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Jul 20

Léxico: «mezzo-tinto»

Opções e incongruências

 

      «Como nas gravuras a mezzo-tinto, vê-se em Hill a luz lutando com esforço para permear a escuridão: Orlik fala da “condução sintética da luz” provocada pela longa duração da exposição que dá “a esses antigos retratos a sua grandeza”» (Walter Benjamin: Sociologia, trad. e org. de Flávio R. Kothe. São Paulo: Editora Ática, 1985, p. 226).

      Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas vamos encontrá-lo num bilingue. Pior: num texto de apoio da Infopédia, «técnicas de desenho e pintura», optaram por mezzotinto.

 

[Texto 13 712]

Helder Guégués às 10:00 | ver comentários (1) | favorito
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Definição: «sangria»

E agora a outra sangria

 

      «A sangria é tão especial que até tem direito a proteção da União Europeia. Em 2014, Bruxelas aprovou uma norma que dá apenas a Portugal e Espanha o direito de produzir e exportar uma bebida com tal denominação. E definiu regras bem claras, como a de que a graduação alcoólica não pode ultrapassar os 12%. Noutros países, especialidade parecida apenas pode ser comercializada se ficar bem explícito que se trata de uma “bebida aromatizada à base de vinho”. Sangria é que não: essa é exclusiva da Península Ibérica» («A imaginação tomou conta das sangrias», Pedro Emanuel Santos, Notícias Magazine, 11.07.2020). Então, se é ibérica, vamos ver a definição num dicionário português e num dicionário espanhol. A Porto Editora diz que é a «bebida preparada com vinho tinto, água, açúcar, sumo de limão e pedaços de frutas»; a Real Academia Espanhola afirma que é a «bebida refrescante que se compone de agua y vino con azúcar y limón u otros aditamentos».

 

[Texto 13 711]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «rixdaler»

Dão sumiço a milhares

 

      Não interessa agora como fez o tradutor, mas eu tive de corrigir para rixdalares. Embora não encontremos o termo nos nossos dicionários (mais uma falha), há muito que é usado entre nós. Encontro-o em obras editadas em Portugal no dealbar do século XIX, mas não será difícil ir mais para trás. Quer dizer, não está nos dicionários gerais, mas até o encontramos — prontinho a ser trasladado — no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora: «HISTÓRIA rixdaler, antiga moeda de prata da Suécia, Dinamarca, Flandres, Suíça e Alemanha».

 

[Texto 13 710]

Helder Guégués às 09:30 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «sangria | malaxador»

Mais acepções

 

      Vamos lá ver, Porto Editora, então à resinagem de um pinheiro vivo não se dá o nome de sangria? Não o dizes. Outra coisa, relacionada: não digas, em malaxador, que é o aparelho em que se malaxa a nata destinada a lacticínios — também a goma suja extraída dos pinheiros tem de ser limpa, o que se faz em malaxadores.

 

[Texto 13 709]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (2) | favorito
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Definição: «libambo»

O melhor fica por dizer

 

      O libambo, como definido por Cândido de Figueiredo, era a «cadeia de ferro, com que se prende pelo pescoço um lote de condenados quando saem das prisões para serviço». É um termo que vem do quimbundo e já era, decerto, usado pelos Portugueses quando traficavam cativos em África. Agora, o dicionário da Porto Editora diz apenas que é «1. corrente; 2. algema». Nada mais.

 

[Texto 13 708]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «iconoclasma»

É duplo, como tantos

 

      «O tema é antigo e sempre perigosamente recorrente, mostrando à sociedade quão acéfalo é o pendor dos homens para a violência gratuita e quão frágeis para lhe resistir são as obras de arte e os monumentos da História – sempre, nesse contexto, as primeiras vítimas a tombar. O recente livro de Éric Vuillard A Guerra dos Pobres, centrado nas revoltas camponesas na Alemanha no tempo da Reforma protestante, e na sua subsequente e violentíssima repressão, mostra bem como o ódio contra tudo o que possa ser considerado diferente alimenta as ondas de iconoclasma. Em nome da fé, em nome de Deus, em nome dos poderes instituídos, em nome de direitos ditos inalienáveis, mataram-se povos inteiros e destruíram-se patrimónios civilizacionais inestimáveis. Foi assim, mas parece que esquecemos» («Contra todos os iconoclasmas», Vítor Serrão, historiador de arte, Público, 13.07.2020, p. 7).

      Os nossos dicionários apenas registam inconoclasmo. Mais um mistério? Temos de consultar, por exemplo, o Treccani para termos esta informação: «iconoclasmo (o iconoclasma) s. m. [der. di iconoclasta] (pl. -i). – Lo stesso che iconoclastia

 

[Texto 13 707]

Helder Guégués às 08:45 | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «addolorato»

Isto foi no domingo

 

      «Papa “magoado” com decisão turca de transformar Santa Sofia em mesquita» (Sofia Freitas Moreira, Rádio Renascença, 12.07.2020, 12h55). Na Lusa, demoraram mais uns minutos a pensar no caso e saiu assim: «Papa Francisco está “muito angustiado” com decisão turca sobre Santa Sofia» (Lusa/TSF, 12.07.2020, 13h13). Só concordo com o «muito». Eu assisti ao ângelus e o papa disse isto: «Penso a Santa Sofia e sono molto addolorato.» Como addolorato é o che prova dolore interiore, parece-me mais adequado «magoado» — é uma ferida interior.

 

[Texto 13 706]

Helder Guégués às 08:30 | ver comentários (2) | favorito
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A negligência dos jornalistas

Inacreditável

 

       «Especialistas defendem que até 57,4% dos doentes que tiveram covid-19 desenvolveram algum tipo de sintoma neurológico, segundo um estudo liderado por um investigador de Albacete, Espanha, e publicado na revista médica Neurology. [...] Segundo o estudo, 57,4% dos pacientes avaliados em Albacete desenvolveram algum sintoma neurológico: 17% mialgia; 14% cefaleia e 6% instabilidade, mais comuns nos estágios iniciais da infeção, enquanto outros tiveram perda de olfato e disgenesia (distúrbios do paladar)» («Estudo admite que 57,4% dos doentes desenvolveram algum sintoma neurológico», Rádio Renascença, 9.07.2020, 18h45, itálico meu).

      Este caso é bem representativo da negligência da nossa imprensa. Em todos os meios, porque dimanou da Lusa, se lê «disgenesia (distúrbios do paladar)». Na RR, TVI, SIC, Público, Visão, Observador, em todos o erro e nenhum corrige nada. Tristeza. Até num jornal médico! A disgenesia diz respeito à função reprodutora. Não se tem vindo a falar na perda do olfacto (anosmia) e do paladar como dois dos sintomas de quem tem covid-19? Pois bem, o termo médico para a perda do paladar é disgeusia. Vagamente semelhante, mas sem nenhuma relação.

      Também há uma lição para os dicionaristas: qual a razão para só um destes termos estar no dicionário geral da Porto Editora?

 

[Texto 13 705]

Helder Guégués às 08:15 | ver comentários (1) | favorito
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14
Jul 20

Léxico: «ictiologista»

São às centenas

 

      «Guiando-nos pela média das observações feitas por diversas vezes — não tendo em consideração as observações tímidas que lhe atribuíam um comprimento de 200 pés e rejeitando opiniões exageradas que o diziam com uma largura de 1000 e um comprimento de 3000 —, podia-se, contudo, afirmar que esse ser fenomenal ultrapassava em muito todas as dimensões admitidas até então pelos ictiologistas — se é que existia» (20 000 Léguas Submarinas, Júlio Verne. Tradução de M. de Campos. Mem Martins: Publicações Europa-América, s/d [1989], p. 14). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas ictiólogo, mas ictiologista aparece em dois dicionários bilingues. Esta questão já por aqui passou. Há alguma regra? Até hoje, não a descortinei. Assim, temos, entre muitos outros, os pares audiólogo/audiologista, climatólogo/climatologista, ecólogo/ecologista, etólogo/etologista, gemólogo/gemologista, ginecólogo/ginecologista, hidrólogo/hidrologista, micólogo/micologista, tecnólogo/tecnologista, tisiólogo/tisiologista, virólogo/virologista, e todos têm de estar dicionarizados.

 

[Texto 13 704]

Helder Guégués às 08:00 | ver comentários (1) | favorito
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