23
Jul 20

Menos vago

Que imprecisão...

 

      No programa Radicais Livres, na Antena 1, estavam ontem a falar de Amália Rodrigues. Inevitavelmente, Alain Oulman veio à baila. Na Infopédia, sobre Alain Oulman, blá-blá-blá e isto: «Foi assim criado num ambiente conservador, tendo frequentado o liceu francês.» Seria então «um liceu francês». Mas isso seria, a meu ver, estúpido tributo à detestável vagueza. Não: Oulman com certeza frequentou — havia outro? — o Liceu Francês Charles Lepierre, Lycée Français Charles Lepierre. À bientôt!

 

[Texto 13 782]

Helder Guégués às 11:00 | ver comentários (1) | favorito

O nome dos partidos: um problema

Chega! Ergue-te!

 

      «O Partido Nacional Renovador (PNR) alterou o nome para “Ergue-te”, justificando a mudança com a necessidade de “refrescar a imagem” ao fim de 20 anos, anunciou esta quarta-feira o partido» («PNR muda nome para “Ergue-te” para “refrescar imagem”», Observador, 22.07.2020, 21h08).

      Depois do Chega, ficou aberto o caminho para o invulgar na designação dos novos partidos, ou dos menos novos, mas que querem refrescar a imagem. (Mas atenção, que o refrescamento pode chegar à constipação, ou até à pneumonia, e perecerem.) Estes nomes trazem sempre vários problemas, e um deles é o seguinte: antes, os que pertenciam ao PNR eram nacionais-renovadores — e agora? Erguedores? Erguistas? Erguetistas? De qualquer maneira, os nacionais-renovadores não chegaram à consagração de estar nos dicionários. Estão, vá lá, no de siglas da Porto Editora.

 

[Texto 13 781]

Helder Guégués às 10:45 | favorito
Etiquetas:

A caixa de Pandora deturpada

Ide à Casa Sonotone

 

      Isto são erros só para correspondentes das nossas televisões e rádios: em 2008, Daniel Ribeiro, correspondente da Antena 1 em França, falava, a propósito de uma greve, de se ter aberto a «caixa de Pandôrra»; ontem, foi a vez de Henrique Cymerman, o correspondente da SIC em Israel, que se referiu à «caixa de Pandôra». Atenção: não têm de deixar de ser correspondentes, apenas têm de ser mais atentos, conhecer melhor a língua e a cultura.

 

[Texto 13 780]

Helder Guégués às 10:30 | favorito
Etiquetas: ,

Língua e ciência

O caminho

 

      «Do ponto de vista científico, Portugal desenvolveu-se enormemente nas três últimas décadas, ou seja, os portugueses passaram a produzir ciência nas mais diferentes áreas. Hoje já não surpreende ver equipas e cientistas portugueses envolvidos ou a liderar grandes projetos internacionais, ou premiados pela excelência do seu trabalho. Ora, se uma língua reflete e se adapta à sociedade que a fala, seria de esperar que este desenvolvimento científico se observasse na mesma proporção nos registos especializados da língua e em particular das suas terminologias científicas e técnicas. Porém, a proporcionalidade entre o desenvolvimento da produção científica e a língua portuguesa não tem ocorrido» («O inglês, o português e a ciência», Margarita Correia, Diário de Notícias, 20.07.2020, 20h47).

      Vamos, pois, Porto Editora, queridos leitores, dar o nosso pequenino contributo, não fazendo ciência (falo por mim), mas registando TUDO o que se vai mostrando solidificado por um uso que se mostre suficiente. Não podemos é exigir que os tempos sejam os de antigamente, agora o mundo anda incomparavelmente mais depressa.

 

[Texto 13 779]

Helder Guégués às 10:15 | favorito

Como se escreve nos jornais

Não digam isso (porra!)

 

      «A China anunciou esta quarta-feira que foi forçada pelos Estados Unidos a encerrar o seu consulado na cidade norte-americana de Houston, numa medida descrita por Pequim como uma “provocação”. Porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, afirma que o consulado foi fechado “para proteger a propriedade intelectual e as informações privadas dos norte-americanos”. [...] O país chinês advertiu que vai haver “retaliação”. “A China condena veementemente esta ação ultrajante e injustificada”, disse o porta-voz da diplomacia chinesa Wang Wenbin, em conferência de imprensa» («EUA encerram consulado da China para proteger propriedade intelectual e informações privadas», Observador, 22.07.2020, 10h05).

      Apetece dar um piparote nestes crânios e perguntar se mora lá alguém. Epígonos do Correio da Manhã.

 

[Texto 13 778]

Helder Guégués às 10:00 | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «aerador | arejador | difusor | perlator»

Por dois euros

 

      Em princípio, saem de uma drogaria ou loja de ferragens com um aerador, perlator, difusor ou arejador por menos de 2 euros. Não é que seja acessório que se estrague muito, mas por vezes temos de comprar um novo. Se quisermos, podemos adquirir igualmente uma chave para apertar o aerador, perlator, difusor ou arejador. Se quisermos gastar dinheiro, queria eu dizer, porque eu aperto-os à mão. Estragam-se pouco, disse, e assim é: só com águas mais calcárias se entopem com mais frequência e os resíduos saem mais dificilmente. Por isso, ainda podemos, em vez de comprar um perlator novo, adquirir apenas o filtro que está no interior, e nesse caso não gastaremos mais de 70 cêntimos. Entretanto, salvo em alguns dicionários bilingues, nenhum destes quatro termos está nos nossos dicionários. Há-de haver largas centenas, senão milhares, de termos nestas circunstâncias: usados no dia-a-dia, mas ausentes dos dicionários.

 

[Texto 13 777]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «médio-defensivo | médio-ofensivo»

Nem o futebol escapa

 

      «O Levante anunciou, esta quarta-feira, Mickael Malsa como a primeira contratação do clube para época 2020/21. O médio-defensivo, de 24 anos, chega a custo zero do Mirandés, 11.º classificado da segunda liga espanhola» («Levante contrata médio-defensivo do Mirandés», Rádio Renascença, 22.07.2020, 11h42).

      Também tinha uma abonação para médio-ofensivo do Jornal de Angola, mas lamentavelmente perdi-a aqui nas limpezas. (Desventuras ou transtornos de um obsessivo-compulsivo em recuperação.)

 

[Texto 13 776]

Helder Guégués às 09:30 | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «caiena»

Pontas soltas

 

      Lê-se na Infopédia sobre Caiena: «Fundada em 1604, de 1852 a 1946 foi colónia penal francesa. Na sua área há culturas de cana-de-açúcar, café e cacau. Por represália, esteve sob o domínio português de janeiro de 1809 a novembro de 1817, tendo sido seu governador o brasileiro J. Severiano Maciel da Costa. Desta ocupação resultou a introdução no Brasil de certas plantas e árvores ali aclimatadas e depois difundidas na região tropical brasileira. Entre elas contam-se a cana-de-açúcar, conhecida por caiena, e a fruta-pão.»

      Ah sim? Então só é pena no dicionário geral não haver nenhuma caiena, nome comum. Outro reparo: têm de assentar de vez se querem escrever SEMPRE Guiana Francesa ou Guiana francesa.

 

[Texto 13 775]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «aspersor»

Acepção geral, precisa-se

 

      «É testado na próxima sexta-feira, dia 24 de julho, pelas 11 horas, na aldeia de Travessas, concelho Arganil. Trata-se de um sistema de proteção contra incêndios desenvolvido por uma equipa da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), através da Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI) e do Instituto de Sistemas e Robótica (ISR). De acordo com os investigadores da FCTUC, o sistema baseia-se numa “linha de aspersores de água que podem ser acionados numa situação de incêndio proveniente do exterior e que ameace a povoação”» («Sistema tecnológico de proteção contra incêndios rurais é testado no concelho de Arganil», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 22.07.2020, 12h05).

      Não era preciso lermos isto para se impor a conclusão de que um aspersor não é somente, como se vê no dicionário da Porto Editora, o «aparelho que serve para regar automaticamente áreas verdes».

 

[Texto 13 774]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «azul-verditer»

Melhor será ter os dois

 

      «Quando Pedro da Costa Felgueiras trabalhou no projeto de restauração de Strawberry Hill House — entre 2011 e 2015, on and off, com pausas pelo caminho —, um dos pigmentos que ele mais usou foi o azul-verditer, sozinho ou misturado com cochonilha (para alcançar o chamado roxo ou púrpura cardinalícia)» («O português que recria as cores perdidas do passado», Paulo Anunciação, «Revista E»/Expresso, 20.06.2020, p. 50).

      No Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, encontramos verditer, «(pigmento) verde-montanha». Contudo, encontra-se o termo azul-verditer aqui e ali. É bem verdade que o dicionário geral acolhe verde-montanha, mas como a cor anda ali entre o azul e o verde, nada se perdia em registar também, ainda que com uma nota, azul-verditer.

 

[Texto 13 773]

Helder Guégués às 08:45 | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «traquibasalto»

Voltamos aos materiais de construção

 

      «Cantarias duras ou rijas – sendo o traquibasalto a pedra mais comum e utilizada na RAM [Região Autónoma da Madeira], «...apresentando uma textura uniforme de granularidade fina a média de cor cinzenta mais ou menos escura» (Gomes e Silva, 1997)» (Argamassas no Arquipélago da Madeira, Raul Manuel Costa Alves. Dissertação de mestrado. Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, 2016, p. 5).

 

[Texto 13 772]

Helder Guégués às 08:30 | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «quermes», de novo

É como se usa

 

      Propus a dicionarização de quermes para designar a Quercus coccifera, mas a Porto Editora não aceitou. Tem, mas isso só agora vi, carvalho-dos-quermes. Não sei, pois, se dicionarizou este agora ou se já o acolhia. De qualquer maneira, parece-me óbvio que simplesmente quermes para designar aquela espécie é comum. «Os Dórios designam esta árvore por azinheira. É mais frágil e menos compacta do que o quermes, mas mais dura e mais resistente do que o carvalho. Quando a madeira está descascada, tem uma cor mais clara do que a do quermes, mas mais avermelhada do que a do carvalho. As folhas parecem-se com as de ambos, mas são maiores se se comparar com o quermes, e mais pequenas em comparação com o carvalho. O fruto é, em tamanho, mais pequeno que o do quermes, mas semelhante às bolotas minúsculas; é mais doce do que o do quermes e mais ácido do que o do carvalho. Há quem chame ao fruto do quermes e da azinheira ‘glande’ e ao do carvalho ‘bolota’» (Teofrasto, História das Plantas. Tradução, introdução e anotação de Maria de Fátima Sousa e Silva e Jorge Paiva. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016, p. 157).

 

[Texto 13 771]

Helder Guégués às 08:15 | favorito
Etiquetas: ,
23
Jul 20

Léxico: «lampreiada | esmagada»

Como tantas outras

 

      «Numa das subidas dos dois ministros ao Norte (e palpita-me que precisamente nos finais de Março de 1914), o Dr. Oliveira convidou Manuel Monteiro para uma lampreiada na nobreza da sua casa» (Por Horas de Comidas e Bebidas, António Manuel Couto Viana. Lisboa: Nova Arrancada, 1996, p. 55). Como tantas outras: arrozada, caldeirada, esmagada, feijoada, fritada, massada, sardinhada, etc. Ah, sim, esmagada também não está nos dicionários.

 

[Texto 13 770]

Helder Guégués às 08:00 | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,