29
Jul 20

Léxico: «leucótomo | transorbital»

Bruscamente

 

      Ontem fui ver a peça de teatro Bruscamente, no Verão Passado, de Tennessee Williams, em cena no Teatro Experimental de Cascais. (Bárbara Branco, no papel de Catherine Holly, já é, aos 20 anos, uma actriz, mais do que prometedora, seguríssima.) Violet Venable quer que o Dr. John Cukrowicz pratique uma lobotomia na sobrinha, Catherine Holly, única forma de a verdade nua e crua sobre a morte, e a vida, do seu filho, o constantemente referido mas nunca visto, porque morto, Sebastian Venable, não subsistir.

      Não vou contar mais. Quero é perguntar à Porto Editora se as palavras leucótomo e transorbital não deviam estar no dicionário geral, assim à laia de homenagem a Egas Moniz. Neste texto, há uma boa descrição do leucótomo, que deve servir para redigir uma definição minimamente útil. Ah, já me esquecia: Tennessee Williams (1911-83) sabia bem quão terríveis podem ser os efeitos da lobotomia, porque viu a irmã Rose ser submetida a essa operação, que a deixou inválida para sempre.

 

[Texto 13 817]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «epifânico»

E o adjectivo, Porto Editora?

 

      «Babo é o líder da insurreição que eclode a bordo do San Dominick, em contexto de estado de excepção, representa a realização epifânica da soberania, tal como Toussaint Louverture na revolução do Haiti» («Carl Schmitt, o estado de excepção e a literatura», Luís Kandjimbo, Jornal de Angola, 14.06.2020, p. 15, itálico meu).

 

[Texto 13 816]

Helder Guégués às 09:30 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «pardela-do-atlântico | estapagado | patagarro | frulho | pintainho»

Nem tão-pouco estas

 

      «O objetivo é fazer um ponto de situação das populações de roque-de-castro, painho-de-monteiro (endémico dos Açores), pardela-do-atlântico (conhecida como estapagado nos Açores e patagarro na Madeira) e frulho (ou pintainho, na Madeira)» («Ciência conta aves marinhas pelo som», Vanessa Fidalgo, «Sexta»/Correio da Manhã, 26.06-2.07.2020, p. 44).

 

[Texto 13 815]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (5) | favorito
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Léxico: «jusfilósofo»

Nem esta

 

      «Ao trazer o exemplo, Carl Schmitt, eminente jusfilósofo, revela a sua incompetência em matéria de hermenêutica literária» («Carl Schmitt, o estado de excepção e a literatura», Luís Kandjimbo, Jornal de Angola, 14.06.2020, p. 15).

 

[Texto 13 814]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «sidraria»

Cider factory

 

      Não está no dicionário da Porto Editora?! Digam-me que é mentira. «É um setor em que o Governo Regional tem vindo a investir fortemente: a produção de sidra e vinagre de sidra e de maçã, tendo em marcha a instalação de uma rede de sidrarias» («Plano de ação para o pêro, pêra e maçã», David Spranger, Jornal da Madeira, 13.06.2020, p. 5).

 

[Texto 13 813]

Helder Guégués às 08:45 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «morenagem»

E que bela palavra

 

      «Foi por ser negro. Foi por ter um cão. Foi por ser negro e ter um cão. Foi pura maldade ou maldade racista. A maldade racista é apenas mais estúpida, mas tão cruel e má como a maldade em geral. O assassino jura que não é racista. Pouco importa. Os insultos eram. Mas a verdade é que depende da rua onde estamos. Podemos ouvir “preto de m... ou branco de m...”. Depende da cor de quem o diz e da zona onde estamos. Portugal é racista? É. Mas não é um racismo a preto e branco. O pior tem a ver com a morenagem» («Há racismo branco, negro e entre a morenagem. E até pode matar, por causa de um cão», Graça Franco, Rádio Renascença, 27.07.2020).

      Há palavras assim, que existem, mas que todos os lexicógrafos, numa espécie de cartel, fingem que não existem. Bem pode ser usada pelos falantes comuns, escrita por jornalistas, lucubrada por poetas, nada. Cid Seixas (n. 1948): «Cidade da Morenagem/ do Encoberto e Revelado:/ o mundo do desencanto/ se completa no Encantado,/ porque o falso é o verdadeiro/ quando visto do outro lado».

 

[Texto 13 812]

Helder Guégués às 08:30 | favorito
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Léxico: «desumanizante»

Há aí um dicionário que

 

      «Certamente são muitos, tanto no mundo rico, desenvolvido, como no mundo periférico e dependente os que constatam o quanto de desumanizante levou consigo a aplicação de uma racionalidade instrumental absolutizada» (A Dimensão Política da Mulher, Maria Conceição Corrêa-Pinto. Lisboa: Edições Paulinas, 1992, p. 7).

 

[Texto 13 811]

Helder Guégués às 08:15 | ver comentários (2) | favorito
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29
Jul 20

Léxico: «tosta»

Não tens esta

 

      «Quando o consumidor quer concentração, já andam os enólogos e críticos a pensar em menor graduação, menos cor e mais leveza; quando quem compra gosta de rosés com boa cor, já quem os faz anda a produzir vinhos cada vez mais descorados e de baixa graduação; e quando o consumidor já se habituou e gosta dos brancos com madeira nova, quem produz já optou pelas barricas usadas em detrimento das novas, já eliminou a tosta forte, já se deixou das meias barricas e optou por volumes maiores» («Nós e os outros», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 13.06.2020, p. 84).

 

[Texto 13 810]

Helder Guégués às 08:00 | ver comentários (2) | favorito
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