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Linguagista

Léxico: «amorreu | perizeu | heveu | jebuseu»

Substituir por ***

 

      Abrimos a Bíblia (a minha está sempre na mesa de 202 x 100 cm onde trabalho): «Das cidades destes povos, que o Senhor, teu Deus, te há-de dar por herança, é que não deixarás nelas alma viva. Votarás à destruição, o hitita, o amorreu, o cananeu, o perizeu, o heveu, o jebuseu, como te ordenou o Senhor, teu Deus» (Dt 20,16-17). De seguida, abrimos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: nem rastos de amorreu, perizeu, heveu e jebuseu. No futuro, as edições da Bíblia podem substituir estes gentílicos por três ***.

 

[Texto 13 519]

Léxico: «respiro»

O canalizador é que sabe

 

      O que o canalizador, que vinha mudar a válvula do lavatório (mas eu é que acabei por fazer o serviço), disse é que podia pôr uma válvula do tipo clic-clac porque o lavatório tinha respiro; se não tivesse, teria de pôr uma válvula de escoamento livre. Ainda estive para lhe dizer que devia falar mais alto, para ser ouvido na Porto Editora, que afirma que respiro é o «orifício destinado a deixar entrar e sair o ar». Ar, água ou seja o que for, na verdade.

 

[Texto 13 518]

Definição: «bailéu»

Muito nebuloso

 

      Cada vez é mais comum a pintura de fachadas com recurso, não a andaimes, mas a bailéus. Duvido que a definição de bailéu no dicionário da Porto Editora leve o leitor a saber o que é exactamente: «andaime móvel utilizado para construção ou reparação de edifícios». Sim, é móvel, mas melhor seria dizer que é um andaime ou plataforma suspensa de cordas ou cabos de aço, e por vezes auxiliado por um motor eléctrico, para o elevar e baixar. E ainda que se possa dizer que a pintura se enquadra na reperação, eu diria que é utilizado em trabalhos de construção, reparação ou pintura. Isso mesmo, a palavra «edifícios» está a mais. Com mais umas quantas palavras, subsistiriam menos dúvidas.

 

[Texto 13 517]

Capoto, viochene, tuvenã...

Aqui que ninguém nos ouve

 

      Fomos mesmo a tempo, Porto Editora: «A Câmara de Marco de Canaveses vai retirar placas de fibrocimento de duas escolas do concelho, durante as férias escolares de verão, disse fonte autárquica, que também destacou outros melhoramentos nas instalações. [...] A empreitada na Escola Básica 1 de Paredes, que representa um custo de 69 mil euros, contempla a colocação de revestimento exterior em capoto, a substituição da cobertura de fibrocimento e das caixilharias existentes, por materiais com corte térmico, que permitem um maior conforto» («Marco retira placas de fibrocimento de duas escolas», Jornal de Notícias, 7.06.2020, p. 27).

      Quase a propósito, Porto Editora: aqui que ninguém nos ouve, que diferenças vês entre os aportuguesamentos viochene e tuvenã, por exemplo? Eu não vejo nenhuma, o processo linguístico na sua formação é o mesmo, e, contudo, só acolhes a primeira, isto quando a segunda é usada de norte a sul do País diariamente. Experimenta trabalhar numa autarquia local ou lê o Diário da República, e ouvirás e lerás «tuvenã» amiúde.

 

[Texto 13 516]

Léxico: «ciganão»

O grande e o pequeno

 

     «— Faço-te em postas, ciganão! — disse num grito que encheu a praça» (Horizonte Cerrado: Ciclo Port-Wine I, Alves Redol, Alfragide: Editorial Caminho, 2015, p. 69).

      Se eu acho que tesourinho tem de estar nos dicionários, quanto mais ciganão. É que há aumentativos e diminutivos que estão lexicalizados, e estes têm de constar dos dicionários. Podem, neste caso, antepor-lhe a etiqueta «pejorativo», mas cigano tem de figurar nos dicionários também com o sentido de «trapaceiro». Faz parte da história da língua e da comunidade, não é uma posição ideológica. Alberto Maggi, na sua obra Nossa Senhora dos Heréticos (S. Paulo: Ed. Paulinas, 1991, pp. 30-34), também nos diz que se considerava que todos os galileus eram rebeldes. Chamar a alguém rebelde ou galileu era a mesma coisa.

 

[Texto 13 515]

Léxico: «cobogó | antenado | evinel»

Nas obras, aquém e além-Atlântico

 

       «A parede do box também foi demolida e substituída por cobogós translúcidos, que trazem leveza ao ambiente» («Suíte para uma mulher antenada», Marcelo Lima, O Estado de S. Paulo, 8.05.2020, p. H5). Temos temos cá estes elementos usados em construção civil, mas desconheço o nome. Aqui está bem descrito: «Cobogó é o nome dado a elementos construtivo, vazados e pré-fabricado a partir de cimento, argila, vidro, cerâmica, etc. e que servem de complemento, estrutural ou decorativo, a muros, paredes ou fachadas, permitindo controlar melhor a ventilação e amenizar o excesso de iluminação dentro de um imóvel, seja ele residencial, comercial ou industrial.»

      Enfim, há-de haver sempre termos conhecidos de todos que estão incompreensivelmente arredados dos dicionários. Um que conheço há muitos anos: «Óscar contemplou demoradamente os próprios sapatos e depois começou a esgaravatar o evinel do revestimento, na dúvida sobre se deveria levantar a voz e acusar “certa gente” de fumar em recinto fechado, sem nenhuma consideração pelos outros» (Contos Vagabundos, Mário de Carvalho. Lisboa: Editorial Caminho, 2000, p. 85).

 

[Texto 13 514]

 

Léxico: «células mesenquimais estromais»

Seria mais informação

 

      «A maioria dos estudos utiliza as células mesenquimais estromais (MSC, na sigla em inglês), mais conhecidas como células-tronco. A escolha da fonte das células varia de estudo para estudo, sendo que a medula óssea é a mais frequente, mas outras fontes celulares podem incluir o tecido adiposo, o cordão umbilical e até a placenta» («Uso de células-tronco contra Covid-19 avança», Ana Bottallo, Folha de S. Paulo, 23.05.2020, p. B5).

      Parece-me suficientemente importante para o dizer no verbete de célula-tronco. Contudo, segundo o leitor R. A., nos comentários a este texto (embora eu quase acredite na telepatia), a designação mais usada entre nós é células mesenquimatosas indiferenciadas ou células estaminais.        

 

[Texto 13 513]

Léxico: «cinegrafista»

O nosso câmara

 

      «O homem que tentava se esquivar das agressões era o cinegrafista Robson Panzera, 27, da TV Integração, afiliada da Rede Globo na região de Juiz de Fora (MG). O episódio aconteceu na manhã desta quarta (20), em Barbacena (a 173 km de Belo Horizonte)» («Cinegrafista de afiliada da Globo é agredido em MG», Fernanda Canofre, Folha de S. Paulo, 22.05.2020, p. A10). Não temos, é o nosso operador de câmara — o nosso câmara.

 

[Texto 13 512]