13
Fev 20

Léxico: «carnotauro»

Nunca visto

 

      «Um pai quis fazer uma surpresa ao filho no natal [sic] e comprou um dinossauro online. O que não estava à espera era de uma estátua de seis metros de comprimento, semelhante ao tamanho real do animal. O filho de quatro anos de Andre Bisson, Theo, pediu o “maior carnotauro alguma vez visto” e o pai quis concretizar o sonho do mais novo» («Pai encomenda dinossauro de brincar para o filho mas é surpreendido pelo tamanho», Correio da Manhã, 9.02.2020, 10h18).

      O maior carnotauro alguma vez visto — mas fora do dicionário da Porto Editora, porque nunca soube o que é um carnotauro.

 

[Texto 12 810]

Helder Guégués às 17:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «escamado»

Mamífero — e tem escamas

 

    «De acordo com a organização não-governamental Wildlife Conservation Society (WCS), o pangolim é o único mamífero escamado conhecido e é a espécie mais traficada no mundo. Na Ásia, e em particular na China, a carne do pangolim é considerada uma iguaria e as escamas são usadas na medicina tradicional por alegadas propriedades medicinais que a ciência não confirma. “A procura por pangolins na Ásia é tão grande que um número impressionante de pangolins é retirado da natureza a cada ano”, refere a associação» («Ser transmissor do coronavírus pode salvar o pangolim da extinção?», Susete Francisco, Diário de Notícias, 9.02.2020, 17h15).

      Este escamado não está no dicionário da Porto Editora. Neste dicionário, o termo ou significa «com escamadas tiradas», e aqui é o oposto, ou espécime pertencente aos Escamados: «ZOOLOGIA grupo de répteis em que as escamas epidérmicas córneas que revestem o corpo mudam periodicamente, como, por exemplo, nas lagartixas e serpentes». Também não é o caso, pois trata-se de um mamífero, não de um réptil. A solução está à vista.

 

[Texto 12 809]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «aborrachado»

Ofendes-me

 

      E se eu agora publicasse um texto de hora a hora, qual relógio de cuco? «Os interiores são de boa qualidade, com a maior parte dos revestimentos em plástico aborrachado que limitam e muito os ruídos parasitas que inevitavelmente vão surgir para quem optar por fazer do X-Trail um verdadeiro veículo utilitário e desportivo» («Nissan X-Trail 1.3 – Versátil e com um motor surpreendente», José Carlos Silva, Rádio Renascença, 5.02.2020, 18h20).

      E vem então a pergunta: «Queria pesquisar abarracado, abolachado, abombachado, aborrascado, borrachudo, esborrachado?» Ofendes-me, Porto Editora. Então eu não hei-de saber o que quero pesquisar? (Bem observado: Porto Editora, enriquece-me o verbete de relógio.)

 

[Texto 12 808]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Tradução: «commute»

Por exemplo

 

      A propósito da inevitabilidade de, num futuro não muito longínquo, se construírem predominantemente edifícios muito altos, o que decorre essencialmente das necessidades ecológicas de inverter o processo de ocupação do solo ou de evitar as deslocações pendulares diárias, o autor dá-nos uma boa maneira de traduzir o inglês commute. Pode ocorrer a muita gente, mas não aos lexicógrafos que redigem os verbetes dos dicionários bilingues.

 

[Texto 12 807]

Helder Guégués às 14:00 | comentar | favorito

Léxico: «vitruviano»

Pode ser que não descubra

 

      O autor está aqui a falar sobre a «vertente vitruviana» da unidade curricular que lecciona, mas, a meu ver, é melhor não lhe revelarmos que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe o adjectivo vitruviano. Chiu, pode ser que ele não descubra...

 

[Texto 12 806]

Helder Guégués às 13:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tabela Cronostratigráfica

Andamos bem enganados

 

      «Embora o Antropocénico ainda não seja oficialmente considerado uma época geológica, na sua opinião, já estamos no Antropocénico?» (“Estamos, claramente, num novo capítulo da história geológica”», Teresa Sofia Serafim, Público, 10.02.2020, p. 33). Foi uma das perguntas da jornalista ao historiador indiano Dipesh Chakrabarty.

      Também o leitor R. A. nos interpelou: «O Público de hoje tem uma entrevista a Dipesh Chakrabarty onde se usa “Antropocénico” como substantivo. “Embora o Antropocénico ainda não seja oficialmente considerado uma época geológica, na sua opinião, já estamos no Antropocénico? Para mim, já estamos no Antropocénico devido aos impactos dos seres humanos no planeta” (“‘Estamos, claramente, num novo capítulo da história geológica’”, Teresa Sofia Serafim, Público, 10.02.2020, p. 32).»

      Tem razão a jornalista. Não temos razão nenhum de nós que andamos aqui a usar Antropoceno para designar o sistema/período da Tabela Cronostratigráfica. A única atenuante é a (fraca) legitimidade dada pela tradição. Nada desculpa, no entanto, que nos dicionários também se perpetuem erros e nada se distinga.

 

[Texto 12 805]

Helder Guégués às 12:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Confusões: «suprir | suprimir»

É só mais uma confusão

 

      «Mais de 50 mil docentes vão reformar-se nos próximos dez anos e são cada vez menos os jovens a querer dedicar a vida ao ensino. Já há escolas onde a média de idades dos professores está próxima dos 60 anos. Ainda não é conhecido um plano para suprimir as saídas» («Falta de professores está à porta», Isabel Leiria e Raquel Albuquerque, Expresso, 9.02.2020, 17h36).

    Seria bom suprimir as saídas. Bem, pelo menos algumas, não poderiam impedir os professores de se reformarem, quando atingem a idade e tempo de serviço. Isso seria atacar a raiz do problema. Mas não: supomos que as jornalistas queriam dizer «suprir», isto é, colmatar, preencher essas saídas, essas faltas. Aos pares é sempre pior.

 

 [Texto 12 804]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | favorito
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Léxico: «grande-oficial | grande-oficialato»

Vejam isso bem

 

      «Natural de Teixoso, Covilhã, licenciou-se em Filologia Romântica em 1961, tendo obtido o doutoramento pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1979, com uma dissertação [sic] sobre a sintaxe da língua portuguesa. Professor catedrático naquela faculdade desde 1981 e membro da Academia das Ciências de Lisboa, foi também director de investigação do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, conselheiro científico do Instituto Nacional de Investigação Cientíca e presidiu ao Conselho Científico da Faculdade entre 1984 e 1987. Foi ainda presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia entre 1991 e 2008. Em 2001 foi feito grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique» («João Malaca Casteleiro, mais do que obreiro do acordo ortográfico», Vítor Belanciano, Público, 10.02.2020, p. 36).

      Grande-oficial e grande-oficialato. É assim que se vê em alguns vocabulários, e na própria Lei das Ordens Honoríficas Portuguesas. Não estão registados no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — mas podemos vê-los, essa é que é essa, em obras editadas pela Porto Editora.

 

[Texto 12 803]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «sínodo»

A Igreja, o Partido, o Tal

 

      «O sentido eclesial da palavra sínodo, de origem grega (sýnodos), é muito belo: “caminhar juntos”. Serve para dizer que, na Igreja, o Papa não é um monarca absoluto. Dado que, em Roma, viveram e morreram dois grandes pilares dos começos do cristianismo — Pedro e Paulo —, considera-se que o bispo de Roma tem o primado entre todos e com todos os bispos da Igreja espalhados pelo mundo. O seu primado não substitui os outros bispos, que, nas suas dioceses, devem agir de forma que responsabilize todos os católicos no fervor cristão ao serviço da sociedade» («Caminhar juntos», Frei Bento Domingues, O. P., Público, 9.02.2020, p. 9).

      Se também há sínodos de rabinos, por exemplo, e isto porque a palavra designa uma reunião, mas cujo sentido se especializou, não vejo por que razão a Porto Editora não dicionariza uma acepção mais genérica. Diz assim: «RELIGIÃO assembleia de eclesiásticos convocada pelo legítimo superior e destinada a tratar de assuntos relativos à vida da Igreja». É a Igreja e o Partido... Quanto à abreviatura que vem após o nome de Frei Bento Domingues, convém sempre fazer duas coisas, e não raro nem uma se vê: separá-la com uma vírgula do nome que a antecede e grafá-la com maiúsculas.

 

 [Texto 12 802]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
13
Fev 20

Léxico: «contra-safra»

Será desta?

 

      «Historicamente, a campanha oleícola (que arranca em Outubro) altera anos de safra e contra-safra, de maior e menor colheita, o que se confirma nos números mais recentemente publicados pelo INE: a campanha de 2014 saldou-se em 438 mil toneladas, a de 2015 em 702 mil toneladas, a de 2016 em 476 mil toneladas, a de 2017 em 858 mil toneladas e a de 2018 em 725 mil toneladas. Se compararmos 2019 com 2017, o crescimento é apenas de 5,71% (face aos referidos 25% entre 2018 e 2019), mas tem sido sempre constante em anos de safra» («Produção de azeitona para azeite será das maiores “dos últimos 80 anos”», Isabel Aveiro, Público, 9.02.2020, p. 19).  

      É uma espécie de enguiço: já fiz várias tentativas de a Porto Editora dicionarizar contra-safra, mas apenas alcancei meia vitória, pois só o acolheram na versão do dicionário com o Acordo Ortográfico (um involuntário preito ao agora desaparecido?).

 

[Texto 12 801]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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