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Linguagista

Léxico: «repousa-pés»

Ninguém o ajuda

 

      «Para criar diversidade nos exercícios, a instrutora dá ainda exemplos que incluem a mobília mais básica — uma cadeira, o sofá, um pousa-pés ou uma mesa são o bastante numa altura em que todos estão a adaptar-se a uma nova forma de viver também o desporto» («Treinar em casa», João Miguel Salvador, «Revista E»/Expresso, 28.03.2020, p. 80).

      Na verdade, o nome é repousa-pés — porque serve para repousar, mais do que meramente pousar, os pés. O jornalista não tinha como comprovar isto nos nossos dicionários. O termo que usou, pousa-pés, também existe, mas é outra coisa.

 

[Texto 13 557]

Confusão: «discriminação | descriminação»

Ainda nos espanta e indigna

 

      «Acabadinho de dar uma aula na Telescola, Marcelo Rebelo de Sousa improvisou uma conferência de imprensa para falar dos temas quentes do momento e divergiu da direita que diz que não há racismo estrutural em Portugal. “Há racismo em Portugal”, diz Marcelo. “Mas há muita descriminação na sociedade portuguesa a merecer atenção”. E “lutar não é destruir estátuas, é criar condições para reduzir desigualdades”. Centeno Governador do BdP? “Não vejo problema”. Apoios da UE? “Não estou otimista”» («Marcelo: “Há racismo em Portugal? Há! Mas destruir estátuas não é uma forma inteligente de o combater”», Ângela Silva, Expresso, 15.06.2020, 15h13).

      O céu nunca cai por causa destas coisas, mas cai-nos a alma aos pés. Como é que uma jornalista — um qualquer falante minimamente competente — dá semelhante erro? Para não termos dúvidas, o erro aparece quatro vezes. No limite, a jornalista até pode ignorar que há dois termos, parónimos, discriminação e descriminação.

 

[Texto 13 556]

Léxico: «mesmerizante | borboleta-rainha-alexandra»

Entre as maiores

 

      «Ficamos hipnotizados a vê-la crescer e desenvolver-se, como faríamos se pudéssemos observar a mesmerizante Ornithoptera alexandrae, a maior borboleta do mundo, quando sai do seu casulo» («Nós, as borboletas e o vírus», Guta Moura Guedes, «Revista E»/Expresso, 28.03.2020, p. 86).

      A Ornithoptera alexandrae, de nome comum borboleta-rainha-alexandra, que vive em florestas no extremo oriental da Papua-Nova Guiné, está, de facto, entre as maiores do mundo.

 

[Texto 13 555]

Léxico: «multi-instrumentista»

Resgatado do esquecimento

 

      Há anos que não ouvia o músico e multi-instrumentista Terence Trent D’Arby, até parece que foi noutra vida. Outra vida tem ele, que mudou de nome, agora é, legalmente, Sananda Maitreya, está casado com uma apresentadora de TV italiana e vive na Itália. Parece prosperar à sombra dos êxitos do passado, Sign Your Name, Holding On To You e Delicate. A propósito, porque não está o vocábulo multi-instrumentista nos nossos dicionários?

 

[Texto 13 554]

«De vento em pompa»!

Já que falamos nisso

 

      «Félix e a namorada publicaram ao longo desse tempo fotos nas redes sociais que provam que o romance vai de vento em pompa e que as polémicas traições do jogador fazem parte do passado» («Regresso. Corceiro deixa João Félix», Miguel Azevedo, Correio da Manhã, 14.06.2020, p. 48).

      Já aqui tínhamos visto «de vento em poupa» ­escrito por um jovem editor. Enfim, a ignorância não conhece fronteiras, no que se assemelha ao novo coronavírus. Diga-se, muito a propósito, que não concordo com a definição da expressão de vento em popa que encontramos no dicionário da Porto Editora: «com felicidade». Apesar da sua secura, alguém vai meter água. Leiam Frei Domingos Vieira.

 

[Texto 13 553]

Léxico: «lixão»

É assim no Brasil

 

      «Segundo a professora, um agravante é que o terreno “fica ao lado do Parque Estadual Jequitibá, remanescente de Mata Atlântica, que surgiu após muita luta [dos moradores] da região”. “Eu fiz uma reclamação na Cetesb [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo], mas pelo endereço do aterro ou lixão indicaram que eu fizesse a reclamação em Osasco pois eu estou em São Paulo e o terreno do lixão em Osasco”, conta» («Moscas invadem casas na zona oeste», Agora, 13.06.2020, p. A5).

 

[Texto 13 552]

Sobre «fiado»

Nada afiado

 

      «A venda de medicamentos a crédito pelas farmácias aos utentes aumentou 7,8 milhões de euros no mês de maio, elevando a dívida global para 76 milhões de euros – o valor mais alto de sempre, de acordo com a Associação Nacional das Farmácias (ANF)» («Vendas a fiado nas farmácias atingem recorde de 76 milhões de euros», A. G., Jornal de Notícias, 14.06.2020, p. 12).

      É assim que se diz, «a fiado»? Não é, A. G., ou titulador sabotador, não é: fiado é advérbio, não locução adverbial. Imagino que o erro provenha da indevida analogia com «a crédito».

 

[Texto 13 550]

Léxico: «minutante»

Se está lá, está certo

 

      «A missão Taylor faz várias perguntas: era preciso confirmar as notícias americanas? Era necessária uma condenação? Numa nota, o minutante monsenhor Dell’Acqua suspeita de “exagero” nas notícias e de um propósito político na operação» («Os anos de silêncio na Igreja», Andrea Riccardi, «Revista E»/Expresso, 30.05.2020, p. 23).

      Eu sei, eu sei: minutante é italiano, e o autor é italiano. Na Infopédia, encontramo-la somente como palavra italiana, com a correspondente em português: minutador. Contudo, usa-se, há largas décadas, minutante no Brasil, podemos encontrá-la até em dicionários jurídicos. E como a encontramos igualmente na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, para mim é claro que se trata também de termo português.

 

[Texto 13 549]