28
Jul 20

Léxico: «bem-pensância»

Mas pode usar-se

 

     À vontadinha: «Alexandre O’Neill, outro admirador confesso de Amália e um dos poetas por ela interpretados, fez um depoimento de claro apoio e de condenação aos reticentes e contestatários: “Isolar um génio na sua própria glória torna-lo prisioneiro da sua própria complexidade; matá-lo aos poucos no hospital dos gramáticos ou na sonolência das sessões solenes é prática das sociedades basbaques. A dor, a alegria, o enlevo amoroso, a consideração melancólica do irremediável destino de cada um de nós encontraram em Camões expressão universal. Ninguém tem o exclusivo desses sentimentos e estados de alma nem da sua expressão artística. Por isso eu acho ótimo o encontro de Camões-o-culto com Amália-a-fadista, para escândalo de certa bem-pensância e prazer dos que entendem que um poeta não é para sobreviver em pedra nem uma fadista em navalha de ponta e mola.”» («A voz de Camões», António Valdemar, «Revista E»/Expresso, 20.06.2020, pp. 38-39).

 

[Texto 13 809]

Helder Guégués às 16:00 | favorito
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Definição: «molinologia | molinológico»

Vêem-se por aí

 

      «Há moinhos de água centenários ao longo dos rios Antuã e Ul, uma paisagem digna de um romance bucólico — com o correr da água a colar-se aos ouvidos –, mas também o cheiro a pão acabado de fazer. No Parque Temático Molinológico, em Ul, facilmente se encontram senhoras cujo vício das mãos é há muito o amassar da massa. Em causa está sobretudo a produção do pão de Ul, fabricado nos fornos aquecidos a lenha, e da regueifa que, feita com a mesma massa do pão, apresenta uma forma circular e um palato doce» («Neste vale há cerveja artesanal e um hotel 100% sustentável», Ana Cristina Marques, Observador, 4.01.2016, 11h31).

 

[Texto 13 808]

Helder Guégués às 15:45 | ver comentários (2) | favorito
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Definição: «senzala | sanzala»

As semelhanças

 

      «“Vai mas é para a senzala [palavra do dialeto angolano quimbundo e que significa povoação, ligada à escravatura].” Terão sido estas as últimas palavras que Bruno Candé Marques, de 39 anos, ouviu este sábado antes de ser assassinado com quatro tiros de pistola, em Moscavide, Loures» («Ator executado a tiro após insulto racista em Moscavide», Inês Rodrigues, Miguel Curado e José Lúcio Duarte, Correio da Manhã, 26.07.2020, 7h56).

      Então isto não é confundir senzala com sanzala, com sentidos especializados conforme a variante? Veja-se no dicionário da Porto Editora. Contudo, salvo melhor opinião, o verbete mais claro é o do Aulete: «senzala, sanzala sf. 1. Bras. Conjunto dos alojamentos destinados aos escravos, na época do Brasil colonial e imperial. [Nesta acp. mais us. senzala]; 2. Angol. Aldeia da África. [Nesta acp. mais us. sanzala.]; 3. Agrupamento de moradias para empregados na roça, nas ilhas de São Tomé e Príncipe. [Nesta acp. mais us. sanzala.]». 

 

[Texto 13 807]

Helder Guégués às 15:30 | favorito
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Tradução: «calanque»

As semelhanças

 

      No domingo, vi na RTP2, pela primeira vez, um episódio da série A Estagiária, e gostei muito, devo dizer. Não pude deixar de reparar que a tradutora, Luísa Rodrigues, optou por deixar no original, em três ou quatro ocorrências, o termo francês calanque. Fez bem ou fez mal? No Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, por exemplo, diz-se que se deve traduzir por «angra» ou «calheta».

      Comecemos por ver o que se diz no Trèsor: «[En Méditerranée] Crique ou petite baie entourée de rochers». Então, não é uma baía qualquer. Não se podia aplicar aqui à baía de Cascais, por exemplo. Mas vejam a semelhança entre calanque (ou calangue) e calheta. Esta é uma pequena cala — que também está presente em calanque. «Término regional usado en Provence (Francia), para designar anfractuosidades de la costa corsa, que semeja un litoral de rías. Estas anfractuosidades forman verdaderos cañones en terrenos calizos invadidos por el mar» (Vocabulario Geomorfológico, Consuelo Soto Mora. Instituto de Geografía, Universidad Nacional Autónoma de México, 1965, p. 35).

 

[Texto 13 806]

Helder Guégués às 15:15 | ver comentários (1) | favorito
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Definição: «abrunheiro-bravo»

Pode dizer-se mais e melhor

 

      Abrunheiro-bravo está assim definido no dicionário da Porto Editora: «BOTÂNICA (Prunus spinosa) arbusto espinhoso, afim do abrunheiro, mas produtor de frutos erectos e muito azedos». Está bem, é um dicionário geral, mas pode dizer-se muito mais.

      Num Guia de Orientação para a Intervenção em Linhas de Água, publicado em 2013 pelo Ministério do Ambiente, começa por se indicar a subespécie (institioides), para passar para a descrição: «Árvore caducifólia, até 6 m de altura, bastante ramificado, espinhoso e com ritidoma escuro. Folhas simples ovadas, com margem serrada e pecíolo curto. Flores brancas, pequenas e numerosas e aparecem antes das folhas. Fruto drupa azul-escura e é comestível. Habitat: Ocorre na orla de bosques, sebes de campos agrícolas, bermas de caminhos. Prefere substratos calcários. Curiosidades: Utilizada como ornamental (parques, jardins); em algumas localidades espanholas, empregam-se os frutos (abrunhos) para preparação de bebidas alcoólicas; frutos contêm taninos açucarados e com vitamina C; casca triturada com alúmen proporciona um colorante negro, que se utiliza na fabricação de tinta; casca, folhas, flores e frutos com propriedades medicinais (adstringente, depurativo, diurético, laxativo, etc.); subespécie endémica em solos calcários.»

 

[Texto 13 805]

Helder Guégués às 15:00 | ver comentários (1) | favorito
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28
Jul 20

Léxico: «tártaro | zabaione»

Como se não existissem

 

      «A ementa de almoço e jantar vai continuar a incluir os best-sellers de sempre: patanisca de nada [sic] com salmão fumado e nata azeda, cocotte de queijo de cabra, bochechas de porco preto, perdiz estufada, alheira com ovo da Galiza ou tártaro de salmão com zabaione de soja» («Roteiro para ter as férias que merece em segurança», Ana Taborda, Sábado, 7.05.2020, p. 38). «Os tártaros, que podem ser de salmão (11€), de atum (13€) ou de robalo (13€), são trabalhados com detalhe: no de atum dos Açores, o peixe é marinado em óleo de sésamo, coentros e raspa de lima e leva óleo de manjericão, puré de abacate com maionese e crocante de sésamo, esponja de tinta de choco e rebentos de shiso, e o de robalo, um escabeche de beterraba, uma pasta de folha de wasabi e um crocante de pele de robalo» («MISC, uma miscelânea boa, com janela para a rua», Alexandra Prado Coelho, «Fugas»/Público, 11.07.2020, p. 15).

 

 [Texto 13 804]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (3) | favorito
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