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Jul 20

Léxico: «padronagem | cimentoso | mosaico hidráulico»

«Queria pesquisar patronagem

 

      «A Câmara de Estremoz revela, na mesma nota, que está em exposição “uma variedade imensa de padronagem de mosaico hidráulico, distribuído pelos espaços exteriores, demonstrando a riqueza desta expressão artística em composições contemporâneas monumentais”» («Museu Berardo Estremoz abre para mostrar “800 anos de história do azulejo”», Rosário Silva, Rádio Renascença, 16.07.2020, 17h11).

      A propósito: não se devia dicionarizar o adjectivo cimentoso? E ao mosaico hidráulico, deixamo-lo por aí sem o acolher nos dicionários?

 

[Texto 13 750]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «ibero-tropicalismo»

Isto é connosco

 

      «É também pelo valor histórico da América Latina, que lembrou a Gilberto, sem que o fim da vida lhe permitisse, escrever sobre o iberotropicalismo: e sobretudo pelo interesse e pelo dever português no que respeita ao Atlântico Sul, não apenas no interesse nacional, mas também na parte dessa intervenção que articula parte significativa do globalismo, e pela importância evidente dos valores que chamam a nossa Marinha em relação ao Atlântico Sul, cujo risco crescerá se continuar a ser negativa a utopia da ONU» («Sem bússola», Adriano Moreira, Diário de Notícias, 30.05.2020, p. 19).

 

[Texto 13 749]

Helder Guégués às 09:30 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «euromundismo | euromundista»

Uma lição

 

    «No século XX, os acontecimentos multiplicaram as interdependências progressivamente conflituosas, com factos que identificaram o terrorismo, crescendo o despertar do Médio Oriente, onde o mundo árabe agitava o futuro. A União Europeia, que na sequência da Guerra de 1939-1945 abandonou o Império Euromundista, obrigada a avaliar tempos que, como foi dito, poderiam ser de désélargir, tendo inesperadamente como exemplo o Brexit, ao qual a oposição mais confiável seria a do affectio societatis» («Sem bússola», Adriano Moreira, Diário de Notícias, 30.05.2020, p. 19). «Deve ter sido aí por 1964, 65. O Supico Pinto convidou-me para ser embaixador em Roma e eu disse-lhe ‘não sei latim suficiente’ [risos]. Eu só fui para aquela função porque achei que os interesses do país exigiam isso. Em todo o caso, há uma coisa que gosto de sublinhar, de todos os países que pertenciam ao euromundismo político colonial, o único que conseguiu uma união do tipo CPLP foi Portugal. A França não conseguiu e teve um projeto do De Gaulle, que era a Euráfrica. Esse projeto falhou. De Gaulle teve um grande desgosto, a Guiné votou contra e o Diabo a quatro. O general também era teimoso [afirma Adriano Moreira, em entrevista]» («‘Aquilo que acabou não foi o império português. Foi o império euromundista’», Sol, 26.03.2018).

 

[Texto 13 748]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «pirolítico»

Não é uma limpeza

 

      No Minuto Verde, da Quercus, aconselhava-se a escolher fornos com limpeza hidrolítica, em vez de fornos com autolimpeza pirolítica. Estranhamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe hidrolítico, mas não pirolítico. Enfim, isto é interminável.

 

 [Texto 13 747]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «monção | cacimbo»

São estações

 

      «Cerca de quatro milhões de pessoas estão a ser afetadas por inundações provocadas pelas monções no sul da Ásia, que já cobriram com água um terço do território do Bangladesh, anunciaram esta terça-feira as autoridades no local. [...] A grande monção de junho a setembro é crucial para a vida e agricultura no subcontinente indiano, mas a cada ano causa destruições importantes e faz um grande número de vítimas nesta região do mundo, que abriga um quinto da humanidade» («Um terço do Bangladesh está inundado devido às monções», TSF, 14.07.2020, 20h16). Ou seja, monção é também uma estação — e a Porto Editora não o diz. E não se passará o mesmo com cacimbo, que até por isso merece a maiúscula inicial na imprensa angolana? «O Cacimbo começou hoje oficialmente, di-lo o calendário, a lembrar aos luandenses, na maioria, mais preocupada com o recolhimento físico, das poucas armas de que dispõe para evitar o coronavírus, do que com datas definidoras de mudanças climáticas» («Aproveitar o Cacimbo», Luciano Rocha, Jornal de Angola, 15.05.2020, p. 4).

      Mas não é o único problema com o vocábulo monção no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pois ainda lhe falta outra acepção. «O abastecimento das minas se deu principalmente através das monções. As monções eram expedições que partiam da capitania de São Paulo, trazendo às minas de Cuiabá vários produtos, como alimentos, remédios, mercadorias de luxo, ferramentas de trabalho, escravos, dentre outros» (História de Mato Grosso, Else Dias de Araújo Cavalcante. Cuiabá: Carlini & Caniato Editorial, 2007, p. 17).

 

 [Texto 13 746]

Helder Guégués às 08:45 | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «rabão»

Ainda no Douro

 

      Com muitas semelhanças com o rabelo (e também se devia registar que havia barcos matrizes e barcos trafegueiros), e também do Douro, é a embarcação chamada rabão, que era o barco utilizado para transportar o carvão das minas para o Porto e outros destinos. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só isto: «regionalismo barco do Douro, mais pequeno que o rabelo». Também não percebo porque tem o rótulo de regionalismo quando o termo «rabelo» o não tem.

 

[Texto 13 797]

Helder Guégués às 08:30 | favorito
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Léxico: «internalizar | internalização»

Eu não digo?

 

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se acolhe o verbo, não acolhe o substantivo, e vice-versa. Costuma ser assim, mas no caso em apreço é pior: só regista internalização na acepção da psicanálise, não da economia. «Se a União Europeia quiser provar que é séria a sua aposta num pacto ecológico, que inclui retirar os privilégios à aviação civil, então é inevitável que as ajudas de Estado impliquem nacionalizações, ou entradas substanciais no capital das companhias, com uma ativa determinação de estratégias que reduzam as frotas e internalizem os danos ambientais nos preços, também em harmonia com a política europeia de descarbonização da economia» («Olhar em frente», Viriato Soromenho-Marques, Diário de Notícias, 30.05.2020, p. 18).

 

[Texto 13 745]

Helder Guégués às 08:30 | ver comentários (2) | favorito
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Barém, e por isso baremita

Aprendam com a Apple

 

      À primeira vista, a versão 6.2.8 do watchOS interessa mais aos baremitas com o relógio da Apple. Vendo bem, porém, interessa também aos portugueses que insistem em usar grafias alienígenas: «A aplicação ECG no Apple Watch Series 4 ou posterior passa a estar disponível no Barém, no Brasil e na África do Sul.»

      E até com ponto final! Isto já é um luxo — ia escrever «perluxuoso», mas a Porto Editora não autoriza —, pois até seguidores deste blogue escrevem comentários só com minúsculas e sem ponto final.

 

[Texto 13 744]

Helder Guégués às 08:15 | ver comentários (1) | favorito
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Jul 20

De novo: «mandado | mandato»

Eles dizem que sabem

 

      «Os deputados municipais do PSD em Lisboa defendem o uso obrigatório de máscaras em qualquer espaço público, interior ou exterior, propondo que a autarquia avance com um mandato. “Recomendações e meias medidas não estão a funcionar”, alegam» («PSD quer máscaras na rua», Público, 17.07.2020, p. 13). Mas que mandato? No editorial, o mesmo: «Rio concorda com Costa que a resposta à pandemia “não é momento” para avaliar a democraticidade da União Europeia; o PSD defende um mandato municipal para obrigar ao uso de máscara nas ruas de Lisboa, a ADSE pagou por um tratamento enganador para a covid-19 e a PJ deteve cinco pessoas por burla qualicada; e o coordenador do combate ao novo coronavírus no Norte do país, o secretário de Estado da Mobilidade, não se apercebeu da concentração despreocupada dos adeptos do FC Porto nas ruas da cidade» («A covid fez do mundo uma bizarria», Amílcar Correia, Público, 17.07.2020, p. 6). Na véspera, num artigo de Maria Lopes, o mesmo. No Observador também ninguém teve mais cabeça para pensar. Nem todos, porém, abdicaram de pensar: «A bancada do PSD da Assembleia Municipal de Lisboa defendeu, esta quinta-feira, o uso obrigatório de máscaras na rua e propõe que o Executivo avance com um mandado municipal nesse sentido» («Assembleia Municipal de Lisboa. PSD defende uso obrigatório da [sic] máscaras na rua», Sol, 16.07.2020).

      Bem ou mal definido que esteja nos nossos dicionários, só pode ser mandado: «DIREITO determinação escrita emanada de autoridade judicial ou administrativa» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

 

[Texto 13 743]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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