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Mai 20

Léxico: «bebeteca»

Uma letrinha de diferença

 

      «“Criar uma bebeteca em casa promove hábitos de leitura desde cedo, proporcionando o desenvolvimento da linguagem oral do bebé e um maior vínculo entre pais e filhos sendo seguramente um gesto promotor de afectos e de segurança emocional”, frisa Cíntia Palmeira [autora de livros infantis] que se dedica à mediação de leitura» («Cíntia Palmeira convida pais a criar bebeteca», Paula Henriques, Diário de Notícias da Madeira, 6.05.2020, p. 25).

      Sim, bebeteca, Porto Editora; não se confunda com «bedeteca». Há-as de norte a sul do País e, contudo, ainda estão fora dos nossos dicionários.

 

[Texto 13 357]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve por aí

Assim e ainda pior

 

      «Recuperei palavras que não frequentava há décadas: por exemplo, logaritmo, pandemia ou serológicos. De outras entradas no dicionário só descobri agora as origens. No Grego, a de epidemia (no povo); no Latim, a de vírus (veneno). Dei-me subitamente conta do volte face nas reputações semânticas: expressões que há três meses condenariam qualquer sujeito ao pior opróbrio tornaram-se heroicas nesta lide com o desconhecido: quem havia de dizer que ‘distanciamento social’ e ‘isolamento’ seriam trends humanistas e humanitários no século XXI?» («As 13 lições que Paulo Portas tirou da pandemia de covid-19», Paulo Portas, Sábado, 10.05.2020, 21h59).

      Precisava de uma boa revisão — mas quem ousaria, na Sábado, fazer passar pelo crivo da revisão um texto de Paulo Portas? Perdemos todos. Sim, também o próprio autor, que, desta maneira, não chegará a saber como se escrevem as palavras. Aqui, chamo apenas a atenção para o galicismo volte-face, que se escreve como acabei de fazer, mas de que não precisamos para nada, pois temos, bem nossa, reviravolta. Como só agora descobriu que existia o pangolim, Paulo Portas também fica a saber que existe «reviravolta».

 

[Texto 13 356]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | favorito
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Léxico: «taxa de transmissão»

Agora, Rt

 

      Nos próximos tempos, é desta taxa de transmissão que mais se vai falar, esquecendo até outras coisas tão ou mais importantes: «Um dos principais critérios adotados pela União Europeia nas orientações divulgadas nesta quarta (13) para a reabertura de fronteiras internas é que sejam recebidos moradores de Estados com “uma situação epidemiológica em evolução positiva e semelhante” em relação à Covid-19, com a consolidação de “uma taxa de transmissão suficientemente baixa”. Indicador monitorado na maioria dos países europeus, a taxa de contágio (Rt) indica para quantas pessoas, na média, cada infectado transmite o coronavírus. Quando ela está acima de 1, a doença está fora de controle e a infecção está se acelerando» («Brasileiro pode ser proibido de entrar em outros países», Ana Estela de Sousa Pinto, Folha de S. Paulo, 14.05.2020, p. B4).

 

[Texto 13 355]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | favorito
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Léxico: «londrinense | nova-londrinense»

Londrina, no Paraná

 

      «Londrinenses começam a receber Cartão Comida Boa» (Lais Taine, Folha de Londrina, 13.05.2020, p. 8). E não esqueçamos que também existe Nova Londrina no Pará — e, logo, um nova-londrinense.

 

 

[Texto 13 354]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «autoprazer»

O grande tabu

 

      «Diretora sueca de filmes eróticos, Lust viu o movimento em suas plataformas online de filmes adultos crescer 30% desde o início da pandemia. “Isoladas, as pessoas estão procurando formas de entretenimento, e o autoprazer pode ajudar a aliviar parte das tensões que estamos vivendo, além de também aumentar nossa autoconfiança”, diz. “Pesquisas sugerem que a masturbação traz bem-estar, e ainda por cima pode melhorar o sistema imunológico”» («Mês da masturbação ganha novos sentidos», Fernanda Mena, Folha de S. Paulo, 14.05.2020, p. B7). E há mais tempo: «A descoberta do corpo, o mergulho no autoprazer com a mente a idealizar o parceiro na solidão do leito ou fechada na casa de banho. Sonhos povoadíssimos de símbolos fálicos e de situações e acções sexuais» (A Minha Guerra contra Salazar, Júlio Vieira. Lisboa: Palas Editores, 1997, p. 293).

 

[Texto 13 353]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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Léxico: «guanxuma | eucalipto-cidró»

E agora?

 

      Durante a quarentena, quase não cedi a nenhuma moda ou suposta necessidade. Não desatei a fazer pão como se todos os padeiros tivessem morrido nem «bolos de caneca» como se não se pudesse fazer alguma coisa melhor. (Já que não perguntam: cortei o cabelo a mim próprio, com resultados mais do que satisfatórios.) Pois, também não me pus a fazer álcool-gel nem detergentes caseiros, e não é por falta de receitas: tenho aqui uma à minha frente, mas, como vem da Bolsonarândia, dois dos ingredientes nem sequer a Porto Editora alguma vez viu — raiz de guanxuma e folhas de eucalipto-cidró. E agora?

 

[Texto 13 352]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «periculum in mora»

Agora que o tens

 

      «A PGR argumenta que o ‘periculum in mora’ (perigo de lesão do direito pela demora da decisão) provado no processo “não teve como base qualquer documento de identificação, mas sim os documentos que atestavam o receio de dissipação do património”» («PGR de Angola responde a Isabel dos Santos sobre passaporte falso», Jornal de Notícias, 13.05.2020, 1h01).

      Mais um tijolo para as tuas Expressões Latinas e Expressões Estrangeiras, Porto Editora. Diga-se, já agora, que este e inúmeros outros conceitos, ainda que expressos em latim, não provêm do direito romano, mas do direito medieval. Traduz-se por «o perigo [está] na demora» e alude à probabilidade de ocorrência de dano irreparável ocasionado pela demora.

 

[Texto 13 351]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «sobremortalidade»

Ainda ontem

 

      «Ocorreram ainda 46.006 dissoluções de casamento por morte do cônjuge, uma situação que afeta mais as mulheres, devido à sobremortalidade masculina, segundo o INE» («Em 2018 casou-se mais em Portugal mas mais tarde», Observador, 15.10.2018, 16h31).

      Ainda ontem Francisco George usou o termo na sua crónica diária (e nada interessante, diga-se, pelo que podia, ou ser anual, ou não existir) na Antena 1.

 

[Texto 13 350]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «samacaca | samakaka»

Juízo

 

      «Recém-formada em moda, Aline Rodrigues, 30, galgou seu espaço usando tecidos de origem africana — a samakaka, de Angola, e a capulana, de Moçambique. “É uma forma de mostrar a identidade pelo vestuário”, define. A samakaka exibe formas geométricas nas cores da bandeira angolana ou em preto, branco, bege e marrom» («Grifes apostam em máscaras de estilo e lucram com a pandemia», Roberto de Oliveira, Folha de S. Paulo, 13.05.2020, p. B14).

      Se nos armarmos em parvos, o que é mais congenial do que fatal, pode acontecer — não é assim, como já provei uma e outra vez, com alguns topónimos angolanos? — que o dicionarizemos e escrevamos com capas e os Angolanos o façam com cês. Juízo.

 

[Texto 13 349]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «safrinha»

Isto é interessante

 

      «De novo, não. Joaquim Neto, superintendente de Produtos Agro da Tokio Marine, considera que perdas causadas pelo clima na safrinha de 2019 e na safra de verão deste ano contribuíram para aumentar o interesse do agricultor. “Isso acaba sendo uma lembrança da importância de mitigar riscos e impedir perdas.” A percepção de risco do produtor também foi aguçada pela menor janela de plantio para o cereal, que o torna mais vulnerável às intempéries, diz Catia Rucco Rivelles, superintendente de Seguros Agrícolas da Mapfre. “Após a pandemia, ele quer proteger mais sua principal fonte de renda» («Contratação de seguro para milho salta no País», O Estado de S. Paulo, 11.05.2020, p. B2).

      Isto é, sem dúvida, muito interessante. Não, Porto Editora, safrinha não é meramente o diminutivo feminino singular de «safra». Procura e encontrarás.

 

 [Texto 13 348]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Mai 20

Léxico: «licitatório»

É mais uma

 

      «O processo de compras emergenciais dispensa licitação, porém, o secretário afirma que nesse momento de pandemia foi necessário analisar o mercado para compras seguras, com valores e prazos compatíveis. “As compras realizadas para o enfrentamento da Covid-19 tiveram pesquisa de mercado muito maior que as feitas usualmente. A gente fez de 20 a 30 orçamentos, tivemos produtos que chegaram a 40 cotações. Pesquisamos mais de 500 empresas nesses 40 dias de trabalho”, afirma. “Já estamos retomando os processos licitatórios para reposição desses itens para não ser feito mais pelas compras emergenciais”» («Londrina tem estoque de EPI para pelo menos 60 dias», Lais Taine, Folha de Londrina, 8.05.2020, p. 8).

 

[Texto 13 347]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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