06
Mar 20

Léxico: «desenvolvedor»

Claro que não

 

      «A Global Game Jam, que este ano cumpre a 12.ª edição, é um evento onde, em simultâneo e em vários espaços do mundo, são criados videojogos no prazo limite de dois dias. A iniciativa é aberta a qualquer tipo de desenvolvedor, estudante, pesquisador ou entusiasta, que tenha conhecimento em desenvolvimento de jogos» («Evento mundial de criação de videojogos realiza-se este fim-de-semana em Oliveira do Hospital», Público, 30.01.2020, 13h21).

      Já por aí anda há uns bons anos. Mais no Brasil, é certo, do que deste lado do Atlântico. Nada se lhe pode apontar, excepto decalcar o termo correspondente inglês, mas essa é também a vantagem em adoptá-lo. Ou vamos fingir que não se usa, que não existe, que não é melhor do que usar o termo inglês?

 

[Texto 12 913]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Definição: «germoplasma»

Parece que não é assim

 

      «O Banco Português de Germoplasma Vegetal contribui com sementes de milho, trigo e feijão. Material que ficará guardado em segurança no Banco Mundial situado na Noruega, para fazer frente a uma eventual catástrofe ou guerra. [...] Ali são colocadas as sementes e plantas de todo o mundo para que, em caso de catástrofe ou guerra nuclear, por exemplo, as plantas estejam preservadas e fique em segurança o material genético vegetal» («Sementes portuguesas ficam guardadas no Ártico a 150 metros de profundidade», Maria Augusta Casaca, TSF, 21.02.2020, 14h37).

      Então, temos, por exemplo, germoplasma no dicionário da Porto Editora («conjunto de genótipos de uma espécie vegetal, considerada como um todo») e no Michaelis («Base física da hereditariedade, recurso genético constituído por espécies de plantas, animais e microrganismos integrantes da biodiversidade, transmitido por meio de células reprodutivas de uma geração para outra.»). É só compararmos, em especial depois de sabermos que em Braga está instalado o Banco Português de Germoplasma Vegetal.

 

[Texto 12 912]

Helder Guégués às 10:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Definição: «menarca»

Explicando melhor

 

      «“Não havia dados em Portugal recentes, por isso, aquilo que este estudo [«publicado na revista científica American Journal of Human Biology, usou dados de 11.274 mulheres, nascidas entre 1920 e 1992»] pretendeu foi verificar a tendência da evolução da idade da menarca [primeira menstruação]”, disse à agência Lusa a autora da investigação, Catarina Queiroga» («Portuguesas têm a primeira menstruação cada vez mais cedo», Público, 4.03.2020, p. 21).

      Menarca, que é, como o jornalista também explicou, a primeira menstruação da mulher, que marca o início da puberdade, aparece definida de uma forma um tanto embrulhada, ambígua, no dicionário da Porto Editora: «primeiro período de menstruação». Primeiro período? Vá lá, não compliquem.

 

[Texto 12 911]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «sarna | raspado | escabicida»

Desenvolvamos

 

      «Vários alunos da EB 2,3 Abel Varzim, em Barcelos, têm vindo, nos últimos dias, a ser encaminhados para casa, devido a um “foco de sarna”, disse esta quarta-feira fonte da escola à Lusa. Segundo a fonte, os primeiros casos registaram-se na semana passada, tendo os alunos afetados sido aconselhados a irem uns dias para casa. [...] A sarna, nome corrente da escabiose, é uma doença de pele contagiosa, sendo caracterizada por comichão, prurido e erupções cutâneas. No entanto, não é considerada uma doença grave» («Sarna “ataca” em escola de Barcelos», TSF, 4.03.2020, 19h04).

      Não é que os jornalistas sejam a melhor fonte — mas neste caso têm razão. Para o dicionário da Porto Editora, sarna é a «doença de pele, contagiosa, acompanhada de grande prurido, causada, no homem, pela presença de um ácaro (Sarcoptes scabiei), e, nos animais, por diferentes ácaros». Só prurido, Porto Editora? Aprofundemos: «É uma infestação na pele por ácaro Sarcoptes scabiei. A escabiose causa lesões com intenso prurido, representada por pápulas eritematosas e túneis nos espaços interdigitais, antebraços, genitais e na região da cintura. O diagnóstico baseia-se no exame dos raspados. O tratamento é feito com escabicidas tópicos ou, às vezes, ivermectina oral» (in Manual MSD).

 

[Texto 12 910]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Verbo «presidir»

Só para relembrar

 

       «Na leitura do acórdão, a juíza que presidiu o julgamento referiu que, “dada a compleição física” de Rosa Grilo, carregar o corpo do marido não seria “impossível”. Aliás, para o tribunal, a arguida terá usado o édredon onde embrulhou o corpo para o arrastar até ao carro e então transportá-lo até ao local onde o abandonou, a cerca de 160km de casa onde viviam, nas Cachoeiras» («Rosa Grilo condenada a 25 anos de prisão pelo homicídio do marido. António Joaquim absolvido», Sónia Trigueirão, Público, 4.03.2020, p. 20).

      O verbo presidir, como se sabe, constrói-se com objecto directo («presidir o julgamento»), como na frase acima, ou com objecto indirecto («presidir ao julgamento»), que é a forma mais comum e a que prefiro.

 

[Texto 12 909]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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Léxico: «dorsolombar»

Mente cindida

 

      «De acordo com a agência de notícias France Press, o motorista do comboio sofreu um traumatismo da coluna dorso-lombar, tendo sido transportado para o hospital de helicóptero» («TGV descarrila em França. Há mais de 20 feridos», Rita Carvalho Pereira, TSF, 5.03.2020, 8h18).

   Se não padecesse de esquizofrenia, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registava dorsolombar — que apenas encontramos no Dicionário de Termos Médicos. Aqui que ninguém nos ouve: que critério usam para registar dorsolombar num dicionário e dorsolateral noutro? Eh pá, fundam os dois dicionários. Continuem a vendê-los (mas ainda se vendem?) separadamente em papel, mas no digital unam-nos, juntem-nos.

 

[Texto 12 908]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tereftalato | PET»

Nenhum deles

 

       «Cientistas descobriram uma nova espécie de crustáceo na Fossa das Marianas, o ponto mais profundo dos oceanos, que batizaram como ‘Eurythenes plasticus’, em referência à contaminação por plástico detetada em alguns exemplares. [...] “Os investigadores nomearam oficialmente a espécie ‘Eurythenes plasticus’, referindo-se ao plástico que ingeriu. No seu corpo encontraram ‘tereftalato de polietileno’ (PET), uma substância encontrada numa grande variedade de itens domésticos de uso comum, como garrafas de água e roupas de ginástica”, refere a ANP em comunicado» («Novo símbolo da poluição no oceano chama-se “eurythenes plasticus”», Rádio Renascença, 5.03.2020, 9h30).

      Enganam-se: sem nome comum, não nos interessa o crustáceo. Estamos aqui por outro motivo: não é polietileno tereftalato, ou PET, um polímero termoplástico, que se diz? Seja como for, no dicionário da Porto Editora, nem tereftalato nem a sigla PET.

 

[Texto 12 907]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Como se escreve por aí

Já é o pão de cada dia

 

      «CORONAVÍRUS. O Covid-19 é um vírus com as costas largas, Tão cedo não vai abrir mão do lugar de que ocupa nos notíciários de todo o mundo. Mas à medida que os dias passam as pessoas deixam de ter nome e passam a ser números. É preciso actualizar as estatísticas. Em Portugal já há seis casos confirmados. O sexto infetado é uma mulher, de Lisboa. Há registos de três mil mortos e 93 mil infectados no mundo. De acordo com as previsões da Diretora Geral de Saúde a procissão ainda vai no nosso adro» («É lá que moram as nuvens», Jorge Araújo, editor da E, Expresso Curto, 5.03.2020).

      Isto é que é rigor... Vamos tentar fazer melhor, o que nem chega a ter mérito algum: «CORONAVÍRUS. A covid-19 é uma doença com as costas largas. Tão cedo não vai abrir mão do lugar que ocupa nos noticiários de todo o mundo. Mas, conforme os dias passam, as pessoas deixam de ter nome e passam a ser números. É preciso atualizar as estatísticas. Em Portugal, já há seis casos confirmados. O sexto infetado é uma mulher, de Lisboa. Há registos de três mil mortos e 93 mil infetados no mundo. De acordo com as previsões da diretora-geral da Saúde, a procissão ainda vai no nosso adro.»

 

[Texto 12 906]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Na linha do equador

Só com aptidões funambulísticas

 

      «A portuguesa de 52 anos foi brutalmente assassinada, ao final da tarde de segunda-feira. Doze anos depois de chegar às terras da Linha do Equador, para fazer voluntariado com crianças de rua» («É lá que moram as nuvens», Jorge Araújo, editor da E, Expresso Curto, 5.03.2020).

      Jorge Araújo acha que é um lugar — mas só um funambulista ia conseguir manter-se nele. Não: é linha do equador. Não tem de quê.

 

[Texto 12 905]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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Léxico: «lixense»

Todos os esquecem

 

      «É o código postal da Lixa que dá nome ao primeiro hotel no centro da cidade. Assim quis Fernando Mesquita, lixense ligado à indústria do calçado, que começou a aperceber-se de que, da grande quantidade de empresários que visitavam mensalmente as mais de mil empresas sediadas na região do Vale do Sousa, poucos eram os que pernoitavam na Lixa, optando por ficar em cidades como o Porto, Amarante ou Guimarães» («Hotel 4615: conforto e design no centro da cidade», Ana Santos, Evasões, 5.03.2020).

    Mais uma estupidamente esquecida. Pergunta prolixamente o dicionário da Porto Editora: «Queria pesquisar -iense, bidense, diense, diuense, elidense, iliense, lajense, libente, liseuse, lixento, minense, mirense, nisense, pinense, tirense, uliense

 

[Texto 12 904]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Mar 20

Léxico: «exame autóptico»

Só para saberem que existe

 

      «Representante legal da mulher condenada a 25 anos de prisão, [sic] queixa-se de o Tribunal não ter aceitado a exumação aos restos mortais do corpo de Luís Grilo, marido de Rosa Grilo, a audição do consultor técnico forense João de Sousa e de exames autópticos ao cadáver» («Rosa Grilo. Defesa vai recorrer da condenação e “continua confiante”», Rádio Renascença, 3.03.2020, 22h16).

 

[Texto 12 903]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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