26
Mai 20

Léxico: «tamarilho | tomate-de-árvore | tomate-maracujá | melano»

Quatro de uma vez

 

      De cada vez que estava num hipermercado Auchan, prometia a mim mesmo que ia ver se o dicionário da Porto Editora registava tamarilho (Solanum betaceum), nome do fruto e da árvore nativa da região dos Andes, na América do Sul. É hoje. Não regista. Da última vez, o preço do quilograma era 12,99 euros. O fruto também é conhecido como tomate-de-árvore e, na Madeira, onde se produz, como tomate-maracujá. Ao lado, a 11,99 € o quillograma, estavam os ainda mais exóticos melanos (Cucumis metuliferus), também longe do dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 13 430]

Helder Guégués às 12:15 | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «embaixadinha | altinho»

Tempo de crescer

 

      «Embaixadinha. “Sempre tive vontade de aprender. Meu primo, Willians Gaudêncio, que está cumprindo a quarentena aqui em casa, se disponibilizou a me ajudar. Ainda não estou craque, mas já tiro a bola do chão (risos)”, detalha Kariny Marques» («É hora de se reinventar», Gabriel Sobreira, Meia Hora, 24.05.2020, p. 5). No Dia, Gabriel Sobreira ampliou um tudo-nada a história e até usou outras palavras: «Altinho, por Kariny Marques. “Eu sempre tive vontade de aprender, mas não tinha quem me ensinasse. Durante essa pandemia, a maior disponibilidade de tempo me fez reviver essa vontade. Meu primo, Willians Gaudêncio, que está cumprindo a quarentena aqui em casa e também está com tempo livre, se disponibilizou a me ajudar. Ainda não estou craque, mas já consigo tirar a bola do chão (risos). Estou fazendo um curso online de Espanhol e pretendo sair dessa quarentena sabendo mais do que o básico dessa língua”» («Tempo de se reinventar», Gabriel Sobreira, O Dia, 24.05.2020, p. 5).

      É isto, Porto Editora: embaixadinha e altinho são sinónimos, ambos para designar aquela habilidade de manter uma bola de futebol longe do chão. Agora, para prosseguir aquele nobre desiderato lusófono, têm de ser dicionarizadas.

 

[Texto 13 429]

Helder Guégués às 12:00 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «cravadeira»

Sem rebites

 

      «Máquinas contam-se apenas três: os grandes fornos da marca Victor, em que o peixe vai a cozer a vapor, a cravadeira, engenho que sela as latas com um gesto rápido[,] e as máquinas de esterilização, último passo do processo de conservação» («A virar latas há 150 anos», Filipa Teixeira, Sábado, 19-25.09.2019, p. 99). No dicionário da Porto Editora há uma cravadeira, mas, evidentemente, não se trata da mesma máquina: «máquina de cravar rebites por meio de ar comprimido». Eu preferia, é claro, fazer uma visita guiada a uma conserveira, e ver e perguntar tudo, mas, na sua falta, vejam este vídeo do YouTube. Não há ali rebites nenhuns.

 

[Texto 13 428]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «febre-do-nilo-ocidental»

Eu é que não percebo

 

      «Sim, várias... SARS, febre do Nilo Ocidental, gripe das aves, a dengue da Madeira, a doença dos legionários em Vila Franca de Xira, em 2014. Esta foi uma situação muito séria, com 400 casos e 14 mortes... [responde Francisco George, presidente da Cruz Vermelha Portuguesa]» («“Temos todos de estar bem informados e em alerta”», Anabela Pereira Fernandes, Nova Gente, 12-18.03.2020, p. 91).

      Pensemos, se não se importam: se se escreve febre-de-malta, e esta malta não é alusão a nenhuma súcia ou corja, mas ao topónimo, então como se pode escrever outra coisa que não febre-do-nilo-ocidental? Explique-o, por exemplo, a Porto Editora, que dicionariza «febre-de-malta» e, no verbete «flavivírus», grafa «febre do Nilo Ocidental».

 

[Texto 13 427]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (1) | favorito
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Plural: «transístor»

O mesmo para este

 

      «Elvira Fortunato diz que ainda tem um longo caminho a percorrer antes de poder pensar em ganhar o mais cobiçado prémio científico, pelo seu trabalho na criação de transístores de última geração» («Possível Nobel da Física portuguesa diz que prémio é “uma miragem”», Pedro Mesquita e Filipe d’Avillez, Rádio Renascença, 20.05.2020, 22h52).

      Porto Editora, apetecia-me algo. Apetecia-me que no verbete transístor se indicasse o plural. Como deves compreender, não é para qualquer falante acertar neste plural.

 

[Texto 13 426]

Helder Guégués às 08:45 | ver comentários (1) | favorito
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Plural: «pólen»

Atchim, santinho

 

      «Depois de muita chuva e do confinamento obrigatório, a primavera segue com níveis elevados de concentração de pólenes. Preocupados, investigadores da Universidade de Évora, em parceria com outras instituições, criaram o “Pólen Alert”» («“Atchim, santinho”. Alérgicos ao pólen com plataforma de informação polínica», Rosário Silva, Rádio Renascença, 22.05.2020, 20h33).

      Porto Editora, apetecia-me algo. Apetecia-me que no verbete pólen se indicasse o plural. Como deves compreender, não é para qualquer falante acertar neste plural.

 

[Texto 13 425]

Helder Guégués às 08:30 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «febre Q»

Voltando um pouco atrás

 

      Posso voltar um pouco atrás? Obrigado. Ora bem, Porto Editora, não quiseste dicionarizar, vá-se lá saber porquê, febre Q — mas vamos encontrá-la no verbete coxiella do Dicionário de Termos Médicos: «Género de microrganismos da ordem das Rickettsias. A coxiella burnetiiou Rickettsia burnetii é um agente patogénico que provoca a febre Q. A infeção humana é feita por via inalatória.» Ainda que mal pergunte, que treta é essa de «burnetiiou Rickettsia burnetii»?

 

[Texto 13 424]

Helder Guégués às 08:15 | favorito
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26
Mai 20

O latim mal usado

Limite-se ao português

 

      «Na última semana a Suécia foi o país com mais mortes per capita da Europa» (Maria João Guimarães, Público, 21.05.2020, p. 10). Há muito que não me ria com tanto gosto. Primeiro, quando li o título, quis ignorar, mas depois um leitor confessou-me a sua estranheza pelo uso da locução latina neste contexto e cá estou. (E outro leitor chamou-me a atenção para a incongruência, que depois comprovei, do corpo do artigo.) Maria João Guimarães, aqui, as contas não são feitas por cabeça — mas por milhão de cabeças! Se não sabe usar expressões estrangeiras, não o faça, limite-se a escrever em português.

 

[Texto 13 423]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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