16
Abr 20

Como se escreve por aí

Os milhões, sempre

 

      «Assintomático. Confinamento. Epidemiologia. Gel hidroalcoólico. Imunidade. Mitigar. OMS. Patologia. Quarentena. Teletrabalho. Zaragatoa. Todo um campo lexical que açambarca os noticiários, horas a fio, páginas sem conta. Um qualquer algoritmo também há de calcular as milhões de vezes que se pronuncia a palavra-chave, Covid-19, a da pandemia que faz dos repórteres novos soldados de uma mobilização profissional sem precedentes. Jornalismo de guerra? “Mais do que isso. É um desígnio à escala global”, diz Felisbela Lopes [professora de Jornalismo e de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho]» («A agenda “coronacêntrica” e o jornalismo de guerra», Almiro Ferreira, Jornal de Notícias, 12.04.2020, p. 19).

      Começa muito bem, até parece um doutor no Templo — mas pouco depois esmerdalha-se (Porto Editora, agarra-o) todo contra o muro da gramática: Almiro Ferreira, é «os milhões». Diacho! Mas nos cursos de Jornalismo não têm uma disciplina de Português?

 

[Texto 13 158]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
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Léxico: «circulação extracorporal»

Não apenas circulação

 

      O que é o ECMO? «É uma máquina que faz a oxigenação do sangue fora do corpo, substituindo a função pulmonar e cardíaca. Em cuidados intensivos, o sangue é extraído por uma artéria e, ao passar pela máquina, é-lhe removido o dióxido de carbono e adicionado oxigénio. Depois, volta ao corpo por outra veia. O objetivo é manter o doente vivo até que haja recuperação das funções perdidas. Em emergência pré-hospitalar é utilizada para preservar os órgãos abdominais de uma vítima mortal para transplante» («Máquina que substitui pulmões já salvou doentes muito críticos», Inês Schreck, Jornal de Notícias, 12.04.2020, p. 9). «E desde outubro faz parte do programa de oxigenação por membrana extracorporal (ECMO), um procedimento para fornecer oxigénio ao coração e aos pulmões em doentes com dificuldades respiratórias. É nessa unidade que se encontra atualmente, e na qual prestou assistência a Boris Johnson» («Luís Pitarma é de Aveiro e tem 29 anos. Foi ele o enfermeiro português ao lado de Boris Johnson», Mauro Gonçalves, Observador, 12.04.2020).

      No dicionário da Porto Editora, podemos ver a locução circulação extracorporal, mas o que me parece é que a definição pode ser melhorada, ou mesmo corrigida: «circulação do sangue fora do corpo, com apoio de uma máquina coração-pulmão». E porquê corrigida? Pois porque aquela máquina não faz apenas a circulação do sangue, também o oxigena. No Brasil, diz-se circulação extracorpórea.

 

[Texto 13 157]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «peixe-dragão | peixe-dragão-do-mar-profundo»

Dragões do mar

 

      «O estudo de Velasco-Hogan focou-se num tipo específico de peixe-dragão, o Aristostomias scintillans. Apesar de ser do tamanho de um lápis, chega a caçar presas até metade do seu tamanho. Quando a comida escasseia, os peixes-dragão-do-mar-profundo chegam inclusive a comer-se uns aos outros. Se os seus dentes fossem visíveis, afirmam os cientistas, as presas identificá-los-iam e fugiriam imediatamente» («O extraordinário caso do peixe-dragão-do-mar-profundo e dos seus dentes invisíveis», Pedro Dias, Visão, 10.06.2019, 11h30).

 

[Texto 13 156]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «sangue periférico»

Na periferia

 

      «O estudo piloto levado a cabo pela Câmara Municipal de Cascais começou na segunda-feira. Numa primeira fase, seis equipas compostas por paramédicos e profissionais da autarquia vão testar entre 400 e 500 moradores, para avaliar a prevalência da Covid-19 no concelho e o nível de imunidade existente. O teste, capaz de fazer o despiste em dez minutos, é realizado com uma amostra de sangue e apresenta um nível de fiabilidade de 98,6%. [...] Trata-se de um teste simples, no qual é retirado sangue periférico, com um nível de fiabilidade que os estudos mostram ser de 98,6%, explica um dos paramédicos destacados para a missão» («Cascais avalia prevalência da Covid-19 no município com vaga de testes a moradores», Sofia Freitas Moreira e Lusa, Rádio Renascença, 14.04.2020, 11h12).

      A propósito, Porto Editora, não te esqueças de hemoterapeuta, aqui deixada no dia 10.

 

[Texto 13 155]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «forrozeiro»

Dança ou toca forró

 

     Porto Editora, regista aí este: «Safadão reduz salários e forrozeiros demitem músicos temporariamente» (Fábia Oliveira, O Dia, 9.04.2020, p. 13).

 

[Texto 13 154]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «telensino»

Parece mal

 

      «Embora ainda se desconheçam os conteúdos que o Ministério da Educação está a preparar para que as aulas através de telensino se iniciem a 20 de abril, no canal RTP Memória, o horário das disciplinas do 1.º ao 9.º ano já foi divulgado. [...] Mas as diferenças entre a telescola e do tele-ensino não se ficam pelo tempo de emissão de cada disciplina» («Telensino esbate assimetrias, mas papel de docentes continua fundamental», Alexandra Barata, Jornal de Notícias, 13.04.2020, p. 10).

      Isto é tudo novo, e ainda não se sabe. Tudo, vamos lá, é uma maneira de dizer: a jornalista Alexandra Barata tinha obrigação de saber que se escreve telensino. Sobretudo tinha obrigação de não deixar no artigo as tentativas de acertar na ortografia. Parece mal.

 

[Texto 13 153]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «peste branca»

O outro nome da tuberculose

 

      «Este sentimento da escritora e docente do ensino superior resulta do que tem observado e da sua vivência pessoal e familiar. “Quando saímos de casa, cruzámos com determinada pessoa e ela não se distancia, somos nós que passámos para o outro lado e nos afastámos; parece que há até o receio de olhar o outro, de o cumprimentar. Eu não sou diferente e sinto que o meu primeiro gesto é baixar os olhos, ou afastar para o lado a minha filha”, diz Isabel Rio Novo, que há dez anos enfrentou um cancro, tendo encontrado nessa vivência formas de compreender como terá sido lidar com a tuberculose, a “peste branca” que em Portugal ceifou de dezenas de milhar de vidas.» («Do isolamento pela Covid-19 à exclusão pela “peste branca”», Luís Aresta, Rádio Renascença, 13.04.2020, 11h15).

 

[Texto 13 152]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Abr 20

Léxico: «desescalada», de novo

Ora reparem

 

      Falei aqui de desescalada, mas vejam agora isto: «O chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, recordou no domingo que o confinamento obrigatório ainda se encontra em vigor e pediu uma “descalada” da tensão política no país, insistindo para a necessidade de uma grande colaboração de “reconstrução” para enfrentar a crise da pandemia» («Espanha regista nova descida no número de mortes em 24 horas», Sofia Freitas Moreira, Rádio Renascença, 13.04.2020, 10h37).

      Ora, já vimos isto antes, ou uma tentativa de dizer o mesmo: «Gandhi pregava a “descalada” das necessidades. Despojar-se dum objeto era um acontecimento festejado como uma vitória» (O Tempo nas Palavras, António Alçada Baptista. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2012, p. 161). «Esta “descalada” do saber também me fez partir alguns ídolos e darme conta de alguns casos graves de opressão do saber» (Peregrinação Interior, Vol. 1, António Alçada Baptista. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2011, p. 67).

 

[Texto 13 151]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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