07
Fev 20

Léxico: «reservatório»

Tem agora a oportunidade

 

      «Investigadores da Universidade de Agricultura do Sul da China identificaram o pangolim como o “possível hospedeiro intermediário” que facilitou a transmissão do vírus, apontou a universidade em comunicado, sem avançar mais detalhes. [...] Um animal que abriga um vírus sem adoecer, mas que pode infetar outras espécies, é designado de “reservatório”» («Estudo aponta pangolim como possível intermediário na transmissão do coronavírus», TSF/Lusa, 7.02.2020, 12h55).

      Assim é, mas encontrar um dicionário da língua portuguesa em que isso esteja plasmado é que já é mais difícil. No verbete reservatório do dicionário da Porto Editora, apenas se diz isto: «1. lugar onde se reserva ou guarda qualquer coisa; recipiente; 2. lugar onde se acumula alguma coisa; depósito». Não lhe faltam menos de três ou quatro acepções.

 

[Texto 12 794]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «biomimético»

Imita os materiais da Natureza

 

      «Agora, este estudo diz ter encontrado um novo mecanismo porque usou um material biomimético, ou seja, que imita os materiais que já existem na natureza e que se adapta aos órgãos. Essa adaptação é possível graças aos tais sinais elétricos provocados pelos olhos quando se movem» («Novas lentes de contacto fazem zoom — basta piscar os olhos duas vezes», Marta Leite Ferreira, Observador, 29.07.2019, 18h04).

      A Porto Editora andou lá perto, pois regista biomimética: «área de investigação interdisciplinar que procura desenvolver novas soluções técnicas inspiradas em processos e estruturas biológicas dos seres vivos».

 

[Texto 12 793]

Helder Guégués às 12:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «urbanófilo»

Vão encontrar-se

 

      «Para quê complicar ainda mais a vida dos que resistem e continuam a viver no centro histórico de Lisboa, rodeados do regabofe dos tuk-tuks, hotéis e lojas de bugigangas para turistas? Para quê penalizar mais os residentes que em cinco anos viram a sua creche, padaria, lavandaria, sapateiro, cabeleireiro, talho, costureira e tudo aquilo a que os urbanófilos chamam “mix funcional” desaparecer?» («Centro sem carros: o problema de uma boa ideia», Bárbara Reis, Público, 7.02.2020, p. 23).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só vamos encontrar urbano-depressivo (sugerido por mim e dicionarizado no Verão do ano passado), mas não urbanófilo.

 

[Texto 12 792]

Helder Guégués às 11:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «lentivírus»

Coerência acima de tudo

 

      «Depois, numa quarta modificação genética, usaram um lentivírus para carregar um outro gene que é capaz de levar o nosso sistema imunitário a reconhecer (para atacar) uma proteína encontrada nas células malignas» («Edição genética. Terapia para doentes com cancro “é segura e viável”», Andrea Cunha Freitas, Público, 7.02.2020, p. 34).

      Ao contrário de dezenas de outros, está no dicionário da Porto Editora, mas há ali um erro, ou, pelo menos, uma concessão ao alienígena: «MEDICINA designação dos vírus de ADN do género Lentivirus, da família dos retrovírus, que causam doenças de evolução lenta, e entre os quais se inclui o HIV». Não podemos ensinar uma coisa e praticar outra.

 

[Texto 12 791]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «assotado»

Porque é raríssimo

 

      «Trata-se de um edifício tradicional da Baixa lisboeta, com rés-do-chão e mais três andares e um assotado. Ali não funciona qualquer escritório, sendo antes a residência de um dos filhos de Vitorino» («Cuatrecasas desconhecia que Vitorino tinha consultora», Mariana Oliveira e Sónia Trigueirão, Público, 6.02.2020, p. 17).

      É muito raro ver-se ou ouvir-se este adjectivo, assotado, razão suficiente para o trazer para aqui. É dos tais que apenas conhecia dos dicionários.

 

[Texto 12 790]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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Definição: «ábaco»

É uma boa descrição

 

      Ainda sobre o ministro das Finanças: no Parlamento, falou do ábaco e dos bastões por onde correm as argolinhas ou contas. A definição que encontramos no dicionário da Porto Editora é a seguinte: «quadro que permite representar operações aritméticas por meio de pequenas argolas que deslizam em hastes fixas». Mário Centeno, como economista e professor catedrático de Economia que é, decerto conhece bem este instrumento de cálculo — e o certo é que vejo a palavra «bastão» em muitos sítios em que se fala do ábaco. Em muitos sítios, mas em nenhum dicionário, que vêm dizendo há largas décadas quase todos o mesmo, e são sempre «fios» ou «arames» (ou, vá lá, «hastes», que, se foge à cópia, tem a desvantagem de ser equívoco, quando não inadequado para a maioria dos tipos de ábacos que conheço) as palavras que usam. Que eu saiba, não é desonroso reconhecer que tal ou tal formulação é mais correcta do que a nossa — e procedermos em conformidade. Quem disser o contrário é parvo.

 

[Texto 12 789]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito

Plural dos apelidos, mais uma vez

É bom ir relembrando a questão

 

      Muito bem. Afinal, isto é 1 + 1: «Como a Lusa noticiou na altura, um dos detidos pelo departamento de luta contra a criminalidade económica e fiscal (UDEF) foi Alejo Morodo, filho do ex-embaixador [Raul Morodo]. [...] Nos relatórios ao juiz Santiago Pedraz da Audiência Nacional, a UDEF “indica que estes pagamentos poderiam ter sido realizados pelo facto de tanto os Morodos como o socialista Vitorino terem mediado a conclusão de um negócio, pelo qual a empresa portuguesa Galp se comprometia a construir quatro parques eólicos na Venezuela e a comprar petróleo bruto da petroleira PDVSA”» («“Acusações são totalmente infundadas.” António Vitorino avança para tribunal», TSF, 6.02.2020, 18h27).

      Até da minha cabeça — que não, jamais, da minha prática — esta questão tem andado arredada, mas não convém esquecê-la durante tanto tempo: afinal, a taxa de renovação dos leitores deste blogue mostra bem que é necessário repisar estas questões tão básicas, mas tão fundamentais.

 

[Texto 12 788]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | favorito
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Vamos brincar com a língua

A brincar

 

      «As máscaras, contudo, nunca chegaram. Num volte-face digno de um filme de faroeste – ou fareste, no caso – a cidade vizinha de Dali, que conta apenas oito casos confirmados, confiscou o carregamento quando estava a caminho de Chongqing e distribuiu as máscaras entre os seus próprios habitantes» («Coronavírus leva a “guerra das máscaras” na China», Filipe d’Avillez, Rádio Renascença, 6.02.2020, 13h36).

      Temos de brincar com a língua, pois claro. Ontem também ouvi Mário Centeno, no Parlamento, dizer uma coisa engraçada: sobre os novos pequenos partidos, disse que eram, não mais do mesmo, mas menos do mesmo. Só é pena andar obcecado com os heterónimos.

 

[Texto 12 787]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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Léxico: «pterídio | dennstaedtiácea»

Mas não fora da realidade

 

      E ao pterídio, que é a denominação comum aos fetos do género Pteridium, da família das dennstaedtiáceas, com uma única espécie, também não o vamos encontrar no dicionário da Porto Editora, nem dennstaedtiácea. E, contudo, regista o elemento de formação de palavras pteridi-, que exprime a ideia de feto (vegetal). Ultimamente, o pterídio está a ser usado em experiências porque tem a capacidade de absorver e armazenar nos seus tecidos metais pesados, como o cobre e o níquel, de solos poluídos onde se encontre. No fim, esta planta ainda pode ser queimada e das suas cinzas recuperam-se grandes quantidades dos metais absorvidos, que podem ser reciclados para outros usos.

 

[Texto 12 786]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «azola | lagoacho»

Muitas e estranhas ausências

 

      E a azola (Azolla filiculoides Lam.), que, vinda da América tropical, se pode agora encontrar em águas paradas, como lagoachos, valas e canais e até nas zonas de cultura de arroz na Beira Litoral, Estremadura e Baixo Alentejo? Não está no dicionário da Porto Editora. Sim, nem lagoacho. A azola, uma invasora, é verdade, pode vir a ser uma excelente alternativa biodegradável ao plástico.

      Um dos habitats atingidos pela azola são as águas oligomesotróficas calcárias — mas nos nossos dicionários não vejo oligomesotrófico, mesoeutrófico, ultra-oligotrófico... Vá lá, mesotrófico acolhem.

 

[Texto 12 785]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Iberolux?

A Grande Ibéria

 

      «Rui Moreira avançou com a proposta na semana passada durante o Cities Forum 2020, que decorreu no Porto. A ideia é criar um Iberolux no espaço ibérico, em que toma como modelo o Benelux, espaço de cooperação entre Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo. O que o presidente da Câmara do Porto apelidou de “uma estratégia coordenada entre Portugal e Espanha”, o jornal El País trata esta quarta-feira como uma “fusão entre Espanha e Portugal”» («Iberolux. Rui Moreira propõe união ibérica... e o El País dá destaque à ideia», David Mandim, Diário de Notícias, 5.02.2020, 17h52, itálicos meus).

      Apoio a proposta, deploro o nome. De onde raio veio o «lux» aqui? Deve ser da unidade de intensidade de iluminação. Da falta de iluminação, mais precisamente.

 

[Texto 12 784]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
07
Fev 20

Léxico: «referendável»

Mais uma esquecida

 

      «Questionado sobre a possibilidade de realização de um referendo sobre o assunto, o deputado socialista [Pedro Cegonho] não tem dúvidas, garantindo que “este é um tema que não pode ser referendável”» («Deputado do PS apresenta três razões para votar contra a eutanásia», Rádio Renascença, 5.02.2020, 23h05). Anda por aí, mas não em todos os dicionários. «A verdade é que nem tudo é referendável, a começar por longos tratados ou extensas leis, sobretudo quando se trata de uma intragável colecção de emendas de diplomas anteriores, como era o caso» (Nós, Europeus, Vital Moreira. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2012, p. 182).

 

[Texto 12 783]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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