06
Jul 20

Léxico: «pré-publicação | revisão por pares»

É por isso que não avançamos

 

      «A primeira versão do trabalho da cientista foi publicada no final de Maio na MedRxiv (que reúne pré-publicações que ainda não foram submetidas a revisão por pares), mas a equipa está a trabalhar numa versão actualizada para publicar em breve. O novo artigo deverá incluir estimativas de imunidade de grupo para Espanha, Portugal, Bélgica e Inglaterra» («Há imunidade de grupo só com 20% da população infectada?», Andrea Cunha Freitas, Público, 4.07.2020, p. 37). Em ciência, o conceito de pré-publicação não é o mesmo que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e no que respeita à revisão por pares, nem vestígios. Nos dicionários em língua inglesa, em contrapartida, não faltam preprint, peer review ou refereeing.

 

[Texto 13 664]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,

Sobre «varina»

Não é o que se diz

 

      «Sabia... que as varinas eram as ovarinas de Ovar? Sim, é verdade. As varinas, mulheres que em Lisboa vendiam peixe e se fixaram sobretudo no bairro da Madragoa, e mais tarde em Alfama e Mouraria, são descendentes das gerações de ovarinas vindas do litoral de Aveiro no início do século XIX, essencialmente do concelho de Ovar, para acompanhar os maridos pescadores. Com o tempo caiu a letra que as ligava às raízes e fixava residência na sua alma. De Ovar trouxeram a atitude viva e desperta que fazia delas uma população inteiramente à parte. E era vê-las, atrevidas e ruidosas, com uma canastra de fundo chato, que equilibravam na cabeça com imodesta habilidade» («Sabia...», Ana Rita Ramos, Público, 4.07.2020, p. 59).

      Quantas vezes, caro leitor, deparou com o termo varino, tem ideia? Claro, sabemos como os vocábulos são apresentados nos dicionários, mas pode não ser muito boa ideia que em varino se diga que vem «de ovarino, com aférese» e em varina se diga simplesmente que vem «de varino». A propósito, vareiro é mesmo, como se lê no dicionário da Porto Editora, o «natural ou habitante de Ovar, no distrito de Aveiro», como está na acepção 2, ou somente, como se afirma na acepção 3, o «habitante da beira-mar, desde Aveiro até às proximidades do Porto»? «É o indivíduo da beira-mar, entre Aveiro e Porto, aproximadamente; é o que é oriundo de toda a região da laugna [sic] do Vouga. Os habitantes ou naturais de Ovar são denominados ovarenses ou ovarinos», escreve o ovarense Alberto Sousa Lamy, autor de uma monografia de Ovar em dois volumes. Logo, salvo melhor opinião, o que se lê naquele dicionário está incorrecto.

 

[Texto 13 663]

Helder Guégués às 09:30 | favorito

Léxico: «bimi | brássica»

Nem uma

 

      «O bimi é a verdura do momento. Surgiu do cruzamento de brócolos com a couve kailan, o que lhe dá um aspeto de “brócolos-bebé”. Talvez por isso, nalguns supermercados e mercearias, encontra-o com esse nome» («Bimi e brócolos: quem vence a guerra dos nutrientes?», Deco Proteste, 23.04.2018). Tudo isto e muito mais se disse numa pequena reportagem no programa Portugal em Direto, da RTP1, na passada sexta-feira. Que era o resultado do cruzamento natural de duas brássicas (termo que o dicionário da Porto Editora também não acolhe), os brócolos (Brassica oleracea, grupo Italica) e a couve-chinesa, kailan (Brassica oleracea, grupo Alboglabra).

 

[Texto 13 662]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «bizona | trizona»

Não há-de parar por aqui

 

      Ar condicionado bizona? Isso não é nada. O DS 7 Hybrid, pelo menos num dos pacotes de extras (a grande moda que veio para ficar: se queremos um carro razoável ou muito melhor, temos de desembolsar mais dez mil euros), vem equipado com climatização trizona. Os nossos dicionários é que se mostram superiores a tudo isso e nem bizona nem trizona. É à taxista: a janela aberta e bracinho cá fora, até para ajudar em certas manobras que condenam nos outros.

 

[Texto 13 661]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «ordenando»

Verbo, dizem?

 

      «A Companhia de Jesus em Portugal (Jesuítas) vai receber, este domingo, às 15h00, na Sé Nova de Coimbra, três novos padres: António Pamplona, João Sarmento e Nelson Faria. [...] Dado o contexto de pandemia que se vive, a eucaristia terá um “acesso restrito, contando apenas com familiares, companheiros e amigos mais próximos dos ordenandos, lê-se» («Ordenação de três padres na Sé Nova de Coimbra», Rádio Renascença, 2.07.2020, 20h02).

      Agora há tão poucos ordenandos, mas tão poucos, que os nossos dicionários já nem registam o vocábulo ordenando. Agora só dizem que é «forma do verbo “ordenar”».

 

[Texto 13 660]

Helder Guégués às 08:45 | favorito
Etiquetas: ,

Monsaraz, Estremoz, Setúbal...

Passam os anos, não a ignorância

 

      Há coisas que nunca mudam. Vinha eu de Cascais na quinta-feira — Ui, um ciclista atropelado! — e, numa rádio, lá estava o locutor a estropiar o topónimo Reguengos de Monsaraz. Não me vou esforçar, basta republicar um texto do Assim Mesmo datado de 2006: «Felizmente, a pronúncia incorrecta, e tão vulgar, do topónimo Estremoz não passa para a escrita. Já quanto a Reguengos de Monsaraz, estamos mal. Já várias vezes ouvi jornalistas na televisão e na rádio pronunciarem “Monsarraz”, como se tivesse dois rr. Agora, passou mesmo para a escrita: “O Menir do Barrocal, o maior monumento pré-histórico existente no distrito de Évora, localizado em Reguengos de Monsarraz, está a ser estudado pela primeira vez” (“Maior menir do distrito vai ser estudado”, Diário de Notícias, 15.4.2006, p. 33).» Estremoz e Reguengos de Monsaraz, mas Setúbal também não saem escorreitamente do aparelho fonador de muitos jornalistas. Isto é normal?

 

[Texto 13 659]

Helder Guégués às 08:30 | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «tapa-sol»

Aqui não há automóveis

 

      Típicas da arquitectura da Madeira, as janelas têm tapa-sóis, persianas com ripas de madeira, que não são, como acabei de explicar, como o único tapa-sol que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «objecto quadrado ou rectangular, frequentemente de cartão ou poliéster, usado no interior de veículos como protecção contra o sol». A definição deste também não se recomenda: «objecto quadrado ou rectangular». E «interior de veículos»... Que veículos?

 

[Texto 13 658]

Helder Guégués às 08:15 | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
06
Jul 20

Léxico: «sobreleito | em tempo»

Mais um par

 

      Um verbete a que a Porto Editora deu sumiço foi o de sobreleito, que é a designação da superfície inferior de cada uma das camadas que constituem as paredes. Em dicionários de há cem anos estava registado, agora desapareceu, e, contudo, ainda se usa. Diga-se, em tempo (expressão adverbial, reparo agora, que a Porto Editora ignora), não venha depois alguém assacar-me o contrário, que o uso actual não é condição para a sua dicionarização.

 

[Texto 13 657]

Helder Guégués às 08:00 | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,