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Linguagista

«Tratar-se de», mais uma vez

E não chega

 

      E há muitos casos de reinfecção? «Não tendo ainda experiência pessoal com casos que tenham recidivado ou que, depois de declarados curados, tenham voltado a contrair esta doença, creio também poder afirmar que se tratam de casos raros e mal esclarecidos [responde o pneumologista José Reis Ferreira]» («“Imunidade ao vírus pode ser temporária”», Vanessa Fidalgo, Correio da Manhã, 14.04.2020, p. 10).

      Especialista, sim, mas não na língua portuguesa. E a jornalista também não é lá grande espingarda (esta, comprovei-o agora, a Porto Editora também não a conhece).

 

[Texto 13 149]

Uma espécie (inferior) de português

Deus nos valha

 

      «Não podendo ou querendo ser em mais nada como a Alemanha, devíamos poder imitá-la na possibilidade de fazer testes de imunidade de forma generalizada, até porque já todos adivinhámos que nem na desgraça comum poderemos acharmo-nos iguais na UE e que a austeridade que aí vem não vai ser como a outra que já tivemos. Não queríamos estar nos sapatos de António Costa» («Os sapatos de Costa», Fernanda Cachão, Correio da Manhã, 14.04.2020, p. 2).

      Para isto é que não há antiviral nem vacina. Então, Fernanda Cachão, acha mesmo que em português se diz «estar nos sapatos de alguém»? E acha que é gramatical «poderemos acharmo-nos»?

 

[Texto 13 148]

O caso da Lusa

Deus nos livre

 

      «O incêndio que deflagrava há mais de dez dias na zona de exclusão de Chernobil e se aproximava da central nuclear foi extinto, anunciou esta terça-feira o serviço estatal para situações de emergência da Ucrânia. O responsável desta agência estatal, Nikolai Chechetkin, informou o Presidente Volodymyr Zelenskyi do fim do fogo» («Extinto incêndio que deflagrava há dez dias na zona de exclusão de Chernobil», Observador, 14.04.2020, 15h23).

      É da Lusa (mas pouco ou nada luso), e, por isso, o autor é sempre anónimo. Foi um deles, e por certo que não o que conhece melhor a nossa língua. Quando o plumitivo que redigiu a notícia tiver tempo, o que há-de ser já hoje, agora mesmo, procure saber num dicionário o que significa o verbo «deflagrar». Vai ficar (ou não, e será ainda pior) surpreendido.

 

[Texto 13 147]

Um caso de tecnofilia

Uma parafilia para o século XXI

 

      «Um servidor do Grupo EDP foi penetrado por hackers que roubaram dados sensíveis» («Piratas exigem resgate de dez milhões à EDP», Alexandre Panda, Jornal de Notícias, 14.04.2020, p. 44).

      Francamente, a penetrarem um servidor... Sempre se ouviu falar de casos semelhantes, com ovelhas, cabras, cadelas, casos de zoofilia. Repugnante. Mas isso é lá nas aldeias, claro. Neste caso, é tecnofilia.

 

[Texto 13 146]

«Tetrabytes»!

Para onde quer que nos viremos

 

      «A EDP foi ontem alvo de um ataque informático considerado sem precedentes. Os piratas, que conseguiram penetrar num servidor interno da elétrica nacional, reclamam agora dez milhões de euros de resgate. [...] De acordo com informações recolhidas pelo JN, depois de ter conseguido o acesso, os intrusos publicaram na chamada dark net – uma parte da Internet que é inacessível à maioria dos utilizadores e onde o anonimato é sempre garantido – um pedido de resgate. [...] No pedido de resgate, dirigido à EDP, os indivíduos explicam ter sacado 10 tetra bytes de informação e publicam algumas imagens dos ficheiros que têm agora na sua posse. São pastas, entre outras, sobre finanças, recursos humanos e management que os piratas garantem ter sacado» («Piratas exigem resgate de dez milhões à EDP», Alexandre Panda, Jornal de Notícias, 14.04.2020, p. 44).

      Estão a perceber? São «tetrabytes» porque tudo isto se passa na dark net. É também antológico, e por mim merece o prémio para o disparate do dia, quando não da quarentena.

 

[Texto 13 145]

«Trovejar a potes»!

Outro disparate antológico

 

      Grandes comunicadores... Disseram-me que, há momentos, Tânia Ribas de Oliveira, com quem embirro como nem se imagina (mas ela não tem culpa, é assim apenas porque é quase sósia de outra pessoa com quem embirro por motivos sérios), dizia lá no seu programinha da RTP1 que «troveja a potes em Lisboa». Ainda assim, sendo disparate antológico, não supera, a meu ver, o «bramindo o estandarte» (que podem rememorar aqui) do político bissexto Pedro Lomba.

 

[Texto 13 144]

Léxico: «quadra»

Olha a lusofonia, Porto Editora

 

      Tenho de baixar a produção, como a OPEP. Pelo menos enquanto a Porto Editora não retomar a laboração. «Lembro perfeitamente as dez quadras que havia entre a casa da família Llosa, na Rua Ladislao Cabrera, e o colégio de La Salle. Eu tinha 5 anos e, sem dúvida, estava muito nervoso» («O Irmão Justiniano», Mario Vargas Llosa, tradução de Anna Capovilla, O Estado de S. Paulo, 9.04.2020, p. H5).

 

[Texto 13 143]