06
Fev 20

Léxico: «sobredose | overdose»

Pistas falsas

 

      «A história do rock’n’roll conhece muitos fins trágicos: morte por sobredose, por enforcamento, por lesões após choque automóvel, até por sufoco no próprio vómito. No caso de Richey Edwards, o que é trágico não é o final – é aparentemente não haver final» («Há 25 anos fugiu de Londres e dos Manic Street Preachers: nunca mais ninguém viu Richey Edwards», João Bonifácio, Observador, 3.02.2020, 10h30).

      Os dicionaristas deixam pistas erradas aos falantes: no dicionário da Porto Editora, em sobredose manda-se directamente o leitor — vá, vai lá, melga — para overdose, onde está a definição. Porque uma palavra estrangeira é muito melhor, não é? E agora vou-me embora, até porque já estão aqui os textos de hoje. Oito por dia, não há melhor para a azia.

 

[Texto 12 782]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «baixa | intitulador»

Aos pares é mais depressa

 

      «São mais duas “baixas” na sequência do caso Abel Matos Santos e das notícias que se avolumaram nos últimos dias, depois de o jornal Expresso ter recordado algumas declarações polémicas publicadas pelo até agora membro da Comissão Executiva do CDS-PP, antigo conselheiro nacional centrista e fundador da Tendência Esperança em Movimento. Em causa as expressões de “viva a Salazar” e “agiota de judeus” numa referência a Aristides Sousa Mendes, entre outras» («Mais duas baixas no CDS», Raquel de Melo, TSF, 5.02.2020, 13h35).

      A jornalista acha que este sentido figurado de baixa precisa de aspas; o intitulador acha, e muito bem, que não. Colegas, mas não se entendem. A Porto Editora, por seu lado, nem regista esta acepção (e outras) de baixa nem o vocábulo intitulador. Tem de mudar de medicação: ontem vi numa montra de uma parafarmácia do cosmopolitíssimo Bairro de Alvalade um novo suplemento, de nome Memorium 50+. Pode ajudar.

 

[Texto 12 781]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «neurodesenvolvimento | funcionante»

Há aí um dicionário que...

 

      Já viram tamanha subtileza? Sim, ainda cá estou. «Sendo o cérebro muito diferente entre os dois sexos e sendo o autismo uma doença do neuro-desenvolvimento, “provavelmente a resposta vai estar nessas fases iniciais de desenvolvimento, em que começa a haver uma bifurcação do cérebro masculino e feminino”. Sobre os doentes, o investigador [Miguel Castelo-Branco, da Universidade de Coimbra] afirma que “há pessoas altamente bem sucedidas, apesar de terem um estilo cognitivo e de socialização peculiares, altamente funcionantes e, por outro lado, temos pessoas com deficiência intelectual”» («Porque há mais autismo entre os meninos? Investigação com novas tecnologias estuda doença», TSF, 5.02.2020, 11h10).

 

[Texto 12 780]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «transmissão vertical | transmissão horizontal»

Transmito

 

       «Um bebé nascido na China há apenas 30 horas está infetado pelo novo coronavírus. O recém-nascido é a mais nova entre as mais de 24 mil pessoas contagiadas e o primeiro caso de contágio por “transmissão vertical” — de mãe para filho, avança a AFP. Os testes à mãe do bebé deram positivo e esta pode ter contagiado o filho durante a gravidez, no parto ou imediatamente depois» («Recém-nascido com coronavírus», Carolina Rico, TSF, 5.02.2020, 12h01).

   E quem fala de transmissão vertical também tem de falar, é claro, de transmissão horizontal. Esta última é a que ocorre, por exemplo, entre vizinhos — se estes não forem animais. Só ocorre dentro da mesma espécie, quero eu dizer, e sem ligação por parentesco. E por transmissão: agora tenho de ir. Espera-me o lugar de condutor de um GLC 43 Coupé AMG. (Nada de invejas, é só para experimentar.) Não preciso de o levar aos limites, pois Max, do AutoTopNL, já mostrou que fica ali um pouco abaixo dos 260.

 

[Texto 12 779]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «hiperespecialização»

Maluquinhos da especialização

 

      «Em Outubro de 2007, Steiner passou pela Fundação Gulbenkian, em Lisboa, para intervir no simpósio A Ciência Terá Limites, cujo tema ele próprio propôs. Crítico da hiperespecialização que estaria a ocorrer na ciência e que dificultaria o diálogo entre cientistas, o orador sugeriu também que poderia ser inviável ir-se muito mais longe tanto na exploração do macrocosmo como na investigação das partículas, e ironizou mesmo com algumas hipóteses científicas, como a célebre teoria das cordas, que já teria inspirado “uns dez mil artigos” desde os anos 70 e contra a qual citou várias críticas, como a que nota que “as suas conjecturas não chegam sequer a estar erradas”» («Desapareceu o último herói intelectual do Ocidente», Luís Miguel Queirós, Público, 5.02.2020, p. 33).

 

[Texto 12 778]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «paraolímpico | surdolímpico»

Foram imprudentes

 

      «Toshiro Muto [responsável máximo da organização dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020] falava antes de uma reunião regular de coordenação, em Tóquio, com o Comité Paraolímpico Internacional, na qual foi abordada a propagação do vírus, detetado em dezembro passado na cidade chinesa de Wuhan, capital da província de Hubei» («Coronavírus preocupa organização dos Jogos Olímpicos», Rádio Renascença, 5.02.2020, 9h38).

    É assim mesmo (palminhas, RR) que devemos traduzir o nome da instituição International Paralympic Committee. Até para, de alguma maneira, compensar, porque no nome da instituição portuguesa é usada a variante menos recomendável do adjectivo: Comité Paralímpico de Portugal. É lamentável, deviam seguir as recomendações de quem sabe e até do mero bom senso: a palavra «olímpico» deve manter a sua integridade. Esqueçam a etimologia. Também os dicionários consagram a forma «paralímpico», violadora da estrutura do português. Podiam registá-la, mas condenar o seu uso, o que não fazem. Existem igualmente os Jogos Surdolímpicos (e o vocábulo ainda não chegou aos nossos dicionários), e neste caso tramaram-se porque não conseguiram estragar nada. Seria uma louca desfaçatez subtraírem dali qualquer vogal. Mas não lhes vou dar ideias...

 

[Texto 12 777]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Mestrado ou doutoramento?

Ainda não sabem

 

      «O professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, suspeito de ter ajudado José Sócrates na tese de doutoramento que o ex-primeiro-ministro fez em Paris, foi acusado pelo Ministério Público de vários crimes: burla qualificada, abuso de poder e falsificação de documento (crime do qual a sua mulher também é acusada), devido a “colaboração académica”, tendo alegadamente enganado a faculdade em mais de 10.500 euros» («Domingos Farinho», J. J. M., Público, 5.02.2020, p. 7). Na página 18, o mesmo: «Domingos Farinho, o professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa suspeito de ter ajudado o ex-primeiro-ministro José Sócrates na tese de doutoramento de Ciência Política que o antigo governante fez em Paris, foi acusado pelo Ministério Público de vários crimes» («Professor suspeito de ajudar Sócrates na tese acusado de burlar faculdade», Ana Henriques).

      Afinal, trata-se de uma dissertação de mestrado ou de uma tese de doutoramento? Em que ficamos? É que no Público, como noutros jornais, ora se afirma uma coisa, ora outra. E ainda há a clássica confusão entre dissertação e tese. As duas confusões juntas são excelente pábulo para a ignorância. Não é assim que se informa.

 

[Texto 12 776]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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06
Fev 20

Ganimedes

Está errado

 

      «Ganimedes é o terceiro satélite galileano de Júpiter e o maior de todos. De facto, é o maior satélite do Sistema Solar, sendo muito maior que Plutão e mesmo maior que Mercúrio embora tenha só cerca de metade da sua massa» (Pequeno Atlas do Sistema Solar, E. Ivo Alves. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010, p. 117).

      Ganimedes, pois então, e é também esta a grafia que a Porto Editora usa e a mesma que vejo consagrada na página 488 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Quer se trate do antropónimo ou do astrónimo, quer se trate do nome comum, não é acentuado. Ia perguntar porque é que então este espertalhão aqui diz que sem acento é a ortografia brasileira — ia, mas já não pergunto. Está numa famigerada enciclopédia colaborativa na internet. Está errado.

 

[Texto 12 775]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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