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Linguagista

Léxico: «pedivela | canote | mesa | blocagem»

Com que então, só «guidão»...

 

      Na edição de Junho da revista (felizmente brasileira) Guia de Manutenção de Bikes, há um artigo ilustrado sobre os diversos componentes das bicicletas. Vários têm nomes que não usamos em Portugal, como pedivela: «peça que conecta o pedal ao eixo do movimento central». Ou canote: «peça que fixa o selim ao quadro da bicicleta e possibilita a regulagem da altura do selim». Ou mesa: «peça que conecta o guidão ao tubo central do garfo». Ou blocagem: «mecanismo que prende a roda ao quadro e ao garfo e que permite a retirada do conjunto da roda sem o auxílio sem o auxílio de ferramentas». Ou pensavas que era só «guidão», Porto Editora?

 

[Texto 13 536]

Léxico: «efá»

Também é leprosa

 

       No tempo de Jesus, o leproso curado devia, por lei, apresentar-se ao sacerdote ao oitavo dia com dois cordeiros sem defeito, uma ovelha de um ano sem defeito, três décimos de efá de farinha amassada com azeite, como oblação, e meio litro de azeite, e entregar tudo ao sacerdote para a purificação (Lv 14,10). Está tudo bem, ou não, mas os dicionaristas de hoje em dia é que não querem saber disto para nada. Efá, uma medida de capacidade, eclipsou-se. É, também ela, uma palavra leprosa.

 

[Texto 13 535]

Léxico: «dança dos paulitos | caixa-de-guerra | palo»

Corrigir e melhorar

 

      «As danças dos “laços” ou “palos” (são designações locais) impõem a quem penetra nos seus segredos “destreza e sentido rítmico”, para que os “palos” possam surgir “num bater em uníssono” e, assim, provocar orgulho em quem actue ou, de fora dos palcos, escute as melodias e os movimentos dançantes» («​Pauliteiros: danças entre rituais guerreiros e de fertilidade?», Manuel Vilas Boas, TSF, 10.06.2020, 17h00).

      E agora, acredito num musicólogo ou na Porto Editora? Ah, deixem-me pensar... Diz esta última sobre a dança dos paulitos: «dança popular executada por indivíduos que seguram em cada mão um pequeno pau com que efectuam diversas coreografias bastante rápidas ao som da música do tamboril e da gaita-de-foles». A Porto Editora até desconhece o termo «caixa-de-guerra»!

 

[Texto 13 534]

«Instrumentália»?

Parece-me que sim

 

      «Ainda na opinião de Mário Correia [musicólogo] sobressaem na instrumentaria musical os gaiteiros, com o seu trio tradicional da caixa de guerra, o bombo e a gaita de foles» («​Pauliteiros: danças entre rituais guerreiros e de fertilidade?», Manuel Vilas Boas, TSF, 10.06.2020, 17h00). Não: o que existe é instrumentária — mas também faz sentido instrumentália, pois claro: «Quando chega esse fax-modem? E o scanner? Afinal, tanta diligência, tanta facilidade, e não há meio. Vê se despachas isso, que tenho uns planos magníficos para me entreter com essa instrumentália» (O Defunto Elegante, Luísa Costa Gomes e ‎Abel Barros Baptista. Lisboa: Relógio D’Água, 1996, p. 126). «Instrumentália», como «genitália», «parafernália», etc.?

 

[Texto 13 533]

Léxico: «bedefilia | bedéfilo»

Porto Editora, devias conhecer

 

      «Com cinco livros publicados em outros tantos anos, Luís Louro revela-se como um dos autores mais prolíficos do panorama bedéfilo nacional» («O Corvo. O anti-herói de Lisboa», Pedro Rodrigues Santos, «Sexta»/Correio da Manhã, 29.05-4.06.2020, p. 32).

 

[Texto 13 532]

Léxico: «tapa-furos»

Os verdadeiros

 

      Podemos encontrá-los — e sob este nome, atenção — no Aki, na Leroy Merlin, nas drogarias e lojas de ferragens tradicionais, as melhores. Refiro-me aos tapa-furos. No dicionário da Porto Editora, que acolhe o termo, remete-se logo, precipitadamente, para tapa-buracos: «pessoa que desempenha qualquer função, na falta de outrem». Não pode ser, têm de acrescentar o sentido próprio.

      Quando os furos são numa qualquer parede de reboco, é fácil, há muitas massas já prontas a aplicar, ou usamos cimento branco, ou gesso. Mas numa parede revestida de azulejos ou pedra? Pois é: nesse caso, precisamos de tapa-furos. Há-os de vários tipos, cromados, lacados, de latão, de plástico, etc. Sim, em certos casos, até temos outras soluções, como borrachas técnicas, habitualmente menos estéticas.

 

[Texto 13 531]

Léxico: «burundês»

Natural do Burundi

 

      «O Presidente cessante do Burundi, Pierre Nkurunziza, morreu segunda-feira de um ataque cardíaco fulminante, aos 56 anos de idade. A notícia foi avançada ontem pelo Governo burundês» («​Presidente cessante do Burundi morre aos 56 anos», Jornal de Angola, 10.06.2020, p. 11).

      O dicionário da Porto Editora regista quatro, entre os quais se não inclui este, e são eles burundiano, burundiense, burundinês e burúndio. É escolher.

 

[Texto 13 530]

Léxico: «ecoinovador»

É hoje

 

      «A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) lidera o projeto MINECO que pretende desenvolver produtos eco-inovadores, com origem em resíduos das minas de São Domingos, que está encerrada, e Neves Corvo, ainda em exploração, ambas situadas no Alentejo. [...] Os impactos, ao nível da sustentabilidade, relacionados com as vertentes socio-ambientais, económicas e técnicas serão avaliados e controlados ao longo deste projeto europeu financiado pelo Horizonte 2020, que tem a duração de três anos e um financiamento total de cerca de 800 mil euros» («​Resíduos de minas alentejanas dão origem a produtos eco-inovadores», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 10.06.2020, 8h50).

      É pena Olímpia Mairos não se dedicar um pouco mais à ortografia e, enfim, ao apuro da frase. É ecoinovador e socioambiental. A primeira já por aqui tinha passado, num texto irónico que abespinhou um investigador universitário. Se esta gente mandasse, tínhamos de ser totalmente transparentes e com um discurso neutro, anódino — irrelevante. Sobretudo que não os beliscasse nem denunciasse as suas muitas inépcias.

 

[Texto 13 529]

Léxico: «esculapino»

Quase reduzidos ao osso

 

      Como é que se diz no epigrama bocagiano? Ah, sim: «Um velho caiu na cama;/ Tinha um filho esculapino,/ Que para adivinhações/ Campava de ter bom tino.» Os dicionários é que não se podem campar de ter lá este esculapino. Quase alcançaram o desiderato mínimo do português fundamental.

 

[Texto 13 528]