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Linguagista

Léxico: «taifa | aftácida | aftásida»

O principal para o fim

 

      Na Infopédia, a palavra do dia é taifa. Debrucemo-nos apenas sobre o sentido histórico: «HISTÓRIA nome dado aos reinos muçulmanos criados na Península Ibérica após a dissolução do califado de Córdova». Proponho um pequeno acrescento: «HISTÓRIA nome dado aos reinos muçulmanos criados na Península Ibérica após a dissolução do califado de Córdova (912-1031)». Por outro lado, na etimologia, que a Porto Editora diz ser «do árabe tā’ifâ, “bando de gente”», deve reparar-se que «bando de gente» é ambíguo, pelo que, como fazem alguns arabistas, se devia traduzir por «partido», «facção» ou «bandeira». De facto, com a derrocada do califado de Córdova, surgem as taifas. A mais próxima de nós era a poderosa taifa de Badajoz, de que Évora fazia parte, governada pela dinastia dos Aftásidas, ou Aftácidas — termos que, diacho, a Porto editora não acolhe e, contudo, vejo no VOLP da Academia Brasileira de Letras.

 

[Texto 13 241]

Léxico: «barbeiragem»

Mas não nesta

 

      «A cartilha das crises políticas mostra que um presidente em apuros consegue salvar a própria pele se tiver habilidade para fazer manobras certeiras e aproveitar alguma brisa a seu favor. Uma sequência de barbeiragens no meio de uma tempestade, por outro lado, pode ser mortal» («Como Dilma, Bolsonaro arrisca o pescoço em crise de frentes múltiplas», Bruno Boghossian, Folha de S. Paulo, 26.04.2020, p. A6). Até está no dicionário da Porto Editora («passagem de um automóvel rente a outro ou a um obstáculo»), mas não nesta acepção.

 

[Texto 13 240]

Léxico: «máscara comunitária ou social»

Sendo assim

 

      «“Ninguém deve entrar nos hospitais sem ser dada à porta uma máscara cirúrgica. Quando os cidadãos andam na rua, vão às compras, devem utilizar uma máscara comunitária, que dá proteção semelhante à máscara cirúrgica. Essas máscaras comunitárias são, também, importantes, para que a retoma, que tem de ser progressiva e monitorizada de perto, seja possível”, salientou o bastonário» («Bastonário da Ordem dos Médicos diz que “R” português ainda é elevado para a retoma», Inês Braga Sampaio, Rádio Renascença, 27.04.2020, 11h50).

      Primeiro torci o nariz, mas, vendo bem, serve para as distinguir das outras — e usa-se cada dia mais. E se até já está na boca do bastonário da Ordem dos Médicos, quer dizer que é um conceito operacional. Dicionarize-se, ou em 2040, quando toda a gente já se terá esquecido deste surto pandémico (e dos piedosos propósitos de redenção, mas estes não chegarão intactos ao próximo Natal), ninguém saberá do que se trata. O dicionário da Porto Editora, por exemplo, já regista «máscara antigás» (que um editor, um dia, quis que eu escrevesse «anti-gás», para o leitor perceber...) e «máscara mortuária», menos presentes no nosso dia-a-dia...

 

[Texto 13 239]

Léxico: «capoto»

Visto da minha rua

 

      Fui apanhar um pouco de sol até ao fundo da minha rua, agora que finalmente comecei a melhorar, e num prédio em construção, no segundo andar (desde 1 480 000 €...), vi um trabalhador a acarretar ao ombro quatro ou cinco placas de capoto, com que já revestiram boa parte do prédio. Pensei logo, é claro, não apenas que uma criança de 10 anos seria capaz de fazer este trabalho (mas ainda hão-de declarar heróis os trolhas), mas também — é o que me distingue, estas intuições — que os nossos queridos dicionários quase de certeza não teriam a palavra. Sou bruxo. «Está prevista “a aplicação de revestimento exterior em capoto nas fachadas dos prédios e a substituição de caixilharias por soluções de maior eficiência energética”, explicou Almeida Henriques aos jornalistas, no final da reunião de Câmara» («Bairro social da Balsa em Viseu com melhoramentos energéticos de 750 mil euros», Salvador Nogueira, Diário de Notícias, 17.05.2019, 14h40).

 

[Texto 13 238]

«Abertura de trincheira»?

Será mesmo assim?

 

      «A prefeitura [de Manaus] alega que a metodologia de “abertura de trincheira” é internacional. Diferentemente do que se convencionou chamar de vala comum, uma área de enterros sem identificações, essa medida “preserva a identidade dos corpos e os laços familiares, com o distanciamento entre caixões e identificação de sepultura”» («Manaus começa a enterrar em vala coletiva», Célio Andrade Silva, O Estado de S. Paulo, 22.04.2020, p. A9).

      Isto faz sentido? Na imprensa norte-americana, lê-se, a propósito dos mortos por covid-19, que são enterrados no cemitério da ilha de Hart em — mass graves. E nestas, pelo menos na definição da expressão inglesa, os corpos tanto podem estar identificados como não. Para o dicionário da Porto Editora, vala comum é a «sepultura onde se enterram em conjunto muitos cadáveres», sem especificar se estão identificados ou não. Contudo, no regulamento do cemitério da Freguesia de Arcozelo, e imagino que sejam, nisto, todos iguais, porque decorre da lei geral, diz-se que «não são permitidas inumações em sepultura comum não identificada, vulgo vala comum», excepto «em situação de calamidade pública». Epígrafe do artigo? «Sepultura comum não identificada».

 

[Texto 13 237]

Léxico: «morcego-nariz-de-folha»

Ainda desconhecidos

 

      «Os morcegos que os investigadores estudaram foram os morcegos de nariz-de-folha da família “hipposideridae”, que são assim chamados devido ao nariz elaborado que têm para usar como radar. A família existe em África, Ásia e Australásia, mas o ramo africano é pouco conhecido, por falta de investigação e devido a serem encontrados em países muitas vezes instáveis politicamente» («Descobertas quatro novas espécies de morcegos “primos” do hospedeiro original da Covid-19», TSF, 22.04.2020, 14h21).

 

[Texto 13 236]

Cadê o português, gente?

Neste caso, no Brasil

 

      «“Hoje não temos mais o gargalo dos insumos; nosso gargalo é a logística da coleta e o processamento”, diz ele. “Também sabemos que há dificuldade hoje de achar no mercado swab [cotonete nasal] para testagem massiva”, afirma» («Capacidade de coleta e de análise de testes é entrave, diz Fiocruz», Natália Cancian, Folha de S. Paulo, 21.04.2020, p. B2). E depois temos destas falhas ridículas, sim, porque é uma falha. É preciso recorrerem a uma palavra inglesa, ó seus infelizes?

 

[Texto 13 235]

Como se escreve por aí

Neste caso, em Angola

 

      «Comecemos pela mãe de todos os “covidismos”: Covid-19: palavra ainda não dicionarizada, que, nalguns ambientes, vai criando discussões, por exemplo, quanto ao seu género e a sua escrita. Entretanto, importa começar por referir que covid-19 é o nome da doença provocada pelo vírus que recebeu a designação de SARS-CoV-2 pelo Comité Internacional para a Taxonomia dos Vírus» («Descodificando o léxico e a semântica da Covid-19», Abel Vidente Luemba, Jornal de Angola, 26.04.2020, p. 18).

      Para comprovar essa flutuação, o autor, professor no ISCED – UON, escreve a palavra de duas formas. Quanto à variação em género, há-de ter visto essa incoerência no próprio jornal em que escreve. E também convinha que usasse fontes mais actualizadas, pois recorrer à edição de 2012 do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não fica muito bem para o propósito em vista. Dou-lhe 11 valores.

 

[Texto 13 234]