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Linguagista

Léxico: «patriarquia»

Como também este

 

      «Creio que se estivesses aqui agora, estarias fascinado pelo homem. O termo ‘homem’ não costuma usar-se como antigamente, mas farei uma exceção, não como aceno à patriarquia, que detestavas, mas porque ressoará nos ouvidos do jovem e escritor aspirante que foste, com mais sensibilidade e ideias do que as que conseguias expressar, e com uma forte convicção de que a sorte está lançada, mesmo para uma criatura à imagem de Deus e condenada ao livre-arbítrio» («Uma carta ao meu pai, Gabriel García Márquez», Rodrigo García, tradução de Luís M. Faria, «Revista E»/Expresso, 23.05.2020, p. 22).

    Tratar-se de uma tradução (no original estava, obviamente, «patriarchy») explica quase tudo, só não explica que a Porto Editora e a maioria dos nossos dicionários não registem o termo.

 

[Texto 13 476]

Léxico: «sendinense»

Outros que ficaram pelo caminho

 

      «Mas há mais, de acordo com o “Ethnologue”. Oito mais: língua gestual portuguesa, crioulo, barranquenho, minderico, romani (com origens indo-iranianas e falada por 500 pessoas de etnia cigana em Portugal), caló português (uma variante portuguesa do romani) e ainda galego e sendinense (que se confunde, muitas vezes, com o asturiano)» («Na ponta das línguas», André Manuel Correia, «Revista E»/Expresso, 23.05.2020, p. 9).

      O dicionário da Porto Editora, e, pelo que vi, outros, regista apenas sendinês, que evoluiu da forma mais erudita sendinense, que nada justifica estar fora dos dicionários. Também a picotês/picotense foi negada a entrada nos templos das palavras.

 

[Texto 13 475]

Léxico: «pelado»

Porto Editora, é contigo

 

      «Esta é uma oportunidade única para relembrar alguns fantásticos pelados portugueses — principalmente do norte do país —, muito ao jeito da saudosa e querida Liga dos Últimos, da RTP» («“Campo de futebol.” Uma viagem pelos pelados dos escalões amadores portugueses», João Nuno Coelho e Gonçalo Teles, TSF, 29.05.2020, 17h01).

 

[Texto 13 474]

Léxico: «airsoft»

A palavra não foi encontrada

 

      «Há quase três meses que os praticantes de desportos de combate com réplicas de armas de fogo (paintball, airsoft, entre outros) não andavam aos ‘tiros’ pelo País. Mas a resolução do Conselho de Ministros de 15 de maio, que instituiu o segundo período de Estado de Calamidade devido à pandemia de Covid-19, autorizou a realização de atividades ao ar livre com até 10 pessoas. E era esta a luz verde que os praticantes esperavam» («Polícia fiscaliza regresso aos tiros», Miguel Curado, Correio da Manhã, 31.05.2020, p. 29). A Porto Editora só reconhece o paintball.

 

[Texto 13 473]

Léxico: «hábito»

Está na hora

 

      «Usou as mãos para proteger a cara, e os cortes nos pulsos mostram que a jovem fez tudo para sobreviver. Não conseguiu: o relatório do médico legista junto ao processo — ainda não há autópsia, trata-se apenas de uma informação sobre o que é visível a olho nu, a análise do chamado hábito externo — refere cinco vergastadas na zona da cabeça» («Cinco golpes na cabeça matam Beatriz», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 31.05.2020, p. 6).

      Porto Editora, regista esta acepção de hábito. Tânia Laranjo, há séculos a acompanhar casos de polícia e judiciários, está na hora de escrever correctamente «médico-legista». Porra. Obrigado.

 

[Texto 13 472]

Plural: «democrata-cristão»

Pelas mesmas razões

 

      «Também o CDS se mostrou indisponível. Numa nota enviada às redações, os democratas-cristãos deixam claro que vão “falar com o Governo e não com quem o Governo fala”» («BE, PCP e CDS recusam negociar com “paraministro”», João Vasconcelos e Sousa, Jornal de Notícias, 31.05.2020, p. 9).

      Porto Editora, se em social-democrata passaste, por sugestão minha, a indicar os plurais, deves, por igualdade de razões, fazer o mesmo em relação a democrata-cristão.

 

[Texto 13 471]

Léxico: «moletom»

Não é essa

 

      «Não se trata de alucinação. A “Enciclopédia da Moda”, de Georgina O’Hara, lançada em 1986, prova que houve um tempo longínquo em que o conjunto de moletom, ou agasalho, era chamado de training ou, “vulgarmente”, de abrigo. Alguns ainda a tratavam como “jogging”, pois há 50 anos as pessoas vestiam o training para fazer jogging (correr)» («Em tempos de distanciamento social, moletom é o novo preto em 2020», Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 30.05.2020, p. A17). «Ainda que prefira se apresentar em público com o traje clássico dos humoristas de stand-up, terno e gravata, Seinfeld apareceu de moletom simples, com a palavra “Garage”, garagem em inglês, numa conversa por Zoom de sua casa nos Hamptons» («Não me sinto tão engraçado, diz Jerry Seinfeld», Dave Itzkoff, Folha de S. Paulo, 6.05.2020, p. B11).

      A Porto Editora guarda-o num bilingue e no Vocábulário Ortográfico, e por aí fica. Está aportuguesado, moletão, como deve ser, no dicionário geral, «estofo macio de algodão ou lã». Acontece, porém, que nestes artigos que cito foi empregado noutra acepção, que o Dicionário Michaelis acolhe: «Peça de vestuário, principalmente suéter e calça, feita com esse tecido.»

 

[Texto 13 469]

Léxico: «subprocurador | subprocurador-geral», de novo

E em Angola

 

      Só no Brasil é que se usa? Não, Porto Editora: «A subprocuradora-geral da República titular da província do Bengo garantiu, ontem, em Caxito, que quem ocupar imóveis ilegalmente e se arroga ser sua pertença será punido com prisão correcional» («Ocupantes ilegais de casas no Capari vão ser punidos», Alfredo Ferreira, Jornal de Angola, 1.05.2020, p. 32).

 

[Texto 13 468]

Plural: «bem-te-vi»

É para estes casos

 

      «O texto com a visão otimista sobre a doença e a nova forma de viver a vida viralizou. Dimenstein desceu do trem de alta velocidade de onde via uma linda paisagem borrada para escutar bem-te-vis e curtir o neto» («Morre aos 63 o jornalista e escritor Gilberto Dimensteine em SP», Carolina Linhares, Folha de S. Paulo, 30.05.2020, p. A12).

      Se os dicionários não indicarem o plural destes vocábulos compostos, mais complexos pela sua formação, então que outros plurais interessa indicar, não me dizem?

 

[Texto 13 467]