25
Abr 20

Léxico: «curro»

Inacreditável

 

      «Cada preso teve a sua experiência própria e enfrentou essa realidade de modo diferenciado. Os períodos de isolamento total, no meu caso, resumem-se a cinco meses nos “curros” do Aljube, um mês numa cela de Caxias e outro mês numa cela de Peniche, e dez dias no segredo de Caxias. Nenhuma das experiências foi igual. Falar dos meses nos “curros” do Aljube é falar de se estar num  buraco de cerca de um metro por dois, sem mobilidade, na obscuridade, sem meios de escrita ou de leitura, sem relógio, sem visitas ou conhecimento do que passa no exterior e de perda da própria noção do escoar do tempo» («Duas realidades a não confundir», Domingos Abrantes, operário, militante comunista e membro do Conselho de Estado, Público, 25.04.2020, p. 8).

      Como é que isto pode estar fora dos nossos dicionários? Em quarenta e seis anos, ainda não tiveram tempo de a dicionarizar.

 

[Texto 13 222]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Crise epidérmica», disse ele

Não foi boa ideia

 

      Um velhote (espero que não me obriguem a escrever «sénior», ou isto vai correr mal), equipado como se fosse entrar no bloco operatório, perguntado, em plena rua, sobre as comemorações do 25 de Abril este ano, disse compreender as restrições, dada a «crise epidérmica» que se vive. Quem me manda ver televisão?

 

[Texto 13 221]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | favorito
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Léxico: «covidário», de novo

Vamos vê-lo mais, talvez por anos

 

      Pois é Porto Editora, ele vai aparecendo. Decerto, é da gíria médica e pode ser circunstancial, mas vai deixar rasto e causar perplexidade se não ficar registado. «Nunca saberemos ao certo como dosear de forma perfeita a distensão e a contracção das medidas de confinamento, e não acho sequer que isso possa ser exigido às autoridades de saúde e a quem nos governa. Mas a pressão social não deve ir no sentido de continuarmos todos em posição fetal no sofá da sala, mas sim na busca da máxima abertura em função da capacidade hospitalar disponível. Há que reforçar essa capacidade e aproveitá-la bem. Níveis demasiados [sic] baixos de ocupação dos chamados “covidários” são excelentes na perspectiva de quem considera a saúde o bem supremo, mas, por mais insensível que isto possa parecer, não o são necessariamente na perspectiva do país» («Infecções a menos podem ser um problema», João Miguel Tavares, Público, 25.04.2020, p. 56).

 

[Texto 13 220]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | favorito
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25
Abr 20

Léxico: «bola de capão»

Quem tinha uma era idolatrado

 

      Dois leitores deste blogue lembram-se bem — e a quarentena ajuda neste processo rememorativo, como também, dizem os psis, se sonha mais nestas situações traumáticas — das bolas de capão que tinham na infância e adolescência. Encontro-as igualmente na literatura portuguesa e brasileira. Contudo, em nenhum dos dicionários que aqui tenho a vejo. É o que eu digo, são dicionários fora dos dicionários. «Depois, era a máquina de cinema, o relógio de pulso que não dava horas, as bolas de capão em que apetecia chutar até deitar os bofes pela boca, mais as gaitas de beiços e os piões de lata que zuniam como se tivessem coisa má pela banda de dentro» (O Pau-de-Sebo, Amândio César. Lisboa: Edições Panorama, 1966, p. 39).

 

[Texto 13 219]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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