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Linguagista

Léxico: «monocomando | bicomando»

Por esse País fora

 

       Ontem, tive de comprar uma torneira misturadora monocomando para o lava-louça. Na casa de banho, é uma misturadora bicomando que tenho. Sim, ainda estou a ponderar se em misturadora, nos dicionários, não devia estar esta acepção, já que se usa a maioria das vezes desacompanhada de «torneira». O que não compreendo de maneira nenhuma é a ausência de monocomando e bicomando, que se usam por esse País fora todos os dias.

 

[Texto 13 566]

Léxico: «evinel», de novo

Uma estranha ausência

 

      Outra coisa que não ficou bem resolvida foi o verbete de evinel. Neste caso, porém, não a definição, mas a estranha ausência da nota etimológica. Então, em capoto diz-se que provém de uma marca comercial e até se foi ao extremo de anotar o que significa o nome comum (o que me parece supérfluo) e em evinel omite-se que provém também, como eu realcei então, de uma marca registada? Se pesquisarmos na base de dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, vemos que a marca, entretanto caducada, era propriedade da Covina – Companhia Vidreira Nacional. Custa assim tanto escrever isto — que deriva do nome comercial Evinel — no verbete?

 

[Texto 13 565]

«Pacta sunt servanda»

Ainda o latim

 

      Para não haver divergências na interpretação, o presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, disse-o em latim: «Pacta sunt servanda». É um antigo adágio jurídico que significa «os pactos são para cumprir». Ouvi a notícia ontem num qualquer canal, e o pivô não disse, se é que sabia, o que significa. Talvez provenha de uma obra ulpiniana, mas eu já nem quero que este adjectivo vá para os dicionários, isso já seria sonhar, mas, agora que tem o Dicionário de Locuções Latinas e Expressões Estrangeiras, a Porto Editora deve recolhê-lo. Que sirva, pelo menos, para os jornalistas saberem.

 

[Texto 13 564]

Sobre «escrivã»

Induz em erro

 

      «A promoção recente de uma escrivã a secretária de tribunal superior junto do Supremo Tribunal de Justiça está a causar polémica entre os secretários de Justiça, que não souberam da vaga, uma vez que não houve concurso. Segundo o seu Estatuto, apenas podem desempenhar funções em tribunais superiores os secretários de Justiça que, no concurso, tiverem a nota máxima, ou seja, Muito Bom. O Supremo Tribunal de Justiça justifica esta nomeação com as qualidades profissionais da candidata, nomeadamente na área da informática» («Craque da informática sobe sem concurso», Magali Pinto, Correio da Manhã, 14.06.2020, p. 12).

      É certo que o dicionário da Porto Editora indica — e muito bem — escrivão como masculino, mas diz que escrivã é a «religiosa encarregada da escrituração, nos conventos de freiras». Parece-me óbvio que o verbete tem de ter outro tratamento dicionarístico.

 

[Texto 13 563]

Léxico: «muralista»

Pintor, não seguidor

 

      «De repente, centenas de pintores, muralistas, escultores, etc., pagos à hora como operariado, puseram-se ao trabalho para dar conta das condições de vida e luta dos trabalhadores, em casa, na fábrica ou no campo» («Cultura em tempo de guerra», Jorge Calado, «Revista E»/Expresso, 28.03.2020, p. 38).

      Só quero perceber, Porto Editora, não te melindres: como é que retratista é «que ou pessoa que pinta a aguarela» e muralista é o «seguidor ou adepto do muralismo»? É o que todos os dicionários em Portugal dizem, mas o Dicionário da Real Academia Espanhola define assim o vocábulo: «Artista que cultiva la pintura y decoración murales.»

 

[Texto 13 562]

Léxico: «papeleira», de novo

Voltar atrás, corrigir

 

      Posso voltar um pouco atrás? São muito generosos. Falei aqui recentemente das papeleiras inteligentes que a Câmara Municipal de Cascais instalou na vila. Sugeri então que a Porto Editora incluísse a acepção no verbete papeleira do dicionário. Não ficou bem, porque uma das novas acepções (a que interessa ao caso) diz que é o «depósito público que se destina à recolha de papel para reciclar; papelão». Não é assim. Ainda ontem pus um copo de plástico numa destas papeleiras. São papeleiras, mas deposita-se nelas todo o tipo de lixo, plástico, metal, papel... Um preservativo (quando a coisa aconteceu ali atrás de uma moita), uma máscara, um pau de gelado. Se isto for para continuar, e agora que a Câmara de Cascais está a instalar dispensadores de máscaras no concelho (fala-se em 400!), talvez até venhamos a ter mascareiras.

 

[Texto 13 561]

Léxico: «gamba-tigre-gigante»

De Moçambique

 

      «Apenas durante a hora de jantar, das 17h às 23h, há [no restaurante Come Prima] gamberoni brace al salsa verde, gambas-tigres selvagens de Moçambique em forno a lenha, risotto con nero di seppia, chocos em sua tinta e parmigiano DOP, “Tris di casa per due”, uma degustação de massas frescas feitas na casa» («Vícios. Especial entregas ao domicílio», «Revista E»/Expresso, 28.03.2020, p. 84).

      Logo, Porto Editora, não há apenas o camarão-tigre, também existe a gamba-tigre, como se pode ver.

 

[Texto 13 560]

Ortografia: «pós-pandemia»

Mais importante?

 

      «Nove em cada dez empresas inquiridas não diversificou os mercados com que trabalhava, mas mais de 80% das que o fizeram, pretendem mantê-los na fase pós pandemia» («Dois terços das empresas que diversificaram produtos e serviços durante a pandemia mantêm decisão para o futuro», Ana Carrilho, Rádio Renascença, 15.06.2020, 20h32).

      A jornalista Ana Carrilho acha que é assim que se escreve — confundindo preposição com prefixo, ou ignorando o elementar. Vê-se muito este erro na imprensa, como se os jornalistas, de súbito, tivessem alguma coisa mais importante para fazer e não relessem os artigos que escreveram. Lamentável.

 

[Texto 13 558]