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Linguagista

Léxico: «peniano»

Senhores extintos

 

      «E o que dizer das loções, das tesourinhas deprimentes, das escovas madrepérola, daquele cofiar metronómico, como se a douta pelugem fosse um enchimento peniano e a sua carícia o triunfo comunitário do onanismo?» («O moralista», Pedro Marta Santos, Sábado, 23-29.07.2020, p. 86).

      Para a Porto Editora, este é adjectivo que só cabe num dicionário médico. Os leitores dos classificados do Correio da Manhã é que vão ter dificuldades, coitados, quando lerem aqueles anúncios de «massagem peniana». Imagino que os potenciais interessados sejam idosos. Aliás, num dos anúncios, a anunciante, brasileira, dizia que atendia «senhores extintos». Exagero, ela queria dizer «senhores distintos», mas há notícia — ou será mito urbano? — de alguns que se extinguiram no acto. Por sorte, a certidão de óbito apenas indica a causa, nunca as circunstâncias.

 

[Texto 13 843]

Léxico: «buvete»

Um clássico das termas

 

      Fora dos dicionários. «Há uma visita obrigatória em Melgaço, as termas. O parque e os edifícios antigos são muito bonitos, mas a não perder mesmo é a sala do buvete da Fonte Principal, o ex-líbris das termas» (100 Lugares para Conhecer Portugal com as Suas Crianças, Paulo Nogueira. Alfragide: Oficina do Livro, 2019, p. 8). «BUVETE. Local, também chamado Copa, de uma estância termal, onde os aquistas procedem à ingestão de águas minero-medicinais. O vocábulo é a adaptação fonética do francês Buvette. Também se atribui esta designação ao professional encarregado de servir as águas em copos graduados» (Prontuário Turístico, Celestino Domingues. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2014, p. 36).

 

[Texto 13 841]

Léxico: «glaciólogo»

Falta sempre um

 

      «A estação meteorológica fazia parte de um esforço muito mais alargado, com muitos cientistas que iam estudar o monte Everest. Havia uma equipa de mapeamento, uma de geólogos, uma de glaciólogos, uma de biólogos e de meteorologistas [diz Tom Matthews, cientista especializado em alterações climáticas]» («“Os níveis de CO2 [sic] estão sempre a aumentar. É como abrir a torneira de uma banheira. Durante o confinamento, desacelerámos, mas continuamos a acumular água”», Nuno Aguiar, Visão, 23.07.2020, p. 11).

      Porto Editora, acho que te esqueceste de qualquer coisa.

 

[Texto 13 840]

Léxico: «alético»

Ficamos a perder

 

      «A necessidade e a contingência são modos da verdade; por isso, são denominadas “modalidades aléticas” (do termo grego para verdade, ἀλήθεια)» («Necessidade e contingência», Desidério Murcho, Estadão, 31.07.2020).

      Pára, pára! E agora, Porto Editora? Vamos ver se eu percebo: no dicionário com o acordo ortográfico, temos alético e aléctico. Do primeiro diz-se que é «1. relativo a alexia; 2. que sofre de alexia», que é a «incapacidade patológica de reconhecer as palavras escritas ou de ler; cegueira verbal; forma de agnosia visual». Já aléctico é o adjectivo «relativo a alexia». A mesma alexia. Onde está aqui a verdade? Não está. Na versão com o acordo ortográfico, como seria de esperar, só vamos encontrar aléctico. Vamos encontrar se estivermos atentos — o falante impreparado (a maioria) não vai encontrar nada, porque não vai pesquisar o termo com esta grafia. O Michaelis acolhe ambas as grafias, indica que são variantes e em alético diz: «FILOS Diz-se das modalidades lógicas, segundo as quais as proposições são consideradas não apenas verdadeiras ou falsas, mas também necessárias, contingentes, possíveis e impossíveis.» O VOLP da Academia Brasileira de Letras corrobora esta informação registando também as duas variantes.

      Sem bons dicionários, meus amigos, não vamos longe.

 

[Texto 13 839]

Léxico: «vitoriano»

Vitória, mas australiana

 

      «O objetivo de [Nikolai] Petrovsky é agora testar a vacina em idosos, num outro ensaio clínico. Para isso, ofereceu vacinas ao estado de Vitória (Victoria) e incentivou os familiares dos utentes dos lares e casas de repouso a inscrevê-los nos testes. [...] “Certamente, estamos muito abertos a conversar com o governo vitoriano sobre isso”, acrescentou, considerando que “traria benefícios, apenas num contexto de ensaio clínico”» («Covid-19. Empresa australiana quer lançar vacina ainda este ano», Marta Grosso, Rádio Renascença, 31.07.2020, 11h06).

      Essa explicação parentética, Marta Grosso, é para rir, com certeza. Vitoriano, raro que seja o seu uso, tem toda a legitimidade para ir para o respectivo verbete dos dicionários.

 

[Texto 13 838]

Léxico: «fotopletismografia» e família

Faltam pelo menos quatro

 

      O novo Galaxy Watch 3 apenas será lançado no próximo dia 5, mas fica já a saber, Porto Editora, que este relógio da Samsung vai ter um sensor de fotopletismografia com oito LED. «A palavra pesquisada não foi encontrada neste dicionário.» Pelo menos o VOLP da Academia Brasileira de Letras acolhe-o, embora se tenham esquecido de fotopletismógrafo, fotopletismográfico e fotopletismograma. Se formos agora, porque convém, para os vocábulos sem o elemento foto-, no dicionário geral da Porto Editora ainda falta um deles, pletismograma.

 

[Texto 13 837]