» («Todos no planeta temos (afinal) um pouco de neandertal», Teresa Sofia Serafim, Público, 1.02.2020, p. 38).

      Nos nossos dicionários, nada. Megabase, leio no portal da Fundação Instituto Roche, é a «unidad de longitud para fragmentos de ADN que equivale a 1 millón de nucleótidos (aproximadamente 1 centimorgan, cM)». É isso: também centimorgan continua a ser um mistério para os nossos dicionários.

 

[Texto 12 755]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «escutóide»

Nova forma geométrica

 

      «Em 2018, eu fazia parte de um grupo de pesquisa que descobriu uma forma geométrica que não havia sido vista, chamada de escutoide, e que teve um impacto brutal. Foi uma colaboração com biólogos celulares, que nos ligaram porque queriam saber como descrever o formato das células epiteliais, que são os tecidos que cobrem todos os nossos órgãos. Quando começamos a descrever a forma geométrica, percebemos que era uma forma que não existia [afirma Clara Grima, professora universitária de Matemática]» («‘Sou doutora em matemática, mas não sei dividir com 3 dígitos nem calcular raiz quadrada à mão’», Ana Pais, BBC News Brasil, 29.01.2020).

      Embora a origem do termo seja anedótica, a justificação oficial, na revista Nature Communications, da equipa de investigadores mencionou a semelhança com o escudo. Ora, também os nossos dicionários registam escuto- como elemento de formação de palavras que exprime a ideia de «escudo». Compreende-se a necessidade de dicionarizar rapidamente o termo, sob pena de alguma criatura idiota — descuidada — besta (riscar o que não interessa) o divulgar numa grafia alienígena.

 

[Texto 12 754]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «polígono»

Não o vejo

 

      «A atividade desenvolvia-se em instalações industriais desativadas, localizadas num polígono industrial da cidade algarvia, revela a nota enviada à redação. “Foram identificados quatro indivíduos de nacionalidade espanhola, conotados com o fabrico e o transporte das embarcações”» («Desmantelada fábrica de lanchas rápidas usadas no tráfico de droga», Carla Caixinha, Rádio Renascença, 31.01.2020, 9h17).

      Quantas vezes não vimos já a palavra neste sentido? Para o dicionário da Porto Editora, contudo, polígono é apenas o terreno para uso militar.

 

[Texto 12 753]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «ensecadeira | ensacadeira | embalamento | paletização»

Estamos mal

 

      Diz a Porto Editora que ensecadeira (palavra usada várias vezes na quinta-feira no Portugal em Directo, a propósito das obras de reconstrução dos diques no Baixo Mondego) é o «tapume que cerca as construções feitas em nível mais baixo que o da água, para se trabalhar em seco». Não: serve para excluir água e solo de uma obra em construção e permitir o trabalho a seco. E esquecem-se de um parónimo, ensacadeira: «Exceto Martins, o gerente de Zude, que ultimamente arranjara um xodó com uma ensacadeira de cacau, de nome Rosa, beleza de mulher» (São Jorge dos Ilhéus, Jorge Amado. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1944, p. 136). Aqui é a trabalhadora que ensaca o cacau, mas também é o nome que se dá às máquinas que fazem a mesma tarefa, e que aparecem em dois dicionários bilingues, bagging machine e Einsackmaschine. Parece que a Porto Editora também está a precisar de uma máquina de embalamento. Nem me atrevo a falar em paletização...

 

 [Texto 12 752]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,

Uma ortografia em forma de assim

Aqui não há acordo

 

      «“Señores guardias civiles/Aqui pasó lo de siempre/Han muerto quatro romanos/Y cinco cartagineses”, escreveu Federico Garcia Lorca, pouco antes de o terem despachado sem cerimónia no escuro da noite andalusa, como mais um cartaginês. [...] Tudo bule com as nossas tradições. Dantes tínhamos o nosso 31 de Janeiro, no Porto. Resta-nos o 1 de Fevereiro, em Lisboa: ceguinhos a cantar que tinham morto [sic] o Rei e o Príncipe Real e fora triste cena de horror no Reino de Portugal» («Nada muda muito», José Cutileiro, TSF, 31.01.2020, 8h51).

      Só por fazer fronteira com Portugal, não se justifica dar esse cunho tão luso à Andaluzia. «O autor não escreve segundo a grafia alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990», avisam-nos, mas isso não chega. Quanto ao «bule», tive de reler a frase, pois inicialmente, e não estou a brincar, como é sobre os Ingleses, era natural aparecer ali um bule. A terceira pessoa do singular do verbo bulir, José Cutileiro, é «bole». Pese embora o u do radical, na 2.ª e 3.ª pessoas do singular e na 3.ª do plural passa a o.

 

[Texto 12 751]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
03
Fev 20

Definição: «supercomputador»

Mas que memória?

 

      «O supercomputador Oblivion, com desempenho equivalente à combinação de mais de mil [1200] computadores, vai funcionar em Évora, associado ao projeto do maior radiotelescópio do mundo e disponível também para a comunidade científica e empresas, foi hoje revelado. [...] A máquina “é capaz de processar 239 milhões de milhões de operações por segundo (TFLOPS – ‘Tera Floating Operations per Second’), com “um custo energético muito baixo”, e “vai ser preparada para armazenar 1,5 Petabytes de dados (equivalente a 1,5 milhões de Gigabytes)”, de acordo com o professor [Miguel Avillez, do Departamento de Matemática e coordenador do Grupo de Astrofísica Computacional da Universidade de Évora]» («Évora acolhe supercomputador ligado ao projeto do maior radiotelescópio do mundo», Rádio Renascença, 30.01.2020, 19h00).

      Para a Porto Editora, um supercomputador é um «computador com grande capacidade de memória, capaz de processar rapidamente enormes quantidades de dados, geralmente utilizado para fins de pesquisa científica». Memória... mas que memória, se um computador tem dois tipos de memória? Não, a definição não passa por aí.

 

[Texto 12 750]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
Etiquetas: ,