Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Linguagista

Léxico: «inuíte | esquimó»

Mas não exagerem

 

      «Em 2009, uma jovem australiana, Seeka Lee Veevee Parsons, uma Inuíte (indígena esquimó) denunciou a Cadbury/Pascall – fabricante de doces na Austrália e na Nova Zelândia – pela utilização da marca “Eskimo” em alguns dos seus produtos, denunciando que havia uma apropriação cultural para vender. A empresa recusou-se a mudar o nome» («Marcas da mudança», Jornal de Angola, 24.06.2020, p. 8).

      Está bem que errar é humano, mas não exagerem. Essa jovem inuíte é canadiana, do território de Nunavut. O termo esquimó, não o aprendemos já?, é considerado pejorativo pelos próprios — que se designam a si mesmos Inuítes. Portanto, com este matiz, são sinónimos, ou não? Sendo assim, muito estranho, em pleno século XXI, esta definição de inuíte no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, na sua versão digital: «relativo aos Inuítes, povo esquimó que habita as regiões árcticas do Canadá, do Alasca e da Gronelândia».

      Na minha mais ou menos modesta opinião, é necessário corrigir os dois verbetes, incluindo as tão úteis remissões mútuas.

 

[Texto 13 616]

Léxico: «caldinho»

A capital também é região

 

      «“Na parte das sanduíches ressuscitámos a bucha”, conta [André Magalhães, um dos sócios da Taberna da Rua das Flores]. “O pessoal sempre pôs comida dentro do pão, e por isso vamos ter a sandes de sangacho de atum, o caldinho [café com ginginha] e a sandes de torresmos com manteiga de chouriço”, em homenagem ao Rei dos Torresmos, também conhecido como Quiosque da Bomboca, que ali perto, no Cais do Sodré, aviava centenas de buchas para os estivadores que passavam às primeiras horas da madrugada e as levavam embrulhadas em jornal» («Este quiosque é uma taberna das memórias de Lisboa: há petiscos e “xiripitis” no Cais do Sodré», Alexandra Prado Coelho, Público, 16.06.2020, 11h59).

      Muito bem, mas é «ginjinha» e (embora totalmente convencional) «chiripiti». Quanto a este caldinho, é regionalismo que o dicionário da Porto Editora não acolhe, mas não é a única acepção que não acolhe do termo. «— Vais-te aguentar à bronca, mas já lhe vou arranjar um caldinho» (Vida e Mortes de Faustino Cavaco, Faustino Cavaco. Lisboa: Editores Reunidos, 1989, p. 197). Sim, Faustino Cavaco, do bando dos Cavacos, que tripudiou a polícia no Verão de 1986. Ele deve perceber de caldinhos, ou não?

 

[Texto 13 615]

Léxico: «pexito | carapau-manteiga | carapau-branco»

Mais conhecimento desperdiçado

 

      «Como a Fonte da Telha fica uns quilómetros mais a sul, fomos espreitar o que estava a estava a sair das redes da arte xávega. E lá estavam os tais carapaus ditos manteiga a saltar no areal. Perante perguntas insistentes sobre a cor, o formato dos peixes e a serrilha no lombo, um pescador, já aborrecido, sai-se assim: “Você é pexito? [pexitos são os habitantes de Sesimbra]. “Não”, respondemos. “É de Setúbal?”. “Também não.” E rematou: “É que os dali [aponta para sul] acham que o carapau manteiga é só deles. O peixe vem de sul para norte, mas, na cabeça deles, chega à Arrábida e volta para trás.” [...] Ora, quem não tem a mínima dúvida sobre a existência do “verdadeiro carapau manteiga” é Ricardo Santos, presidente da Sesibal. Estudioso do mar, Ricardo fala de peixe como um viticultor fala de terroir. Não lhe interessa saber se o carapau manteiga é ou não uma subespécie do carapau branco» («O misterioso carapau manteiga», Edgardo Pacheco, «Fugas»/Público, 13.06.2020, p. 3).

 

[Texto 13 613]

Léxico: «tirolês | tirolesa»

Mais construção civil

 

      Outra coisa que qualquer mestre-de-obras conhece — mestre-de-obras? Qualquer servente de pedreiro, diga-se antes — é o reboco à tirolesa, ou tirolês, que é uma argamassa de cimento e areia grossa, de traço relativamente forte, para revestimento de paredes, em geral os socos. Aplica-se projectando-o contra um reboco já dado à parede, por meio de um crivo de furos um pouco largos ou de uma ferramenta — a tirolesa — de caixa circular que contém palhetas que se accionam girando uma manivela lateral (vejam aqui). Ora, nem tirolês nem tirolesa nestas acepções estão em nenhum dos nossos dicionários. Até na lei, contudo, os vejo. Este acabamento, que detesto, já foi mais usado, até para todo o prédio, aí pelos anos 1970 e 1980. 

 

[Texto 13 612]

Léxico: «prova-rainha»

Só se se esforçarem

 

      «No outro jogo do dia, a Fiorentina, 13.º, com 31 pontos, somou o terceiro empate consecutivo, desta vez, a um golo, na receção ao lanterna-vermelha Brescia, que tem 17» («Cristiano Ronaldo e Rafael Leão marcam nas vitórias de Juventus e AC Milan», TSF, 23.06.2020, 6h35).

      Nunca hei-de perceber por que razão a Porto Editora dicionarizou lanterna-vermelha e desporto-rei, mas não prova-rainha. Caprichos?

 

[Texto 13 611]

Lenine sempre

Para sempre

 

      «A escritora Lídia Jorge, li no Diário de Notícias, ficou contente quando viu as estátuas de Lénine derrubadas em Budapeste nos anos da queda do bloco soviético. Mas não ficou nada satisfeita com a vandalização feita, há dias, à estatua em Lisboa do Padre António Vieira» («Agora erguem-se estátuas a Lénine?», Pedro Tadeu, TSF, 22.06.2020, 6h35, itálico meu).

       De facto, vê-se algumas vezes transliterado desta forma, mas, ainda que seja a mais correcta, o que não está totalmente demonstrado, já iríamos tarde para endireitar o que quer que seja. Será, deste lado do Atlântico, Lenine a grafia que prevalece.

 

[Texto 13 610]

Léxico: «precaucionista»

Outra forma

 

      «O saldo recorde da poupança registrado em maio —R$ 921 bilhões— resulta não só do aumento do volume de depósitos, fruto do auxílio emergencial, mas também de uma queda significativa das retiradas. A queda nos resgates à primeira vista é contraintuitiva, considerando a alta do desemprego e as reduções salariais, fatores que deveriam levar as famílias a usar mais suas reservas. No entanto, o que parece estar ocorrendo é o movimento contrário, alimentado por uma atitude precaucionista entre as classes média e alta diante de um quadro de incerteza e volatilidade, afirmam economistas» («Cautela dos mais ricos freia saques da poupança e indica recuperação lenta», Fernanda Perrin, Folha de S. Paulo, 22.06.2020, p. A13).

      Vê-se algumas vezes, e em especial em questões jurídicas. Diferente é, e copiada do inglês, esta forma: «Em resposta a essa situação, um grupo de Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA) pede aos decisores políticos europeus que “estabeleçam limites de pesca para essas populações que não excedam os pareceres científicos, adotem a abordagem precaucionária e minimizem os impactos negativos da pesca nestes ecossistemas”» («Bancos de peixe-espada abaixo do recomendado», Lúcia M. Silva, Jornal da Madeira, 13.06.2020, p. 18).

 

[Texto 13 609]

Raios ultravioletas

Qual invariável!

 

      «Apesar de reconhecer que “não há evidência de qualquer reação de fototoxicidade do álcool-gel”, o dermatologista [João Nuno Maia e Silva, da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo (APCC)] admite que, como há muitos produtos no mercado, algum antissético possa ter substâncias que provoquem reações alérgicas quando a pessoa se expõe ao sol» («Lavar e desinfetar, primeiro. Hidratar, depois. Pôr creme nas mãos é uma necessidade», TSF, 23.06.2020, 12h16).

      Lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, na sua versão digital: «lesão na pele semelhante a queimadura solar provocada pelo contacto dos raios ultravioletas com uma substância (cosmético, fármaco) presente no organismo». Claro que está tudo bem, mas agora vão a correr descorrigir. Eu devia estar caladinho, e sempre era menos um erro com que se inoculam os pobres falantes, mas também quis demonstrar como a boca lhes foge para a verdade.

 

[Texto 13 608]