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Linguagista

Léxico: «sanitização»

Mais abrangente

 

      «A intenção é que esse tipo de dispositivo seja usado em locais como hospitais, para sanitização de roupas e itens de proteção usados por profissionais de saúde. Mas também poderá ser utilizado em locais de grande circulação de pessoas como aeroportos, escolas e universidades, entre outros, quando as atividades começarem a voltar ao normal» («Sistema Fiep investe em projeto para produção de túnel de sanitização», Folha de Londrina, 21.06.2020, p. 6).

      Ou seja, sanitização não é apenas o que se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «conjunto de procedimentos que visam assegurar que o fabrico de produtos alimentares seja realizado nas melhores condições higiénicas».

 

[Texto 13 606]

Plural dos apelidos, mais uma vez

É só contar

 

      «Balsemão abdicam de 71 mil euros», titula hoje o Correio da Manhã. O que estará errado, o sujeito ou a pessoa verbal? Vamos à notícia: «O ‘chairman’ da Impresa (dona da SIC), Francisco Pinto Balsemão, e o presidente executivo, Francisco Pedro Balsemão, renunciaram ontem em assembleia-geral ao recebimento de bónus referentes ao ano de 2019, no total de 71 400 euros» (Correio da Manhã, 23.06.2020, p. 40). Vejamos se ainda sei fazer contas: Balsemão + Balsemão = Balsemãos. Não há dúvida: dois ou dois mil, é Balsemãos. Os apelidos têm, evidentemente, plural.

 

[Texto 13 605]

Como se pontua por aí

O cartão-de-visita

 

      «É um abuso ridículo o ministro que não consegue manter aulas presenciais nas universidades, contratar duas vozes famosas da Opera Estatal de Berlim e um pianista para oferecer uma Gala de Ópera a umas dezenas de convidados no Teatro Thalia que tem à porta do MCTES» («Gala de Ópera», João Vaz, Correio da Manhã, 23.06.2020, p. 2).

      Julgam-se a reserva moral da República, mas não são o reduto da boa linguagem e do respeito das regras gramaticais. Neste excerto, é a pontuação, mas em todo o texto, além de mais erros de pontuação, é a ortografia que sai contundida. Isto, juntamente com a aplicação insipiente e trapalhona do Acordo Ortográfico de 1990, é o cartão-de-visita perfeito.

 

[Texto 13 604]

Léxico: «bufante»

E diz bem

 

      «As mangas bufantes, como [Marisa Matos] lhes chama, são uma das imagens da Sienna, a par da versatilidade estampada em vestidos, camisas, calças e tops» («Sienna», Visão, 7.05.2020, p. 98).

      Chama e chama muito bem: diz-se bufante da peça de vestuário, ou parte dela, habitualmente, mangas, «franzida e folgada, com aspecto inflado, como se estivesse cheia de ar», como se lê no Dicionário Aulete. Não tenho a culpa de que venha do francês nem da sua falta no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Parece-me que conheço as mangas bufantes desde sempre. Talvez da literatura, sim. «Então D. Maria recuou o magro peito — como se esse casamento do primo dependesse de doce influências, que convinha se trocassem bem chegadamente, sem Marias Mendonças de permeio no estreito banco com grandes mangas bufantes tolhendo as correntes de eflúvio» (A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queiroz. Porto: Livraria Lello, 1946, p. 261).

 

[Texto 13 603]

Léxico: «rolê»

Este é o mais usado

 

      «Um dos passatempos preferidos dos moradores da Zona Oeste, o passeio no shopping foi liberado. Mas é preciso ficar ligado nas medidas de segurança» («Rolê mais que esperado», Danillo Pedrosa, O Dia, 21.06.2020, p. 8).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, na sua versão digital (deixem-me explicar assim bem explicadinho, porque ainda recentemente um leitor, à primeira vista tão inteligente como nós, e que segue os meus blogues desde o início, não sabia a que dicionário eu me referia...), regista o termo brasileiro rolê, sim, mas não esta acepção, que, nem por acaso, é a mais usada.

 

[Texto 13 602]

Léxico: «periciar»

E faz falta

 

      «E em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, um crânio ainda com um capacete foi encontrado no meio do mato por um morador da região há menos de um ano. Foi periciada, mas não há ainda detalhes» («O mistério dos crânios de Curitiba», João Almeida Moreira, TSF, 18.06.2020, 7h57).

 

[Texto 13 601]

Sara, sariano, subsariano

Nada disso

 

      «A Península Ibérica deve ser atingida na terça-feira por poeiras provenientes do deserto do Sáara, informou hoje o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA)» («Poeiras do deserto do Sáara atingem Península Ibérica na terça-feira», Rádio Renascença, 21.06.2020, 17h45).

      Ainda me ocorreu que fosse trapalhada, mas não, no portal do IPMA pode ler-se, efectivamente, «deserto do Sáara». E assim aparecerá por todo o lado nos próximos dias. Não, não: para mim, já sabem, só há uma forma (que é, ao mesmo tempo, a mais próxima da mais antiga), que é Sara, com acento na primeira sílaba. Sara, sariano, subsariano — o resto é treta.

 

[Texto 13 600]

Para melhorar os dicionários

Outro caminho

 

      Há vários caminhos para melhorar e ampliar a utilidade dos dicionários. Hoje, regressava da baía e, acima de mim, ouvia as gaivotas. Ouvia as gaivotas quê — guinchar, piar? Pois. Se o dicionário da Porto Editora passasse a ter, como sucede para alguns termos, além dos antónimos e dos sinónimos, palavras relacionadas, tornar-se-ia extraordinariamente mais útil. Seriam como que as sinapses do dicionário. Aliás, aquele dicionário já tem aquilo que, a meu ver, é muito menos útil — anagramas. Então, regressando ao meu exemplo, os verbos «grasnar», «guinchar» e «pipilar» estariam entre os termos relacionados.

 

[Texto 13 599]

Léxico: «rachadinha»

Até cá sabem

 

      «A detenção obedeceu a um mandado do Ministério Público daquele estado. A Operação Anjo, em cooperação com as autoridades de S. Paulo, com buscas domiciliares nos dois estados, está relacionada com a investigação a um alegado esquema ilícito – a “rachadinha” no jargão brasileiro – no qual funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro seriam obrigados a entregar-lhe parte dos salários, através de Queiroz» («“Cerco” judicial aperta clã Bolsonaro», Alfredo Maia, Jornal de Notícias, 19.06.2020, p. 27).

 

[Texto 13 598]

«Tratar-se de», milésima vez

De cortar os pulsos

 

      «Luís Gaiba justificou ainda que os códigos “papéis” ou “papelada” que o MP diz serem utilizados entre si e o principal vendedor das armas, António Laranginha, tratavam-se realmente de papéis de que necessitava para o batismo da enteada. [...] “Carregadores” era outro suposto código, que o arguido disse tratarem-se de carregadores de telemóvel» («Compra de Audi trama polícia em furto e tráfico de armas», Rogério Matos, Jornal de Notícias, 19.06.2020, p. 16). É escusado, não aprendem.

 

[Texto 13 597]

Léxico: «secundarista»

Agora em português

 

      «Em São Paulo, nas ocupações de escolas públicas em 2015, estudantes secundaristas fizeram movimento pela derrubada das estátuas dos bandeirantes assassinos de índios Fernão Dias Paes e Borba Gato, entre outros. Não conseguiram, tratados a cassetetes» («Seattle, nos Estados Unidos, é cidade da necessária utopia», Marilene Felinto, Folha de S. Paulo, 21.06.2020, p. A15).

      Ah, essa é palavra para estar apenas escondida num dicionário bilingue, não? É o leerling van de middelbare school.

 

[Texto 13 596]