Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Linguagista

Léxico: «biocontenção»

Copiar ou pensar

 

      «“Quando vejo alguém [a usar luvas] a tocar em balcões e depois coloca as mãos na carteira, penso: Agora criaram uma contaminação cruzada e anularam qualquer proteção que estejam a usar”, diz Jade Flinn, educadora de enfermagem na unidade de bio-contenção da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland» («Eis a melhor forma de lavar a sua máscara», Sarah Gibbens, National Geographic, 1.06.2020).

      O tradutor só tinha de copiar o original ou pensar — foi pela terceira via, a errada. No original: «“When I see someone [wearing gloves] touching countertops and then digging in their purse, I think, Now they’ve created cross contamination and voided whatever protection they’re wearing,” says Jade Flinn, a nurse educator in the biocontainment unit at Johns Hopkins University in Baltimore, Maryland.»

      Os dicionários não podiam ajudar, pois nenhum regista biocontenção. (Duas notas à margem: por algum motivo, que até podemos supor qual seja, já revi textos, e nem todos são traduções, em que se escreve «John Hopkins University». Seja como for, apenas quem pense a 75 % é que escreve isso e não «Universidade [de] Johns Hopkins».)

 

[Texto 13 495]

Definição: «gradil»

Pois não é

 

      «Depois de muita expectativa, a ponte suspensa “516 Arouca” está quase concluída. Só faltam montar alguns tabuleiros de gradil metálico, dos 127 que estão seguros por cabos de aço. Ainda há cinco alpinistas a trabalhar em altura, presos por arneses, para terminar a construção da primeira e única obra do género no país, que ao longo do tempo foi sendo adaptada: cresceu em extensão, em altura, sofreu ajustes de materiais» («A maior ponte pedonal suspensa do Mundo está quase pronta», Catarina Silva, Jornal de Notícias, 2.06.2020, p. 50).

      Por qualquer motivo — sem apoio sólido na realidade —, a Porto Editora acha que um gradil é apenas o «gradeamento que circunda um terreno».

 

[Texto 13 494]

Mas que disfemia?

Eu não percebo

 

      «Em 1972, Christo Vladimirov Javacheff produziu “Valley Curtain” e provocou bruaá, isto é, ouviu-se o ruído de muitas vozes soltadas simultaneamente ou o ruído de muitos ruídos difusos. Era a sua maior instalação artística de sempre – dizer “maior” é quase disfemia: ele ergueu uma colossal cortina laranja de 14 mil metros e soltou-a gloriosamente distendida em Rifle Gap, o desfiladeiro do Colorado, EUA. Foi esse o bruaá – e houve outro depois: menos de 24 horas após instalar a obra, uma tempestade arrasou-a num repente e dela não ficou nada» («Recusou a permanência, não deixou nada. E para isso é preciso coragem», José Miguel Gaspar, Jornal de Notícias, 2.06.2020, p. 82).

      Por muito que reflicta sobre o uso de «disfemia» neste contexto, não atino com a sua propriedade. Aceito, humildemente, que me expliquem.

 

[Texto 13 493]

Léxico: «quizaca | cabuenha»

Abaixo os capas!

 

      «A subida dos preços dos principais produtos alimentares, em Ndalatando, desde o surgimento da Covid-19, está a resultar na perda do poder de compra das famílias e na mudança de hábitos alimentares. Muitas famílias optam pelo consumo de produtos do campo em detrimento do pão. [...] Muitas donas de casa encontram nos produtos do campo como a banana, mandioca, batata-doce, kizaca, feijão e outros, a solução para manter as três refeições. [...] Afirma que este valor serve apenas para a compra de kabuenha (peixe miúdo), gasóleo para abastecer o candeeiro de casa e alguns decilitros de óleo vegetal» («Famílias trocam o pão pela mandioca e banana», Marcelo Manuel, Jornal de Angola, 2.06.2020, p. 6).

 

[Texto 13 492]

Léxico: «tesourinho», de novo

O preconceito contra o pequeno

 

      «Depois de ver no Facebook um clipe de apenas alguns segundos, partilhado pelo jornalista e escritor Luís Osório, de um programa da RTP com 20 anos, a editora executiva Maria Henrique Espada ficou curiosa. Nas breves imagens via-se Catarina Martins, muito jovem, a ameaçar ir assaltar bancos porque a vida de atriz estava difícil. Mas como o “tesourinho” estava em reposição, de madrugada, na RTP2 resolveu ir ver o programa inteiro» («Guia para a boa forma», Nuno Tiago Pinto, Sábado, 21.05.2020, p. 6).

      Os lexicógrafos resistem, inexplicavelmente, a registar tesourinho nos dicionários. Vocábulos com o sufixo -inho deixa-os nervosos. Nunca dariam o nome Agostinho ou Agostinha a um filho.  (Nem eu, nem eu.) Ainda não calhou acontecer, mas quando Yeo, o coreano meu conhecido, me perguntar o que significa, o que respondo? Mando-o para os nossos dicionários? Deixou-o, irresponsavelmente, pensar que é um pequeno tesouro?

 

[Texto 13 490]

Léxico: «fartureiro»

Eles é que sabem

 

      «Com a queda do turismo, há negócios que se mantêm parados. É o caso dos tuk-tuks, na cidade de Lisboa. O cancelamento de festas e arraiais também faz com que feirantes e fartureiros não tenham onde trabalhar» («Tuk-tuks e outros negócios parados por causa da pandemia», TVI24, 25.05.2020).

      É verdade, e eles a si mesmos — pelo menos alguns — chamam fartureiros. Não o aprenderam, podemos garanti-lo, em nenhum dicionário da língua portuguesa publicado em qualquer parte do mundo.

 

 [Texto 13 489]

Léxico: «gaulês»

Um galo culto

 

      «O Clube Sport Juventude de Gaula convoca todos os sócios para a primeira Assembleia Geral ordinária de 2020, no dia 4 de junho, quinta-feira, às 19:00, a decorrer na sede do clube, situada na Rua Manuel Freitas Meca, n.º 9, freguesia de Gaula. A reunião magna do clube visa “apreciar e votar a proposta conjunta da direção e do presidente da mesa da Assembleia Geral, para alteração do regulamento interno do clube”, conforme consta no documento convocatório divulgado na rede social Facebook» («‘Gauleses’ em assembleia geral», Jornal da Madeira, 1.06.2020, p. 29).

      Os naturais ou habitantes da freguesia de Gaula, do concelho de Santa Cruz, na Madeira, sabem bem que são gauleses, é o nome que dão a si mesmos, os lexicógrafos é que nem por isso. Diga-se, já agora, que em gaulês/gauleses o radical não se liga evidentemente a Gália, mas a Gaula, aportuguesamento do francês Gaule, e este do latim Gallia. Portanto, com mais lógica teríamos «gaulês» para designar o natural da nossa Gaula e «galo» para o da Gália antiga. Aliás, por via culta, galo é o da Gália (está, por exemplo, nos Lusíadas), o que a maioria dos dicionários actuais, sobretudo no Brasil, esquece. A Porto Editora não o esquece, mas também erra ao dizer que, nesta acepção, galo é somente adjectivo. Enfim, teria de trabalhar de dia e de noite, sem folga nem distracção, durante a vida inteira para corrigir todos os erros e falhas dos dicionários.

 

[Texto 13 488]

Léxico: «picância»

E isto há décadas

 

      «Para compensar o açúcar da sobremesa, o almoço do dia seguinte pode se inclinar para a picância e acidez do asiático Tan Tan, que ainda por cima traz diversão: para um prato como o Tantanmen (macarrão com caldo e carne de porco), os ingredientes vêm separados, com minuciosas instruções de como aquecer e montar» («Na Babel culinária, é possível ir do Japão a Portugal em um dia», Josimar Melo, Folha de S. Paulo, 29.05.2020, p. B13).

      Foi em Julho de 2018 que a Porto Editora dicionarizou crocância; agora, está na hora de acolher picância, já reconhecido por outros e, como se vê, usado dos dois lados do Atlântico. Há décadas, na verdade.

 

[Texto 13 487]