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Linguagista

Léxico: «ivoiriense»

Em Angola é assim

 

      «Face a isto, Didier Drogba, [sic] não ficou calado. “É totalmente inconcebível que tenhamos sequer de falar disto. África não é um laboratório. Estas declarações são realmente racistas. Ajudem a salvar África do coronavírus. Não queiram usar os africanos como cobaias. É asqueroso. Os líderes africanos têm a responsabilidade de proteger as suas populações de conspirações tão horrendas”, postou o ivoiriense» («Sugestão para experiência em África gera polémica», Jornal de Angola, 6.04.2020, p. 5).

      Sim, Porto Editora, nós dizemos costa-marfinense e marfinense, mas em Angola usa-se correntemente ivoiriense. Como oficialmente é a República da Côte d’Ivoire, era inevitável que alguém optasse por este gentílico.

 

[Texto 13 116]

Os Kennedys

Difícil?

 

      Veja como se escreve, Rui Pedro Pereira, do Jornal de Notícias, aprenda: «A família Kennedy, uma dinastia americana e uma das mais poderosas do mundo, se reencontrou mais uma vez com a tragédia que tem marcado sua história. A família anunciou que a busca sem sucesso por Maeve Kennedy Townsend McKean, de 40 anos, e seu filho Gideon, de 8, transformou-se em uma missão para recuperar os corpos. Os dois não retornaram na última quinta-feira depois de um passeio de canoa na Baía de Chesapeake, região de Washington» («Os Kennedys lidam com nova tragédia», O Estado de S. Paulo, 6.04.2020, p. A6).

 

[Texto 13 115]

Léxico: «teleaula»

Notícias de Angola

 

      Cada vez tenho mais leitores em Angola (e, com o tempo, inimigos e fãs, isto anda sempre a par), e compreende-se porquê. «Como o Júnior, 8 anos, e Magui, 9, alunos da 3ª e 4ª classes da Escola Lueji a Nkonde, da Centralidade do Kilamba, em Luanda, pais e encarregados de educação sentaram-se com os filhos na quinta-feira para o primeiro dia de tele-aulas» («Teleaulas prendem atenção dos alunos», Isaque Lourenço, Jornal de Angola, 6.04.2020, p. 26).

      Percebe-se que é Isaque Lourenço quem não sabe escrever a palavra, pois que a escreveu mal quatro vezes, mas também se vê que um dos revisores, Rui Ramos, Arlindo Soares ou Esperança Vieira Dias, não fez, como devia, o seu trabalho. Porto Editora, aqui tens uma palavra apenas usada em Angola.

 

[Texto 13 114]

Topónimos alienígenas

No Porto escrevem assim?

 

      «Numa recente entrevista ao Corrière della Sera, Giorgio Palù, docente emérito de microbiologia em Pádova, professor de neurociência em Philadelphia e presidente cessante da Sociedade Europeia de Virologia, acrescentou outras razões. Antes de mais, a escolha de transferir os doentes de Codogno, primeiro foco do coronavírus, para outros hospitais “foi infeliz” e “emocional”» («Explicações para a hecatombe lombarda», Sandra Ferreira, Jornal de Notícias, 6.04.2020, p. 6). Sandra Ferreira, então agora é assim que se escrevem esses topónimos? Nunca os viu escritos de outra forma?

 

[Texto 13 113]

Léxico: «pré-sintomático»

Ainda palavras da pandemia

 

      «“A razão para esta recomendação é porque estudos estão a revelar que algumas pessoas assintomáticas e pré-sintomáticas estarão a transmitir a doença [da covid-19]. Não temos evidências perfeitas (...), mas parece cada vez mais evidente”, adiantou, por seu lado, o governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, citado pela agência Efe» («Nova Iorque aconselha cidadãos a tapar boca e nariz nas ruas», TSF, 3.04.2020, 8h10). Como conceito que é, creio que faz todo o sentido levá-lo para os dicionários, ou os falantes vão meter os pés pelas mãos, como é habitual.

 

[Texto 13 112]

Léxico: «instanciar»

Em filosofia, em matemática, em...

 

      «A atitude científica é um espírito de grupo, instanciado em coisas como a partilha de dados, revisão pelos pares e replicação. A ciência não é perfeita, nem os cientistas o são. Mas, através do escrutínio crítico do trabalho uns dos outros, eles encontraram uma maneira de empregar uma “atitude” que permite sempre que os dados tenham a última palavra [afirma Lee McIntyre]» («Lee McIntyre, o mentor da ciência na luta contra os negacionistas: “Os cientistas não estão habituados a defender os seus resultados”», Marta Leite Ferreira, Observador, 6.11.2019, 11h51). Leio o verbo instanciar em textos de filosofia e de matemática, por exemplo, mas nos dicionários nem rasto.

 

[Texto 13 111]

Léxico: «estatista»

Ora esta...

 

    «Depois, foi o Brexit... muitos dos nossos liberais não tiveram dúvidas em apoiar de forma explícita a visão estatista e centralizadora da economia defendida por Farage e Boris» («‘Oh Elsa, vais presa? Não, vou dormir com o chefe!’», José Bento da Silva, Observador, 13.11.2016, 16h06).

      É bem verdade que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe o termo estatista, onde remete para estaticista (procedimento que repetem amiúde, levando ao engano o leitor semiletrado), mas a definição deste não é a do termo no texto acima: «pessoa que se ocupa de estatísticas». Aqui, estatista é o que advoga o estatismo, a pessoa partidária do estatismo. E estatismo (que remete para estadismo) já se encontra nesta acepção naquele dicionário. Menos mal.

 

 

[Texto 13 110]

Léxico: «sardoal»

Um estranho caso

 

      Há dois sardoais, nomes comuns, mas nenhum nos nossos dicionários. Isto é simplesmente inacreditável. Nem a existência do topónimo os ilumina. «O monte era um sardoal, isto é, uma brenha cerrada onde os sardões tinham ninho (foi precisamente numa lapa onde vivia um sardão que apareceu a imagem, diz a tradição)» (Itinerário Português: o tempo e a alma, José H. Saraiva. Lisboa: Gradiva, 1987, p. 525). «Mais dizia, que no local onde está a cidade fôra um sardoal espesso, no qual os habitantes do cabeço vinham pastorear seus gados, e sendo por uns pastores encontrada, no espesso da mata, a imagem da Senhora» (Memórias Arquelógico-Históricas do Distrito de Bragança, Vol. 1, Francisco Manuel Alves. Bragança: Tip. Empresa Guedes, 1910, p. 24).

 

 [Texto 13 109]

Como se escreve por aí

Também epidémico

 

      Está a repetir-se demasiado: «Entre o material oferecido pela empresa encontram-se “cerca de 80 ventiladores topo de gama”, que chegam a Lisboa neste domingo “para suprimir necessidades de hospitais portugueses”» («Covid-19. Imobiliária chinesa oferece a Portugal 4,6 milhões de euros em equipamento médico», João Francisco Gomes, Observador, 4.04.2020, 19h02). Estudaram muito, é o que é, e estas coisinhas já não entraram.

 

[Texto 13 108]