27
Mai 20

Como se escreve por aí

Deus nos livre

 

      Mataram o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, e agora agridem violentamente a língua: «Seis crianças de pernas livres de meias é que o revelam as imagens dessa cerimónia em capela de St George, em Windsor, em maio de 2018, ao contrário dos ecos que surgem de abril de 2011, quando Kate e William trocaram alianças e a etiqueta foi mantida. Apenas um de vários sinais do mau estar que foi ganhando terreno entre duquesas enquanto os Sussex ainda viviam no Reino Unido. E uma gota no longo especial que analisa a personalidade da duquesa» («Meghan, os collants da discórdia e a exausta Kate, que tem trabalhado tanto como “um CEO de topo”», Observador, 27.05.2020, 00h29).

 

[Texto 13 442]

Helder Guégués às 16:15 | comentar | favorito
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Léxico: «nazifascismo»

Porque já registas «nazifascista»

 

      «No plano internacional há sinais sombrios a lembrar erros do passado, com as mesmas potências que então os cometeram a apostar neles, na procura de assegurar a sua hegemonia, esquecendo que antes do início da Segunda Guerra Mundial foram essas políticas que contribuíram para aumentar o poder nazifascista na expectativa de que este atacasse a União Soviética e provocasse a sua queda» («Nos 75 anos da vitória sobre o nazifascismo», Ilda Figueiredo, Jornal de Notícias, 27.05.2020, p. 31).

 

[Texto 13 441]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «activo | activa»

Um caso estranho

 

      «O município de Niterói deu andamento, ontem, ao plano de reabertura gradual de setores do comércio tratados como não essenciais» («Volta gradual à ativa Salões de beleza, hotéis e concessionárias reabrem em Niterói», Meia Hora, 26.05.2020, p. 5). Claro, isto não está nos nossos dicionários. Mais estranho, porém, é não estar isto, que todos nós já ouvimos e usámos dezenas, centenas de vezes: «Ou não é totalmente verdade pois, como já vimos, a maior parte das avós ainda está no activo ou, mesmo não estando no activo, ainda trabalha» (O Livro da Avó Alice, Alice Vieira. Alfragide: Lua de Papel, 2012, p. 45).

 

[Texto 13 440]

Helder Guégués às 15:45 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Léxico: «jarda»

Perdido

 

      O Jorge foi experimentar um Mercedes-AMG A 45 S, e tudo correu bem, o que nem sempre acontece. O que ele disse é que o carro «já mandava muita jarda». Já manda muita jarda! Tem mais de 400 cv, ignorante! Espera lá: o dicionário da Porto Editora perdeu parte do verbete de jarda.

 

[Texto 13 439]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «parassónia | parassómnia»

Não é para todos

 

      «As consultas no hospital foram suspensas, mas nas chamadas de rotina feitas para doentes até aos 18 anos seguidos por causa de problemas de insónia e de parassónias como os pesadelos confirma-se que está “está tudo a correr pior”» («Onde anda o João Pestana?», Joana Stichini Vilela, «Revista E»/Expresso, 9.05.2020, p. 43). Sónias já nós conhecíamos: parassónias, nem o dicionário da Porto Editora sabe do que se trata. Ou sabe: o Dicionário de Termos Médicos acolhe a variante mais pernóstica parassómnia.

 

[Texto 13 438]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve por aí

Uma APAV para a língua

 

      «Recorde-se que em Inglaterra já estavam a ser usados testes rápidos, mas não através da saliva. O teste desenvolvido pelo Imperial College de Londres baseava-se num teste de ADN e tem o avale para uso clínico da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde britânica» («Covid-19. Testes rápidos à saliva com resultado em menos de uma hora estão em produção», Maria João Costa, Rádio Renascença, 25.05.2020, 10h50).

      No perfil da RR, a jornalista, que já conhecemos daqui, fala de uma «história de amor [que] começou em 1997 quando cheguei à Renascença», mas é óbvio que é mais uma daquelas relações em que há amor, sim, mas também violência. Fazia falta uma APAV para a língua.

 

[Texto 13 437]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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Léxico: «quimbala»

E balaios

 

      «Hoje (até pouco antes do Estado de Emergência) quando visita um parente ou amigo, principalmente nos bairros periféricos da cidade, vê com satisfação os balaios e quimbalas por si fabricados a decorar as lojinhas e as casas» («Sobreviver da arte de fabricar balaios», Arão Martins, Jornal de Angola, 24.05.2020, p. 20).

      Porto Editora, acho que se percebe logo que, neste caso, quimbala não é a «canoa de borda baixa para pesca ou para passar pessoas entre margens de um rio». Aqui é um cesto de palma e capim, também produto de artesãos angolanos.

 

[Texto 13 436]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «autólogo | alogénico»

Nem isto?

 

      «Em situação normal, pela proximidade geográfica, as doações deveriam ocorrer em Lisboa. A médica não poupa elogios a quem se faz à estrada para doar medula, mesmo em contexto difícil. “Não houve nenhuma recusa.” Grécia, Alemanha, Suíça, Espanha e EUA são os mais recentes destinos internacionais das células colhidas no IPO do Porto. “Normalmente, fazemos sete a oito colheitas por ano para os EUA, mas em 2020 já superámos isso”, frisa a médica [Susana Roncon, directora do Serviço de Terapia Celular do IPO do Porto]. De 16 de março a 15 de maio, o serviço fez também sete colheitas autólogas (do doente para o próprio) e 18 transplantes autólogos» («IPO Porto envia medula para EUA e Europa», Inês Schreck, Jornal de Notícias, 24.05.2020, p. 6).

      É das tais palavras que a Porto Editora guarda ciosamente num certo dicionário a que nem toda a gente tem acesso. E, contudo, o dicionário geral regista alogénico (ainda que o leitor desprevenido que ali desemboque não fique a saber que pode dizer respeito também a transplantes).

 

[Texto 13 435]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «[molho] pitau»

Desfalcados de palavras

 

      «Juntas, as duas fábricas produzem mais de 60 conservas, de onde se destaca a gama biológica Dama, a centenária Porthos (a mais internacional das referências presente em mercados como Israel, Palestina, Hong Kong e Macau), ou a linha Briosa Regiões com a raia em molho pitau das Beiras, a sardinha com pimento assado do Douto, o filete de cavala em molho vilão das ilhas, o bacalhau com grão da Estremadura e o filete de atum com laranja e canela do Algarve» («A virar latas há 150 anos», Filipa Teixeira, Sábado, 19-25.09.2019, p. 102).

      O molho pitau é feito com o fígado da própria raia — mas nenhum dicionário regista o termo pitau. É mais uma clandestina. Claro que depois temos de assistir ao espectáculo de compatriotas nossos a gabarem o imenso léxico da língua inglesa. Pudera, nós não preservamos, não entesouramos os nossos vocábulos. Perdulários (e parvos) em tudo.

 

[Texto 13 434]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tribalização»

«Tribalizar» já tu tens

 

      «A repetição do cenário de 1991, nos dias de hoje, tem diferenças. Marcelo não é Soares, Costa não é Cavaco, o PSD e o PS não são os mesmos, o CDS caminha para a inexistência, o PCP está paralisado na sua crise, e o Bloco e o Chega cresceram nos extremos. A tribalização da política por via das redes sociais introduziu todos os perigos e riscos de um populismo agressivo, que está no Chega, mas vai muito mais longe» («Cuidado com os segundos mandatos presidenciais», José Pacheco Pereira, Público, 23.05.2020, p. 20).

 

[Texto 13 433]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve no Brasil

O padre e o ministro

 

      «A Igreja celebra hoje, no Domingo da Ascenção do Senhor, o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Neste ano, tem como tema “Para que possas contar e fixar na memória” (Ex 10, 2) A vida faz-se história. Papa Francisco se dedicou ao tema. Segundo ele, para não nos perdermos, precisamos respirar a verdade das histórias que edificam» («Histórias que edificam», padre Omar, reitor do Santuário do Cristo Redentor do Corcovado, O Dia, 24.05.2020, p. 4).

      Já menos edificante é a ortografia do padre Omar. Oh Senhor, é ascensão. Cá também temos muitas criaturas a darem o mesmo erro. E, ao mesmo tempo, vê-se isto: o presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais chama-se Jorge Ascenção, mas na imprensa vê-se frequentemente o nome «corrigido» («errogido», diz a minha filha) para Jorge Ascensão. Ah, este mundo é muito curioso. O que mais falta é perspicácia e discernimento. Ainda assim, o P.e Omar parece saber um pouco mais de ortografia do que Abraham Weintraub, o ministro da Educação daquele país até há pouco decente e agora uma anedota.

 

[Texto 13 432]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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27
Mai 20

Léxico: «sobrepreço»

Überpreis, Porto Editora

 

      «Uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ), divulgada na sexta-feira, concluiu um sobrepreço de R$ 123 milhões na aquisição de respiradores pela Secretaria Estadual de Saúde (SES)» («TCE: sobrepreço em respiradores», Luana Dandara, Meia Hora, 24.05.2020, p. 4).

 

[Texto 13 431]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito