29
Abr 20

O género de «ênfase»

Nem daqui a trezentos anos

 

      «Sabe-se pouco do projeto britânico. O ênfase das declarações públicas centrou-se na mobilização de 500 voluntários, com idades entre os 18 e os 55 anos, que serão divididos em dois grupos: metade recebe a nova vacina contra a Covid-19, a outra parte será inoculada com uma vacina contra a meningite» («Reino Unido testa vacina», João Vaz, Correio da Manhã, 23.04.2020, p. 18).

      São as tais certezas — consultarem um dicionário é que acham que não vale a pena.

 

[Texto 13 254]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «desestressar»

Mais uma brasileira

 

      «“Sabemos dos riscos, mas todos em casa já estavam cansados de ficar presos. A gente precisava sair um pouco para desestressar”, disse o torneiro mecânico Antônio Alves Guedes, 53, de São José dos Campos (SP), que almoçava com sua família de oito pessoas na Martim de Sá. “Trouxemos a comida de casa, porque todos os restaurantes estão fechados”» («Turistas ignoram decretos em SP e vão à praia mesmo durante a quarentena», Reginaldo Pupo, Folha de S. Paulo, 27.04.2020, p. B5).

      Os nossos psis estão empolgadíssimos — vai sair muita gente, esperam/prevêem eles, com problemas mentais. Mas não havia já muita gente com problemas mentais, mais até do que no resto da Europa? Ou seja, vão sair como entraram, com a única diferença de que agora não querem sair.

 

[Texto 13 253]

Helder Guégués às 10:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «TNT»

Este é inofensivo

 

      «Em apenas três dias, a Câmara de Leiria mobilizou 600 voluntários para costurarem 200 mil máscaras reutilizáveis, para entregar a 60 lares e outras instituições, no âmbito da iniciativa ‘Costurar com o coração’. Para participar, o único requisito é ter máquina de costura, já que o material é fornecido pela autarquia. Até ontem, foram entregues 90 quilómetros de elástico, 30 quilómetros de arame e milhares de metros quadrados de tecido TNT, o mais adequado para a confeção das máscaras» («600 voluntários vão costurar máscaras», Isabel Jordão, Correio da Manhã, 12.04.2020, p. 13).

      Nos nossos dicionários, o único TNT é o trinitrotolueno, mas nesta quarentena só me aparecem referências a este TNT, tecido não tecido. A propósito: que idiotice é essa de conduzirem de máscara, meus queridos concidadãos?

 

[Texto 13 252]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «chupador | pescador»

Não é um vampiro

 

    Com o comércio quase todo fechado, ainda assim o Adolfo conseguiu comprar uma junta do chupador, para depois montar o cárter, já completamente descarbonizado, no seu Alfa Romeo 156 (comprado por 1000 euros...). Os lexicógrafos é que ainda não encontraram o chupador. Creio que no Brasil lhe chamam pescador.  Fica-se a perceber porque não consultam dicionários os nossos mecânicos.

 

[Texto 13 251]

Helder Guégués às 10:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

O plural — uma dificuldade portuguesa

Basta pensar

 

      «Todos sabem que há seis milhões de fiéis bahá’i no mundo — três mil dos quais em Portugal — e que o atleta olímpico Nelson Évora é um deles» («Liberdade religiosa e o bom senso católico», Bárbara Reis, Público, 17.04.2020, p. 24). Não, não, Bárbara Reis. Antes assim (mas falta o acento): «Para os baha’is, a verdade religiosa não é absoluta, mas relativa, a revelação divina se realiza de maneira contínua e progressiva» (Crenças, Seitas e Símbolos Religiosos, Humberto Porto. Lisboa: Edições Paulinas, 1983, p. 61).

      Bárbara Reis, também escreve «milhões de fiéis cristão»? Ora aí tem. Não tem de quê.

 

[Texto 13 250]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Falsos amigos — o habitual

Há quantos anos?

 

      «Joe Exotic é um auto-intitulado redneck, o termo derrogatório para os brancos pobres do meio rural norte-americano. Cabelo oxigenado culminando numa mullet, é um amante de armas e o fundador, em Oklahoma, de um jardim zoológico privado inaugurado no final dos anos 1990, especializado em tigres e outros felinos grandes» («Joe Exotic, o rei dos tigres que cativou o mundo», Rodrigo Nogueira, Público, 8.04.2020, p. 31).

      Há quantos anos Rodrigo Nogueira não olha para um dicionário de português? Obrigado a observar a quarentena, tem agora tempo para consultar um qualquer e surpreender-se.

 

[Texto 13 249]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «cesta básica»

O mesmo: no Brasil e em Angola

 

      «A Angoalissar, em colaboração com a Comissão Multissectorial para a Prevenção e Combate à Covid-19, está a doar produtos da cesta básica a famílias mais carenciadas de sete províncias durante o Estado de Emergência. Segundo uma nota de imprensa, a iniciativa visa ajudar cerca de 6.500 famílias necessitadas, que vão receber até ao final deste mês produtos de primeira necessidade como arroz, feijão, açúcar, massa alimentar, farinha de trigo, fuba, leite condensado e leite em pó, entre outros. Os produtos serão distribuídos a famílias das províncias do Cunene, Namibe, Huíla, Cuanza-Norte, Bengo e Cabinda, com foco principal nos municípios mais carenciados» («Famílias vulneráveis recebem cesta básica», Jornal de Angola, 27.04.2020, p. 4).

      Porto Editora, diz-se cesta básica — o nosso cabaz de compras — no Brasil e em Angola. Pelo menos.

 

[Texto 13 248]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «domiciliar»

No Brasil e em Angola

 

      «Salientou que todos os cidadãos que regressaram ao Cuando Cubango durante os dias do levantamento do cerco sanitário foram postos a cumprir quarentena domiciliar e o não cumprimento obrigará a que as autoridades sanitárias da província lhes submetam à quarentena institucional. [...] Por esta razão decidiu-se que os mesmos ficarão em quarentena domiciliar, sob o olhar atento das autoridades sanitárias da província» («Passageiros retidos em Menongue à espera do comboio», Xavier António, Jornal de Angola, 13.04.2020, p. 6).

 

[Texto 13 247]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «ressocialização»

Usam-na e não a registam...

 

      «No caso dos indultos ordinários as razões de clemência apontadas são quase sempre as “humanitárias” ou de “ressocialização”. Mas houve caos em que o decreto presidencial foi bastante mais específico» («Marcelo revela lista de reclusos. O que é um indulto? Como é que o Presidente decide?», Marina Pimentel, Rádio Renascença, 27.04.2020, 7h17).

 

[Texto 13 246]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «imunomodelador»

Vamos adivinhar o que é?

 

      «O medicamento imunomodelador tocilizumab mostrou eficácia na prevenção da “tempestade inflamatória” nos doentes com Covid-19 em estado grave, segundo um estudo francês ainda não publicado e cujos primeiros resultados foram divulgados esta segunda-feira» («BTocilizumab. Medicamento para a artrite reumatóide pode evitar “tempestade inflamatória” da Covid-19», Rádio Renascença, 27.04.2020, 19h35).

 

[Texto 13 245]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «ecoilha | motocisterna»

Não vejo porquê

 

      A Porto Editora não gosta de duas coisas, pelo menos: de ecoilhas e de motocisternas. As primeiras, dessas subterrâneas, vejo-as aí por todo o lado e até estão consagradas (aqui) e definidas na lei: «conjunto de contentores, colocados em espaço público ou entidades, preparados para a deposição multimaterial de resíduos urbanos, incluindo indiferenciados». As motocisternas, triciclos com um depósito com 1000 litros de capacidade, de que haverá milhares em Angola, para fazerem distruibição de água pelas populações, também viram a porta fechada. Pergunto a mim mesmo se não será porque a única motocisterna que encontram nos dicionários é um termo italiano, «motonave adibita al trasporto di sostanze liquide».

 

[Texto 13 244]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «marmiteiro»

Em neerlandês...

 

      «Ex-coordenador administrativo de uma empresa de auditoria, Felipe Battaglini, 40, se preparava para abrir uma loja de congelados quando foi surpreendido pela quarentena imposta pelo coronavírus. A solução foi transformar a cozinha de casa em um novo negócio, que não pretende mais abandonar. “Não tem mais volta. Eu sou marmiteiro”, afirma» («Venda de marmitas vira alternativa para pessoas que perderam o emprego», William Cardoso, Folha de S. Paulo, 27.04.2020, p. B3). Porto Editora, dizes que é arbeider die zijn middagmaal van thuis meebrengt, mas não é apenas isso — no artigo, não é isso.

 

[Texto 13 243]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
29
Abr 20

Léxico: «caçamba»

Não se percebe

 

      «Em 1967, a versão picape veio completar a família. Além do modelo com caçamba (que ficou jocosamente conhecida como “cabrita”, por seu comportamento saltitante), no mesmo ano a Kombi recebeu motor 1500, de 52 cv. No ano seguinte, a novidade foi o sistema elétrico de 12 volts, mais moderno que o de 6 volts utilizado até então. Como resultado, entre outras melhorias, os faróis passaram a iluminar mais» («Kombi faz 70 anos e continua na ativa», Hairton Ponciano, O Estado de S. Paulo, 22.04.2020, p. D1). O dicionário da Porto Editora até regista caçamba, que pode supor-se que é esta acepção, mas muito mal redigida: «recipiente usado para levar para carga, areia, cimento, etc., em camiões, betoneiras, etc.» No Michaelis: «Receptáculo de caminhões, escavadeiras, guindastes, dragas etc.».

 

[Texto 13 242]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,