30
Jul 20

Léxico: «favado»

Estas ausências...

 

      «Um copo de espumante local, zona de estar, garrafeira exposta a cativar o olhar, e a mesa no piso superior está preparada. Começou-se com um “Couvert” (€2) de pão denso, húmido e favado — feito na casa — azeite de Celorico da Beira, com acidez elegante sem perder fulgor verdeal, e azeitonas cordovil, miudinhas e saborosas» («Da essência dos saberes», Fortunato da Câmara, «Revista E»/Expresso, 14.03.2020, p. 92).

      Toda a vida ouvi o termo, referido, em especial, a bolos, e os dicionários ignoram-no completamente. Alguns registam, isso sim, uma acepção apenas brasileira, que, para mim, não me aquenta, nem me arrefenta, mas acolham lá esta.

 

[Texto 13 825]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «defensoria | defensor público»

Voltemos ao Brasil

 

      «Defensoria Pública da União (DPU) entrou com ação civil pública para que a identificação dos pacientes contaminados pelo novo coronavírus seja feita a partir da cor da pele e do território em que estão localizados. Se acatada, a medida valerá em todo Brasil. Segundo o órgão, há precariedade de informações sobre o impacto da doença nas favelas. O objetivo é criar dados que ajudem a elaborar políticas públicas» («Identificação obrigatória», Renan Schuindt, Dia, 24.05.2020, p. 6). «Ocupação de defensor público», define-a o Dicionário Michaelis, como que a demonstrar que há muitos dicionários que precisam de ser revistos e melhorados.

 

[Texto 13 824]

Helder Guégués às 09:30 | favorito
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Léxico: «fusional»

Tem tratamento

 

      «Sabemos que razão e emoção, andam sempre de mãos dadas, em qualquer relação, mas, nos casais, esta relação ainda é mais fusional» («A retórica nos casais», José Gameiro, «Revista E»/Expresso, 14.03.2020, p. 96). Nem os psiquiatras entendem as regras simples (a maioria) da gramática. Bem, mas quanto a fusional, está ausente do dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 13 823]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «subdotar | subdotação»

E estes

 

      «A nossa medicina está entre as melhores do mundo, mas há várias determinantes que contribuem para os resultados menos bons: a sobrelotação e a subdotação dos serviços e o comportamento dos próprios profissionais, que se inebriaram com a antibioterapia, achando que as infeções deixariam de ser um problema» [afirma Lúcio Meneses de Almeida, Presidente da Associação Portuguesa de Infeção Hospitalar]» («Infeções: “É tempo de retomar hábitos que se perderam. Lavar as mãos é importante”», Vera Lúcia Arreigoso, Expresso, 14.04.2019).

 

[Texto 13 822]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «estigmatizante»

E temos este

 

      «Uma petição online, que pretende reunir 7500 assinaturas, acusa a marca Lacasa de ter mantido uma imagem “estigmatizante para a população negra”, dado a “cor de pele associada ao chocolate” e os “lábios vermelhos totalmente desproporcionais” da mascote da marca Conguitos» («Conguitos: marca de chocolate pressionada a repensar imagem», Beatriz Cardoso Ribeiro, Público, 2.07.2020, 17h54).

 

[Texto 13 821]

Helder Guégués às 08:45 | ver comentários (1) | favorito

Definição: «colírio»

Fica provado que não

 

      «No Reino Unido, uma equipa de investigadores fez novos avanços na descoberta de um tratamento para as infeções mais graves que ultrapasse a resistência das bactérias aos antibióticos – um problema crescente no mundo atual. Está tudo num manuscrito medieval [Bald’s Leechbook], que tem descrita a receita de um remédio natural, que renovou as esperanças da comunidade científica. Conhecido como “Colírio de Bald” (“Bald’s eyesalve”, em inglês), o medicamento é feito a partir de sais de cebola, alho, vinho e bílis» («Remédio medieval pode ser a resposta às bactérias multirresistentes», Rádio Renascença, 29.07.2020, 8h24).

      Já que falam nisso, sim, queria que eyesalve, apesar de ser inglês antigo, estivesse nos nossos dicionários bilingues. Mas concentremo-nos por ora em colírio, que a Porto Editora define assim: «FARMÁCIA medicamento aplicado nas inflamações dos olhos e especialmente da conjuntiva ocular». A ideia que eu sempre tive é a de que o colírio é um medicamente líquido, o que vejo confirmado no Michaelis: «Medicamento que se pinga sobre o globo ocular, nas inflamações da conjuntiva ou demais problemas dos olhos.» E no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora: «Medicamento para tratar, por lavagem e desinfeção, as doenças dos olhos.» Primeira conclusão: deviam fundir as definições para aproveitar o melhor de cada e assim terem uma mais correcta definição no dicionário geral. Agora quanto a eyesalve, de novo: os dicionários de língua inglesa são unânimes em defini-lo como «ointment for the eye». Ou seja, pomada ou unguento. Segunda conclusão: a tradução está errada.

 

[Texto 13 820]

Helder Guégués às 08:30 | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «incantável»

Regressão

 

      «“Muito do reportório que gravou nos grandes discos é um reportório que se calhar era incantável em palco. É um reportório mais ligado à poesia, para se ouvir em casa. Até nisso ela foi muito inteligente em fazer discos, porque o ritmo do espetáculo é outra coisa”, conclui Frederico Santiago [responsável pelo tratamento e edição da obra integral de Amália na Valentim de Carvalho]» («Centenário de Amália Rodrigues. Novos discos para entender a “vedeta internacional sem manias”», Maria João Costa, Rádio Renascença, 23.07.2020, 6h20). «Queria pesquisar encantável, incansável, incaptável, incontável?» Não, Porto Editora, é mesmo incantável, que já andou nos nossos dicionários há dois séculos. Regressão.

 

[Texto 13 819]

Helder Guégués às 08:15 | ver comentários (2) | favorito
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30
Jul 20

«Bruscamente, no Verão Passado»

Uma nova tradução

 

      Antes, li o livro, uma edição da Editorial Presença de Bruscamente, no Verão Passado, publicada em 1964, com tradução de Rui Guedes da Silva. Tradução, diga-se, sem apuros formais que a recomendem e até com vários erros crassos de pontuação. Tal como tem soluções de tradução que não se podiam usar actualmente, mas isso não é — não era então — defeito. Curiosamente, na versão desta peça, da autoria de Graça P. Corrêa, dois desses problemas foram bem resolvidos. Quais? O leitor que descubra — lendo o livro e assistindo à peça. Devia, isso sim, publicar-se uma nova tradução, até porque este é teatro para ler.

 

[Texto 13 818]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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