21
Jul 20

Léxico: «pilonidal | internadegueiro»

Um caso clínico

 

      «Os madeirenses que sofrem de doença pilonidal têm agora ao seu dispôr [sic] um tratamento cirúrgico minimamente invasivo com recurso a laser» («Cirurgia com recurso a laser trata doença pilonidal», Ana Luísa Correia, Diário de Notícias da Madeira, 13.06.2020, p. 6).

      Nada bonito, ali na área do sulco internadegueiro, e deve ser doloroso... Vejam no Google. Não, não vejam! Nos nossos dicionários, nem pilonidal nem internadegueiro, os falantes, esses grandessíssimos ociosos, que se desenrasquem. E é assim, dicionários fora dos dicionários.

 

[Texto 13 760]

Helder Guégués às 10:15 | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «escravagista»

Foge-vos a boca para a verdade

 

      «Durante a travessia do Atlântico, que os escravagistas europeus designavam a “Middle Passage” (a Passagem do Meio), era normal ocorrer [sic] 20 a 30 % de mortes» (O Porquê das Guerras Africanas: a luta contra o colonialismo e o apartheid, Samuel de Paula. Rio de Janeiro: Editora Paralelo, 1974, p. 38).

      O fiável VOLP da Academia Brasileira de Letras regista escravista, esclavagista e escravagista. A Porto Editora não regista este último e, contudo, usa-o num texto de apoio sobre a Nigéria. Bem sabemos que nada disto mata, mas tudo junto faz muita mossa.

 

[Texto 13 759]

Helder Guégués às 10:00 | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «quermes»

Nem insecto nem corante

 

      «O que elas mais estão a comer, explica Júlio Ricardo, um dos fundadores da cooperativa, é Quercus coccifera, arbusto de folha persistente e verde o ano inteiro, também conhecido por quermes ou carrasco. É uma das espécies dominantes na serra dos Candeeiros e, grande coincidência, as cabras serranas são as únicas que lhe chamam iguaria» («Pastores por um dia na serra dos Candeeiros», Luís Maio, «Fugas»/Público, 11.07.2020, p. 9).

 

[Texto 13 758]

Helder Guégués às 09:45 | favorito
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Léxico: «trapilho»

Não é este

 

      «Para uma das fundadoras da Companhia das Agulhas, com loja aberta na Rua Cardeal Mercier, em Lisboa — onde também vendem a matéria-prima, como cordão de algodão (€0,30 a €0,50 por metro), juta e trapilho de várias cores, tudo feito em Portugal —, esta é uma técnica bastante mais fácil do que a costura, o tricô ou o croché» («Entrelaçados», Sónia Calheiros, Visão, 19.07.2018, p. 95).

      O dicionário da Porto Editora regista trapilho, meu Deus! Ah, mas não é este: «trapo pequeno». Um trapo pequeno, mero diminutivo, mereceu ser dicionarizado, tesourinho, estranhamente, não. Aliás, anedoticamente, até se diz no verbete que é o «diminutivo de trapo».

 

[Texto 13 757]

Helder Guégués às 09:30 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «micromacramé»

Isso, mas mais pequeno

 

      «O micromacramé é um tipo de macramé (técnica de tecelagem manual que consiste em nós dados em fios utilizando apenas as mãos) que utiliza fios de menor diâmetro, permitindo criar peças mais pequenas e com maior detalhe» («Entrelaçados», Sónia Calheiros, Visão, 19.07.2018, p. 94).

 

[Texto 13 756]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «matraz»

E Erlenmeyer?

 

      No domingo, a palavra do dia na Infopédia foi matraz: «vaso de vidro, de boca estreita e fundo largo e chato, com forma aproximadamente cónica ou esférica, usado para operações químicas». Não tem também a designação de balão de Erlenmeyer? Então, isto deve constar no verbete. Leio no portal da Secretaria da Educação do Paraná, para não ir mais longe: «O balão de Erlenmeyer é um frasco em balão, usado como recipiente no laboratório, inventado pelo químico alemão Emil Erlenmeyer. Feito de material de vidro, plástico, policarbonato transparente ou polipropileno transparente, é ideal para armazenar e misturar produtos e soluções, cultivo de organismos e tecidos e predominantemente usado em titulações.»

      Há, como habitualmente, muito por onde melhorar, e também não estaria mal que se indicasse o plural, matrazes.

 

[Texto 13 755]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «carmínico»

Um ácido

 

      «Grande parte das cores antigas usava ingredientes naturais como o carvão vegetal, minérios inofensivos ou produtos de origem animal como o leite coalhado ou o ácido carmínico vermelho que é produzido pelas cochonilhas, pequenos insetos das Américas» («O português que recria as cores perdidas do passado», Paulo Anunciação, «Revista E»/Expresso, 20.06.2020, p. 48).

 

[Texto 13 754]

Helder Guégués às 08:45 | ver comentários (1) | favorito
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Salinas e marinhas

O rigor terminológico

 

      «Nas visitas guiadas, Alberto Chipelo, 58 anos, é um defensor do rigor terminológico. “Aqui não são salinas, são marinhas, porque há um contacto direto com o mar”, esclarece. “Este puzzle forma, no seu conjunto, o mandamento, e, se não existisse, nunca chegávamos a ter sal”, diz. A água da ria tem um caminho a fazer entre compartimentos retangulares, com nomes como algibés, caldeiros, talhas e cabeceiras, até chegar aos da cristalização do sal – os meios de cima e os meios de baixo –, onde se rê (rapa) o “ouro branco” (como era conhecido o sal no tempo dos Fenícios), juntando-o em cones» («O sabor do mar», Joana Loureiro e Susana Lopes Faustino, Visão, 19.07.2018, p. 98).

      Tudo isto (para já, que outros virão) e ainda sobrecabeceira e defensão, relacionado com as salinas/marinhas (termos também mal definidos), não vamos encontrar no dicionário da Porto Editora.

 

 [Texto 13 753]

Helder Guégués às 08:30 | ver comentários (6) | favorito
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Léxico: «rapação | carrego»

Acto ou efeito

 

      «O festival tem a duração de um dia, e inclui atividades como a rapação do sal e o seu carrego num catraio, embarcação tradicional do Tejo (esta última parte é uma recriação histórica), observação de aves, passeios pelos trilhos (são dois, um com oito quilómetros e outro com quase cinco), apresentações e conversas, e ainda a inauguração da exposição Biodiversidade: Uma Ferramenta Pedagógica nas Salinas do Samouco, que continuará patente na Sala de Anilhagem, num dos edifícios da propriedade» («O sabor do mar», Joana Loureiro e Susana Lopes Faustino, Visão, 19.07.2018, p. 101).

      No dicionário da Porto Editora, não vamos encontrar rapação nem este carrego, acto ou efeito de carregar.

 

[Texto 13 752]

Helder Guégués às 08:15 | ver comentários (2) | favorito
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21
Jul 20

Léxico: «chanfro»

Sem remissão

 

      «Afagava-o no pescoço e passava-lhe a concha da mão direita pelo chanfro. Ibrahim abanava a cabeça e o corpo, sacudia os arreios e fazia ruído com a barbela» (O Mundo do Toureio na Literatura de Língua Portuguesa, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Portugália Editora, 1966, p. 212).

      Não, não está nesta acepção no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Neste sentido, é uma região ímpar, situada na face anterior da cabeça do cavalo, que se estende da fronte até às ventas. Aliás, quando for registada neste dicionário, não se pode simplesmente remeter, como faz agora, de chanfro para chanfradura.

 

[Texto 13 751]

Helder Guégués às 08:00 | ver comentários (1) | favorito
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