07
Jul 20

«Sem cartel»?

Mais vale falar

 

      Hoje, a palavra do dia na Infopédia é cartel. No fim do verbete, há uma expressão que me surpreendeu, confesso, porque nunca deparei com ela, quer na oralidade, quer na escrita: sem cartel. Significa, segundo o dicionário, «sem tréguas, até à morte». Como só conheço, com o mesmo significado, a expressão sem quartel, pergunto a mim mesmo (e aos muitos leitores que tenho por esse mundo fora) se não haverá aqui confusão. Abonações, temo-las?

 

[Texto 13 675]

Helder Guégués às 11:30 | favorito

Léxico: «bilhardeira»

Enquanto é tempo

 

      Bilhardeira, diz a Porto Editora, é, na Madeira, «a que gosta de falar da vida alheia; coscuvilheira; mexeriqueira». É verdade — mas não é só isso. Falámos aqui ontem dos tapa-sóis, as persianas típicas da Madeira. Pois bem, algumas das ripas dos tapa-sóis são rotativas e comandadas por uma ripa vertical interior — a que também se dá o nome de bilhardeira. Se não levarmos isto para os dicionários, daqui a uns tempos ninguém sabe.

 

[Texto 13 674]

Helder Guégués às 10:15 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «prioritizar»

Não está mal

 

      «“Prioritizar casas acessíveis para profissionais de saúde, trabalhadores do setor dos Transportes, professores e centenas de outros que garantem o funcionamento de serviços essenciais. Estamos a oferecer pagar aos proprietários para transformarem centenas de alojamentos locais em casas com rendas acessíveis para trabalhadores essenciais”, destacou [Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa]» («Medina quer “acabar com o Airbnb”», Rádio Renascença, 5.07.2020, 20h49).

      Medina isto, Medina aquilo. Medina agora quer o centro de Lisboa para os «lisboetas de sangue». (Não será erro de tradução?) Ainda lhe cai na cabeça a durindana do cruzado inglês que participou na expedição que em 1147 colaborou com D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa aos Mouros.

 

[Texto 13 673]

Helder Guégués às 10:00 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «éduo | Éduos»

Povos apagados

 

      Durante as escavações numa necrópole paleocristã em Autun (Saône-et-Loire), França, os arqueólogos do Institut National de Recherches Archéologiques Préventives descobriram 150 sepulturas com cerca de 1600 anos. Entre os caixões, uns de chumbo, outros de madeira, foi encontrado um de grés, intacto. Autun era a Augustodunum da Antiguidade, que fora fundada pelo imperador Augusto como capital dos Éduos, um povo celta aliado (civitas foederata) de Júlio César durante as Guerras da Gália. Foi nas aulas de Latim que eu conheci os Éduos — Aedui. Pois bem, os Éduos desapareceram dos nossos dicionários. (Neste ponto, também podia avisar a Porto Editora de que o francês sépulture não se traduz somente por «sepultura», mas seria perda de tempo.)

 

[Texto 13 672]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «mestragem»

Chamem as Chaves do Areeiro

 

      O que o técnico disse é que com aquele cilindro de segurança para a porta havia até a possibilidade de mestragem. Ora, vá lá dizer isso também aos dicionários. «Queria pesquisar metragem, mostragem

 

[Texto 13 671]

Helder Guégués às 09:30 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «amostral»

Perdida

 

      «Trata-se de um “momento amostral de aferição a nível nacional”, como classificou o secretário de Estado e Adjunto da Educação, João Costa, que explicou só alguns alunos dos 3.º, 6.º e 9.º anos de escolaridade vão realizar estas provas, sem precisar a dimensão da amostra» («Ministério da Educação vai aferir quais as aprendizagens que ficaram para trás», TSF, 3.07.2020, 20h58).

 

[Texto 13 670]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «vaca-loura | vaca-ruiva | lucanídeo»

Há aí confusão

 

      No programa Os Dias do Futuro, na Antena 1, no sábado, um dos convidados foi o biólogo João Gonçalo Soutinho, que apresentou o «Projecto Vaca-Loira» (ver aqui), de que é o coordenador. O biólogo chegou a dizer que, pelo levantamento que fez, este lucanídeo, que é uma espécie protegida, tem 32 nomes comuns em Portugal, isto quando é raro os insectos, por motivos óbvios, terem nome. Se os dicionários registarem um quarto deles, já será bom. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, está assim: «ZOOLOGIA (Lucanus cervus) designação comum de insecto coleóptero, da família dos Lucanídeos, próprio de zonas florestais europeias, de cor escura, aspecto semelhante ao do escaravelho e, no caso dos machos, grandes mandíbulas que lembram a forma dos chifres do veado; cabra-loira, cabra-loura, lucano, vaca-loura». Aspecto semelhante ao do escaravelho?! A vaca-loura é um escaravelho! Um escaravelho, e o maior que temos em Portugal, com cerca de 8 centímetros. Ocorre acima do Mondego, e ainda em Sintra e no Montesinho. Vive nas raízes do carvalho-alvarinho. A mesma equipa também está a estudar a vaca-ruiva (Lucanus barbarossa), outro escaravelho.

 

[Texto 13 669]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (2) | favorito
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Ortografia: «Arcansas»

O que calha

 

      «Ao lado do Arizona, tanto na Califórnia como no Texas, foram registados novos recordes na quinta-feira, o que também aconteceu no Alasca, Arcansas, Florida, Georgia, Montana, Carolina do Sul e Tennessee. De todos, é a Florida que lida com a situação mais preocupante, com mais de dez mil casos na quinta-feira — mais quatro mil do que um dia antes» («No Sul dos EUA, teme-se um horror igual ao dos hospitais italianos», Alexandre Martins, Público, 4.07.2020, p. 34).

      Gostava de poder dizer o que disse sobre Visegrado, que o jornalista acertou e a Porto Editora desacertou. Mas não: na Infopédia, numa falta de critério desconcertante, ora se escreve Arcansas ora Arkansas.

 

[Texto 13 668]

Helder Guégués às 08:45 | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «racialismo | racialista»

Precisamos delas

 

      «O conto em apreço é uma denúncia da ideologia racialista e suas manifestações» («Carl Schmitt, o estado de excepção e a literatura», Luís Kandjimbo, Jornal de Angola, 14.06.2020, p. 15).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não vamos encontrar nem racialismo nem racialista. E, contudo, este último é empregado num texto de apoio («Brancura») da Infopédia.

 

[Texto 13 667]

Helder Guégués às 08:30 | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «nacionalização | parassocial»

Para lá das palavras

 

      «Os privados conseguiram em 2017, com a reversão parcial da privatização da TAP, uma proteção para os seus interesses patrimoniais e financeiros no caso de o Estado vir a tomar conta da companhia. O acordo parassocial assinado entre a Parpública, empresa do Estado, e a Atlantic Gateway prevê que, em caso de incumprimento ou bloqueio acionista, a Parpública possa assumir a totalidade da empresa e as responsabilidades de capitalização» («Acordo à vista na TAP pode evitar nacionalização. Estado reforça posição na companhia», Nuno Vinha e Ana Suspiro, Observador, 2.07.2020, 8h46).

      Não se trata de nacionalização? No 360º, da RTP3, Pedro Norton falou em seminacionalização; Luís Aguiar-Conraria começou por falar numa questão semântica: para ele, trata-se de uma nacionalização. Para mim, também está fora de dúvida de que estamos perante a renacionalização da TAP, pois o Estado passa a deter 72,5 % do capital e a exercer a gestão da empresa. Ou estamos enganados quanto ao conceito de nacionalização? Na definição da Porto Editora, nacionalização é a «apropriação por um Estado de uma indústria ou outra actividade económica anteriormente explorada por uma entidade privada». Para começar, porquê «por um Estado» em vez de «pelo Estado»? Mas isso não é tudo nem o principal: porquê falar-se logo na indústria? E porque não se diz que também há a nacionalização da bens? Assim, é a apropriação por parte do poder público de empresas, bens ou actividades económicas privadas. Só isto? Não: com a nacionalização, ocorre a alteração subsequente do seu modo social de gestão. Se um dicionário não disser isto, mais vale o falante ir tirar o curso de Direito.

 

[Texto 13 666]

Helder Guégués às 08:15 | ver comentários (2) | favorito
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07
Jul 20

Etimologia: «condelipa»

Será mesmo obscura?

 

      «Conquilhas. Na zona de Lagos são chamadas de “condelipas” porque consta que o Conde de Lippe era grande apreciador deste bivalve de concha achatada, lisa e brilhante, que vive enterrado na areia entre os 0 e os 6 metros de profundidade. É capturado na maré baixa, nos areais voltados para o mar, como se vê tantas vezes nas praias algarvias. Uma das melhores formas de comer conquilhas é o famoso xarém, as papas de milho tradicionais do Algarve. A época melhor é de Novembro a Maio» («Andamos a sonhar com marisco e peixe fresco», Alexandra Prado Coelho, «Fugas»/Público, 20.06.2020, p. 46).

      Tem visos de ser verdade, mas o dicionário da Porto Editora não se detém em especulações e di-lo «de origem obscura». Seja como for, uma coisa há para corrigir: no dicionário da Porto Editora, as definições de condelipa e conquilha/cadelinha diferem muitíssimo. Se são sinónimos, que sentido faz isto? Por fim, diga-se que algo do que se lê na descrição da jornalista devia passar a integrar a definição do dicionário.

 

[Texto 13 665]

 

Helder Guégués às 08:00 | ver comentários (2) | favorito
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