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Linguagista

Léxico: «metagenómica | metagenómico»

Os cientistas agradecem

 

      «As amostras são coletadas de morcegos na natureza, por meio de cotonetes inseridos na região oro-nasal e retal, e depois analisadas em laboratório. Para identificar os vírus, os pesquisadores usam a metagenômica, método que “pesca” em uma sopa imensa de nucleotídeos o material genético dos vírus de interesse» («Cientistas mapeiam vírus em morcegos em ação contra novas epidemias», Ana Bottallo, Folha de S. Paulo, 8.05.2020, p. H5).

 

[Texto 13 504]

Léxico: «coitanaxo»

É preciso fazer alguma coisa

 

      «Afastou a mãe, a coitanaxa da Júlia Minga, que desde a alva se esbagoava em alto pranto, abraçada ao filho, e ficou de pé a fitá-lo, como que interrogando-se sobre o drama que o vitimara» (Volfrâmio, Aquilino Ribeiro. Amadora: Livraria Bertrand, 1983, p. 321).

      A continuarmos nesta via, um dia será impossível — para os nossos filhos, os nossos netos — saber o que significam milhares de palavras que os nossos melhores escritores usaram.

 

[Texto 13 503]

Léxico: «jaritataca | cangambá | jitira»

Em quatro, um

 

      «Não queríamos mal a ninguém, nem mesmo às jaritatacas que vinham passear para a nossa cave e, conhecendo a natureza desses animais, ficávamos calados até que elas resolvessem ir-se embora» (Quinze Prémios Nobel. Lisboa: Editorial Verbo, 1978, p. 66). Nem mais: jaritataca, cangambá, gambá ou jitira (Conepatus semistriatus). A Porto Editora, porém, só regista «gambá».

 

[Texto 13 502]

Léxico: «borboleta»

De ambos os lados do Atlântico

 

      «O oficial da Polícia Nacional, que falava no final do encontro de balanço da primeira semana da entrada em vigor da Situação de Calamidade, informou que no lote constam 100 frascos de álcool gel, igual número de borboletas hospitalares, 150 luvas descartáveis e cirúrgicas, 10 caixas de medicamentos diversos e adesivos» («Polícia apreende produtos de biossegurança por especulação», Jornal de Angola, 2.06.2020, p. 4). É um cateter que fica por mais tempo no acesso venoso do paciente. Constituído por uma agulha acoplada a uma mangueira, e esta liga-se com a seringa que faz a administração do medicamento. Tem o nome de borboleta pelo menos em Angola e no Brasil. Cá não sei, mas talvez alguém nos diga. (Claro que, no Brasil, muitos médicos, os mais peneirentos, os mais ignorantes, hão-de preferir dizer que é um scalp.)

 

[Texto 13 501]

Como se escreve por aí

Vá pensando

 

      «Após um Conselho de Ministros dedicado à covid-19, o chefe do Governo, António Costa, sugeriu “a todos” que, antes de irem à praia, instalassem nos telemóveis uma aplicação da Agência Portuguesa do Ambiente que lhes mostraria um “sinal amarelo, verde ou vermelho”, consoante a ocupação do areal. No dia seguinte, a Associação D3 - Defesa dos Direitos Digitais hasteou uma “bandeira vermelha” sobre aquela App, sustentando que não só acedia ao microfone, câmara e localização dos telemóveis, como ainda escondia o código que permitiria fiscalizar o uso dos dados recolhidos. Nada que evitasse a subida da Info Praia ao top das aplicações mais descarregadas nas lojas Google e Apple» («Apps anti-covid-19 vão deixar país mais vigiado?», Nelson Morais, Jornal de Notícias, 2.06.2020, p. 48).

      Nelson Morais, vá pensando num bom motivo para escrever sempre app com maiúscula inicial. Não, homem, desista: não o vai encontrar. A verdade é que não compreendo a necessidade de usar «app» em vez de «aplicação». Por último: parece-me óbvio que se deve escrever «anticovid-19».

 

[Texto 13 500]

Léxico: «alustro | alustre»

Até na escrita nemesiana

 

      «Márcio Santos é da aldeia de Paradela de Monforte, Chaves, mas fixou-se na região de Lisboa por motivos profissionais. É compliance officer na banca. Aos doze anos, viveu os grandes nevões de 1997. “Tive neve pela cintura!”, garante. Os “alustros”, o nome dado aos raios em Chaves, também o fascinam. “Em criança ficava na janela a ver os Cumulonimbus [tipo de nuvem] a crescer nos céus. Via os alustros na janela, a contar os segundos pelo trovão. Só quem gosta compreende este fascínio pelos fenómenos meteorológicos”» («Já viu relâmpagos ascendentes? Há uma página portuguesa que lhe mostra tudo», Leonor Riso, Sábado, 1.06.2020, 17h30). (Saibam que é cumulonimbus ou cúmulo-nimbo que se escreve.) No dicionário da Porto Editora, nem alustro nem alustre. Se bem me lembro: «Choveu já muito, sim, mas pouco para o preciso. São trovoadas de serra. Forma-se além um negrume, vem o vento soão e bufa um pouco: depois cai uma grande surriada e os alustros parecem fósforos de quem entrou em casa às escuras» (Viagens ao Pé da Porta, Vitorino Nemésio. Lisboa: INCM, 1989, p. 60).

 

[Texto 13 499]

Como se escreve por aí

Isso não é criatividade, mas desleixo

 

      Citei, a propósito de belinha, o texto de Susana Romana no Observador, e por isso devo contribuir chamando a atenção para alguns erros imperdoáveis — sendo a autora guionista e professora de escrita criativa — que ali encontrei. Não quero perder muito tempo com a «montanha russa», «Deux Ex Machina», «meter batom», entre outros, vou directamente para esta coisa risível, própria de quem conhece de outiva: «Por isso, se vos digo que o melhor DE LONGE nesta série é Nuno Lopes e o seu personagem Boxer, tenham como garantia que não é um assoberbo de patriotismo.» Claro que sabemos o que pretendia dizer, mas ninguém nos disse que isto era uma penosa adivinha, penosa até pela escusada extensão.

 

[Texto 13 498]

Léxico: «belinha»

Não é caso único

 

      «Falo de um não gostar do tipo “credo, era uma belinha no meio da testa desta moça a ver se não era tão insuportável”» («Os 7 pecados capitais de “White Lines”», Susana Romana, Observador, 1.06.2020, 19h56). Toda a gente sabe que belinha é uma palmada na testa, mas, à semelhança de tesourinho (e não vimos recentemente também altinho, usado no Brasil?), não a encontramos no dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 13 497]

Léxico: «EPC»

Esse já é muito conhecido

 

      Uma das tendências registadas, nos últimos tempos, na Infopédia é a sigla EPI, de equipamento de protecção individual. Pois bem, não foi há muito que acolheu, por sugestão minha, capela de exaustão / capela laboratorial, e este é um EPC, equipamento de protecção colectiva. Sigla que não regista. Já agora, uma vez que também é uma especialidade minha, deixa revelar-te, Porto Editora, que, à nossa volta, em especial numa empresa, temos muito mais EPC do que EPI. Pensa nisto.

 

[Texto 13 496]