12
Mai 20

Léxico: «hospital de campanha»

Todos saberão do que se trata?

 

      «Dentro de um campo acostumado a assistir a glórias do basquetebol, há três filas de camas e circuitos marcados no chão. O hospital de campanha na Arena Dolce Vita de Ovar vive uma aparente calma, sem novos doentes há dias. As portas fecham no final de julho, na mesma data que o hospital criado no Pavilhão Rosa Mota do Porto. Em Lisboa, a estrutura montada no Estádio Universitário não tem data de fecho» («Hospitais de campanha fecham só no final de julho», Catarina Silva, Jornal de Notícias, 11.05.2020, p. 8).

 

[Texto 13 330]

Helder Guégués às 17:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «cluster»

Dificuldade nenhuma

 

      Também vi o filme Contágio, de 2011, realizado por Steven Soderbergh. Claro, agora já é tarde, mas queria lembrar ao tradutor, Ricardo Brito, da Solegendas, que se escreve fómites e não «fômites». Para começar. Por outro lado, devia ter-se esforçado um tudo-nada para ultrapassar a dificuldade — que não é, na verdade, dificuldade nenhuma — de traduzir cluster. Espero que esta pandemia que estamos a enfrentar lhe mostre o caminho.

 

[Texto 13 329]

Helder Guégués às 16:45 | comentar | favorito

Léxico: «amortalidade»

Um dia, deixará de ser neologismo

 

      «A longevidade é o tema central de um ciclo de conferências promovido pela Culturgest, em Lisboa, no qual a presidente do Instituto de Medicina Molecular (IMM) vai participar. A especialista explicou que a amortalidade, conceito que descreve a possibilidade de se viver mais anos sem envelhecer, é uma realidade mais próxima do que se julga. “O processo de envelhecimento não é irreversível e o conceito de amortalidade refere-se à possibilidade que a ciência nos oferece de que o envelhecimento das células possa ser revertido à medida que acontece”, explicou Maria do Carmo Fonseca, adiantando que isso já acontece e o desafio está já na fase seguinte» («Especialista portuguesa acredita que se está perto de reverter o envelhecimento», Diário de Notícias, 12.05.2020, 11h13).

 

[Texto 13 328]

Helder Guégués às 16:30 | comentar | favorito
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Como se escreve por aí

De fugir

 

      «Foi com uma saída tempestiva que Donald Trump terminou esta segunda-feira o briefing diário na Casa Branca. Depois de discutir com duas jornalistas, o presidente norte-americano acabou por abandonar a conferência de imprensa sem responder às últimas perguntas» («Trump abandona briefing diário depois de discutir com jornalistas», Ana Kotowicz, Observador, 12.05.2020, 7h52).

      Tempestiva, essa saída, do ponto de vista do próprio Trump, não, Ana Kotowicz? «A minha saída foi tempestiva, oportuna... Ah, os ordinários dos jornalistas!» Não: a jornalista devia ter escrito «intempestiva», isto é, súbita, repentina. A meu ver, certos jornalistas deviam confiar um pouco menos naquilo que julgam saber e comprovar mais o que escrevem e como o escrevem. ↓ ↓ ↓ ↓

 

[Texto 13 327]

Helder Guégués às 16:06 | comentar | favorito
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«Domingo de Ramos da Paixão do Senhor | Quaresma»

Da religião

 

      «Estamos abrindo aquela semana que a Igreja chama de Semana Santa. Neste domingo evocam-se dois mistérios: a Entrada de Jesus em Jerusalém e sua Paixão. Por isso, este dia litúrgico é chamado de Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, mais exatamente seria “Domingo da Paixão do Senhor nos Ramos”» (O Ano Litúrgico, Frei Alberto Beckhäuser. Petrópolis: Vozes, 2018, p. 49). Não vejo este domingo nos nossos dicionários. Outra definição que podia estar bem melhor é a de Quaresma, que está assim no dicionário da Porto Editora: «[com maiúscula] RELIGIÃO período do ano litúrgico católico, que decorre, como preparação penitencial da Páscoa, desde Quarta-Feira de Cinzas». Primeiro, era útil precisar o tempo da Quaresma, que se estende por seis domingos — chamados I, II, III, IV, V e Domingo de Ramos da Paixão (VI) —, assim como lembrar que evoca os quarenta dias de jejum vividos por Jesus no deserto antes de empreender a sua missão pública. «Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Depois de ter jejuado quarenta dias e quarenta noites, no fim teve fome.» Ainda que fosse nos nossos dias, não seria mais fácil, pois nem a Uber Eats nem a Glovo têm serviço nessas regiões inóspitas. O 40 é um número muito simbólico na Bíblia. Virá daqui o tempo (e o nome) das quarentenas?

      «O mais do que isto/ É Jesus Cristo,/ Que não sabia nada de finanças/ Nem consta que tivesse biblioteca...», escreveu Pessoa, mas nós temos de ter tudo isto clarinho nos dicionários, ou perder-se-á na voragem dos tempos. A propósito de Pessoa: não haverá nenhum português que nos últimos trinta anos tenha surrado os bancos da escola que não ouvisse ou lesse a expressão «obra édita» (pode é não se lembrar, mas esse problema não se trata neste departamento), e, contudo, em nenhum dicionário vemos «édito» neste sentido.

 

[Texto 13 326]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «catarinense»

De Santa Catarina

 

      «A quadrilha teria fraudado o fornecimento de 200 respiradores para o governo catarinense, adquiridos em março, ao custo de R$ 33 milhões. O pagamento já havia sido realizado. A entrega jamais foi feita. A ação foi realizada em conjunto com as polícias civis do Rio, São Paulo, Mato Grosso e Santa Catarina. A empresa e os envolvidos na fraude estavam no Rio. As ordens judiciais foram cumpridas em 12 municípios, dos quatro estados. Cerca de 100 policiais, entre civis, militares e rodoviários federais participaram da operação» («Fraude na pandemia», Renan Schuindt, O Dia, 10.05.2020, p. 5).

 

[Texto 13 325]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve por aí

Grandes inventores

 

      «Contam pelos dedos das mãos as noites que o corpo de Valentina Fonseca ficou naquele eucaliptal. Vão pegando e atirando para o chão, gesto contínuo, os ramos partidos usados para tapar o cadáver da criança de nove anos que ainda lá ficaram — como se eles próprios quisessem reconstituir o crime» («Valentina foi vestida depois de morta? Madrasta ajudou o pai a esconder corpo? Os mistérios da morte da criança que a PJ tenta desvendar», Carolina Branco, Observador, 11.05.2020, 2h16). Não vale a pena esforçar-se tanto a inventar o que já foi inventado, Carolina Branco: diz-se acto contínuo.

 

[Texto 13 324]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito

Léxico: «angolanizar | angolanização»

Mais Angola

 

      «Os indicadores de 2020 de transferência de competências no sector petróleo, em benefício da força de trabalho nacional, mostram que das oito operadoras activas no mercado nacional, cinco empresas têm níveis de angolanização acima ou bem próximo de 90 por cento. [...] O processo da angolanização do sector dos petróleos, que tem como objectivo facilitar o acesso dos nacionais à indústria do “ouro negro”, iniciou há cerca de 20 anos. No quadro do Decreto Executivo de 10 de Fevereiro de 2010, o Executivo define a angolanização como um processo que consiste na formação e integração dos quadros nacionais nas distintas empresas» («Angolanização evolui no sector petrolífero», Victorino Joaquim, Jornal de Angola, 8.05.2020, p. 26).

 

[Texto 13 323]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «undecentista | ducentista»

Dois séculos expungidos

 

      «Numa palavra: reconhece-se uma constante que, com raízes ducentistas, viria a moldar a arquitectura nacional durante alargado segmento da sua trajectória. Essa constante traduzir-se-ia em um feixe de tendências onde se incluem, por exemplo, a propensão a adoptar certos módulos na organização mural ou planimétrica, esquemas geométricos simples onde avultam a linha recta, as superfícies planas e os ângulos de noventa graus, um espaço interior menos premeditado do que resultante de operações construtivas primariamente funcionais, acentuada simplicidade na volumetria, em parte decorrente de mera justaposição de massas cujo nexo de articulação seria tão-só utilitário, grande sobriedade geral que atinge por vezes o grau de pobreza, generalizada feição prática conferida às peças, mesmo ao nível da execução de programas sacros ou profanos de aparato» (Páginas de História da Arte, Jorge Henrique Pais da Silva. Lisboa: Editorial Estampa, 1986, p. 140).

      O dicionário da Porto Editora, e outros (porque se andam a copiar uns aos outros vai bem para duzentos anos), só começa em trecentista. Trecentista, quatrocentista, por aí fora. Pois, e antes desses? Undecentista, ducentista, onde param eles?

 

[Texto 13 322]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Topónimo: «Atouguia»

Incerta ou talvez não

 

      Ontem, um leitor habitual do blogue quis saber se eu tinha alguma pista sobre o topónimo Atouguia. Acrescentou que tinha consultado a Infopédia, pela qual ficara a saber que era «de origem pré-romana incerta, acrescentado de um a- protésico». Lançou ainda alguns raios e coriscos a propósito das remissões (neste caso, de «protético» para «protésico») no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Segundo alguns autores, em documentos medievais, o topónimo Atouguia aparece grafado Taugia, Tougia ou Touria (as tais formas pré-protésicas), em referência aos touros da Coroa que então por ali pastavam. Convenhamos que não repugna acreditar em tal etimologia. Até posso estar equivocado, mas o único autor que afirma tratar-se de topónimo importado não merece muito crédito nestas questões da toponímia, sequer da etimologia.

 

[Texto 13 321]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito

«Vogalização»?

Primeira vez

 

      Vejo-a pela primeira vez. «Além dessa influência lexical, as línguas angolanas de origem banta também influenciaram de maneira clara e, digamos assim, “perfeitamente audível”, a variante brasileira do português, em termos de pronúncia, da abertura das vogais à própria tendência para a vogalização (por exemplo, “pineu” em vez de “pneu”) ou para omitir o “s” no plural (as línguas bantas também não usam “s” para o fazerem), sendo os dois últimos casos perceptíveis, sobretudo, na linguagem oral» («A influência africana na língua portuguesa», João Melo, Jornal de Angola, 6.05.2020, p. 11).

 

[Texto 13 320]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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Léxico: «retornável»

Um mistério

 

      «Um comunicado enviado ao Jornal de Angola dá conta de que o corte do preço das cervejas produzidas pelo Grupo Castel Angola, marcas como a Cuca, Nocal, Eka, N’gola, 33 Export, Droppel Munich e Cidra Booster, terá efeitos imediatos na alteração do valor de compra das bebidas vendidas em garrafa retornável» («Grupo Castel reduz o preço da cerveja», Hélder Jeremias, Jornal de Angola, 9.05.2020, p. 21). Onde a encontramos? Num bilingue, assim misteriosamente redigido: «wegwerpfles: garrafa não feminino retornável».

 

[Texto 13 319]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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12
Mai 20

Léxico: «ciberoperacional»

Tinham de existir

 

      «Estamos no Centro de Ciberdefesa (CCD), situado no coração do quartel-general do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), um dos pontos nevrálgicos melhor guardados dos militares, onde cresce um autêntico exército de ‘ciberoperacionais’ – desde que foi criado em 2015 a equipa triplicou e em 2023 terá 10 vezes mais soldados. Protegem toda a rede de informações e comunicações da Defesa Nacional, que é a ‘espinha dorsal’ do comando e controlo das Forças Armadas, por onde passam muitos documentos estratégicos e operacionais de organizações internacionais que Portugal integra, como a NATO» («Segredos e vigilâncias. Uma viagem ao mundo da ciberdefesa militar», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 9.05.2020, p. 25).

 

[Texto 13 318]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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