04
Mar 20

Léxico: «antimicrobiano»

Mas este sim

 

      «O alho é um alimento com algumas propriedades antimicrobianas, mas nenhuma evidência aponta para que a sua ingestão proteja contra o novo coronavírus» («Covid-19. Quinze mitos sobre o novo coronavírus, para não se deixar enganar», Expresso, 27.02.2020, 14h33).

      Não podem e não devem estar lá todos os termos com este e outros prefixos, bem entendido, mas este devia estar no dicionário da Porto Editora. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: .

 

[Texto 12 894]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «siríaco»

Isso é muito pouco

 

      «A Igreja Assíria do Oriente, que foi apelidada de “Igreja dos Mártires” pelo Papa João Paulo II, é uma antiga Igreja Ortodoxa do povo assírio que ainda utiliza na sua liturgia o siríaco, uma variante do aramaico, a língua falada por Jesus. Os assírios, também conhecidos como siríacos ou caldeus, são descendentes do antigo Império Assírio e viviam sobretudo numa faixa de território que abrangia o sul da Turquia, a Síria e o Iraque. O final do Império Otomano dividiu esse território em diferentes países e o genocídio contra arménios e assírios, de 1915, levou muitos a fugir da Turquia para os países árabes» («Líder da Igreja Assíria do Oriente resigna por motivos de saúde», Filipe d’Avillez, Rádio Renascença, 21.02.2020, 11h50).

    O que o dicionário da Porto Editora diz sobre o siríaco é manifestamente pouco: «língua falada, outrora, pelos Sírios». Leia-se o artigo: «que ainda utiliza na sua liturgia o siríaco». Se ainda é utilizada como língua litúrgica, isso devia estar na definição, assim como, e sobretudo, a que família e ramo pertence.

 

[Texto 12 893]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Definição: «intinção»

Não é lançar

 

      «Aquele organismo [Conferência Episcopal Portuguesa] dá alguns exemplos que devem passar a ser norma, tais como a comunhão na mão, a comunhão por intinção dos sacerdotes concelebrantes, a omissão do gesto da paz e o não uso da água nas pias batismais» («Coronavírus vai trazer mudanças na celebração das missas», João Carlos Malta, Rádio Renascença, 2.03.2020, 20h47).

      Para o dicionário da Porto Editora, intinção é o «acto de lançar parte da hóstia no vinho consagrado». Lançar é uma maneira de dizer — uma maneira errada. Na raiz está o verbo latino intingere, «molhar, submergir alguma coisa num líquido». É o caso: a partícula consagrada é parcialmente submersa no vinho.

 

[Texto 12 892]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «cenário»

Inequivocamente, não

 

      «As alterações climáticas e a subida do nível dos oceanos podem provocar o desaparecimento de metade das praias de areia no mundo até ao final do século, segundo um estudo divulgado esta segunda-feira na revista Nature Climate Change. E mesmo no cenário de a humanidade reduzir acentuadamente as suas emissões de gases com efeito de estufa, responsáveis pela subida da temperatura média global, mais de um terço dos litorais arenosos estão ameaçados, apontou-se no estudo» («Aquecimento global e subida do nível do mar ameaçam metade das praias», TSF, 2.03.2020, 23h39, itálico meu).

      Assistimos recentemente a um certo quiproquó acerca do significado da palavra cenário, nesta acepção. Certo, parece-me, é que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a encontramos.

 

[Texto 12 891]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve por aí

Um surto?

 

      «Ao dia de hoje parece inevitável que vamos ter de aprender a viver com o Covid-19. A infeção por este novo coronavírus registou os primeiros casos em Portugal. Para o ajudar a estar informado, o Expresso lançou esta newsletter exclusiva com as últimas novidades, sugestões de leituras e informação úteis, que lhe enviaremos sempre que seja oportuno» («Nova Newsletter Expresso — Tudo que precisa de saber sobre o novo coronavírus», Expresso, 3.03.2020). Está a alastrar, pois já vimos aqui recentemente: «Aos dias de hoje a população de Nisa não sabe quem eram as despenadeiras que entre os séculos XVIII e XIX terão abreviado a agonia a doentes terminais lá da terra, como constatou a TSF entre populares de várias idades. Mas à boleia do livro de Teófilo Braga é revelado que as despenadeiras acreditavam estar a praticar um ato de caridade poupando o moribundo ao sofrimento» («Quem eram as despenadeiras de Nisa? As mulheres que ajudavam a morrer», TSF, 20.02.2020, 10h47).

      Bem sei que o que está na moda é afirmar, garantir, que tudo está correcto, o que, evidentemente, é uma mentira irresponsável, mas eu não sigo por aí. Nunca antes vi esta expressão, que me parece mero decalque do castelhano, também não recomendável, a día de hoy/al día de hoy.

 

[Texto 12 890]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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Léxico: «arbitragem»

E devia

 

      «Orlando Nascimento abandona agora o cargo de presidente do Tribunal da Relação de Lisboa depois de, na última semana, ter vindo a público que autorizou o uso do salão nobre do tribunal para a realização de uma arbitragem (resolução privada de litígios) realizada pelo seu antecessor, Luís Vaz das Neves, que foi indevidamente remunerado por esse julgamento privado, e que é arguido por suspeitas de corrupção e abuso de poder no âmbito da Operação Lex» («“Não levo nada!” A despedida de Orlando Nascimento após a demissão do Tribunal da Relação», Rita Carvalho Pereira, TSF, 3.03.2020, 8h53).

      Não leva nada... E que queria levar para casa? Talvez os microfones e os computadores obsoletos. Quanto a arbitragem: está, neste sentido, bem explicado, e vejo que faltam acepções neste verbete no dicionário da Porto Editora. Basta ver que nem sequer há uma acepção especificamente relacionada com o desporto.

 

[Texto 12 889]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «preto-piano»

A não ser que o objectivo seja esse

 

      «O renovado C-HR evidencia algumas diferenças face ao pequeno SUV que ainda está no mercado, com pára-choques novos à frente e atrás, novos faróis LED à frente que fazem conjunto com uma grelha mais generosa e uns faróis de nevoeiro deslocados para a extremidade da carroçaria, para o fazer parecer mais largo. Atrás, os extractores de ar são maiores, com elementos cromados (só na versão 2.0) para os tornar mais evidentes, sendo que os farolins LED surgem agora ligados por um elemento transversal na tonalidade preto piano» («C-HR: o SUV cada vez mais híbrido e mais dinâmico», Alfredo Lavrador, Observador, 6.11.2019, 23h56).

      Pois, mas agora ouve-se e lê-se por todo o lado piano black, sobretudo a propósito do interior dos automóveis. A não ser que o objectivo seja ter os Portugueses a falar em inglês, devia ir para os dicionários.

 

[Texto 12 888]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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04
Mar 20

Léxico: «esgotosfera»

De facto...

 

      «“A matilha se superou, também me agredindo e àquilo que tenho de mais sagrado: a minha família e a minha integridade moral. É o lixo da ‘esgotosfera’ nas redes e em setores da imprensa. Não conseguirão nos constranger”, disse Osmar Terra, político de 70 anos do MDB, o partido do ex-presidente Michel Temer, de quem também fora ministro, entretanto regressado à condição de deputado federal» («“Lixo da esgotoesfera”. Ex-ministro nega caso com Michelle Bolsonaro», João Almeida Moreira, Diário de Notícias, 2.03.2020, 17h06).

      Não conhecia este termo pejorativo, que acho perfeito e vejo agora até em livros. Osmar Terra escusava era de usar aspas. Mas nem tanto osmar nem tanto à terra: nem tudo é pestilento.

 

[Texto 12 887]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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