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Linguagista

Léxico: «teixial | lírio-do-gerês»

Ainda não estão dicionarizados

 

      «Porque aquelas montanhas de granito, com vales glaciares e florestas de carvalhos, teixiais (habitat que só existe de forma significativa ali e residualmente na Serra da Estrela), turfeiras e bosques ripícolas, matas e rios, plantas endémicas como o colorido lírio-do-gerês (Iris boissieri), uma diversidade de fauna que passa pelo lobo-ibérico, corços (o símbolo do parque), cabras-monteses, garranos, pequenos carnívoros e aves necrófagas ou de rapina (vemos dois abutres a abandonarem o campo de alimentação montado numa das áreas interditas a visitantes, junto à fronteira com Espanha, mas há também grifos ou águias-reais, garantem os elementos do ICNF), e um património cultural que inclui castelos, pelourinhos, a geira romana e os seus marcos miliários, precisam de ser preservadas — e foi isso mesmo que foi decidido em 1971, com a criação do PNPG, a primeira área protegida do país» («Não se pode ir para o Gerês como se vai para a praia», Patrícia Carvalho, Público, 3.08.2020, p. 13).

 

 [Texto 13 853]

Léxico: «capitel | bicicleta»

O que esperamos?

 

      Vi uma carrinha da empresa Árvores & Pessoas, com sede na Mealhada. No toldo, anunciam que fazem limpeza de palmeiras com bicicleta. Na página da Internet o mesmo: «A limpeza das folhas secas – com regularização do capitel – é feita com recurso ao método específico de escalada conhecido por “bicicleta”, o qual não é agressivo para o espique das palmeiras, ao contrário das tradicionais “esporas”, responsáveis por grandes danos provocados no passado.» Ora, parece que o método é conhecido de norte a sul: a empresa Jardim Garve, em Bias do Sul, entre Olhão e Fuseta, presta este serviço de limpeza de palmeiras, para o que usa também uma «bicicleta trepadora para palmeiras» — climbing bike for palm trees.

 

[Texto 13 851]

Léxico: «punhetar»

Com licença

 

      Não gosto de dizer estas coisas assim coram populo, mas cá vai: «Continuei a punhetar a piça de Emir, a punhetá-la e a chupá-la, ao mesmo tempo que ele flexionava as ancas para a frente, obrigando-me a engoli-lo, a ponto de me engasgar e de tossir com a saliva a escorrer-me pelo queixo abaixo» (Poder de Atracção (O Chefe 5), Abigail Barnette. Maria das Mercês de Sousa. Lisboa: Editorial Planeta, 2019, p. 6).

      Mais uma que a Porto Editora nos sonegou. Só aparece num bilingue, o de neerlandês-português. Aftrekken: «calão punhetar». Caramba, eles já têm o Rosse Buurt, o Bairro da Luz Vermelha, deixem-nos lá o verbo punhetar para termos alguma coisa. (Se tem de ser em neerlandês, leiam o texto «Aftrekken: hoe moet je het doen?», convenientemente ilustrado.)

 

[Texto 13 849]

Léxico: «totalizante»

Outro que falta

 

      «Queria pesquisar moralizante, oralizante, vitalizante?» Não, não queria. «Apesar de associado ao Estado Novo e a uma certa visão nacionalista da história portuguesa — [Joaquim Veríssimo Serrão] mantinha uma forte amizade com Marcello Caetano e foi reitor da Universidade de Lisboa durante o período imediatamente anterior ao 25 de Abril, marcado por protestos estudantis e pela resposta musculada do regime, sendo saneado após a Revolução —, não devemos tomar tais factos como totalizante quando abordamos a sua obra e percurso» («Um historiador incontornável no século XX português», Mário Lopes, Público, 2.08.2020, p. 26).

 

[Texto 13 848]

Léxico: «morcego-de-franja-críptico»

Falta o críptico

 

      «O morcego foi descoberto, em 2005, no Parque Nacional Peneda-Gerês por uma equipa de investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO). Mas na altura, tinha sido identificado como um morcego-de-bigodes (Myotis mystacinus), muito semelhante com a espécie agora revelada. [...] A espécie, que os investigadores acreditam poder encontrar-se por “toda a região Norte em locais com floresta madura atravessada por rios”, junta-se assim ao “recente confirmado morcego-de-franja-críptico, capturado no sítio de importância comunitária Alvão/Marão”, refere o centro» («Descoberta nova espécie de morcego em Portugal», Jornal de Notícias, 30.07.2020, 12h02, itálico meu).

      Franja, críptico...? Não estão a referir-se a Carles Puigdemont? Bem, a Porto Editora apenas regista morcego-de-franja (Myotis nattereri), não o críptico (Myotis crypticus).

 

[Texto 13 847]

Léxico: «léria | brisa | foguete | pingo-de-tocha»

Antigos, mas esquecidos

 

      «De um dos lados fica a Casa da Calçada, hotel de luxo de restaurante incrível, com estrela Michelin, e, logo à saída, a Confeitaria da Ponte, ideal para provar os doces conventuais típicos de Amarante, como lérias, brisas, foguetes e pingos de Tocha — também recomendáveis na Doçaria Mário, do lado oposto, o do centro histórico e do belo Museu de Amadeo de Souza Cardoso, filho da terra» («Os lugares mágicos dos festivais... sem festivais», Pedro Henrique Miranda e Rita Bertrand, «gps»/Sábado, p. 97). Doces conventuais típicos, mas nenhum destes está no dicionário da Porto Editora. Em relação ao último veja-se: «Em pingos-de-tocha falei, Excelentíssimo Senhor Dom Tanas de Barbatanas! Falei em pingos-de-tocha, que são certos nestes jantares, por serem um manjar de igreja. Obrigados a pingos-de-tocha, os jantares de missa nova!» (Dom Tanas de Barbatanas, vol. 2, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1962, p. 389).

 

[Texto 13 846]

Léxico: «neveiro | neveiro-mor»

Sem excepção

 

      «Esta começou por ser fabricada no topo da serra da Lousã, em Trevim, por ordem do neveiro-mor do reino, D. Julião Pereira de Castro. Sim, havia um fidalgo responsável pelo fabrico do gelo» («Os sorvetes do rei», Susana Lúcio, Sábado, 23-29.07.2020, p. 80). Embora alguns entendam — mas eu não concordo — que uma palavra assim não tem de ser dicionarizada, na verdade, este texto é apenas pretexto para me referir ao vocábulo neveiro, que a Porto Editora, à semelhança de TODOS os dicionários, garante ser o «fabricante ou vendedor de gelo ou sorvetes; sorveteiro». Estão TODOS enganados. Vejam: «E lembro‐me dos neveiros reais da serra da Lousã e de tesouros como o Talasnal, uma das suas belas aldeias recuperadas e integradas na rota Há “debaixo das do xisto» («Portugal íntimo e telúrico», Fernando Alves, in Portugal Vale a Pena!, Paula Ribeiro (coord.). Alfragide: Oficina do Livro, 2012, p. 49). Estes neveiros são poços para armazenar a neve, não sorveteiros.

 

[Texto 13 845]

«Tratar-se de», mais uma vez

Mostrem que aprendem

 

      «No mesmo sentido se pronunciou o Comando Territorial da GNR de Braga, já que se tratam de factos alegadamente ocorridos no concelho de Barcelos, naquele distrito. “Iremos efetuar diligências para apurar as circunstâncias da gravação. Caso se trate efetivamente de um guarda[,] haverá lugar a processo disciplinar, uma vez que a GNR não autorizou tal participação”, disse» («GNR investiga uso de farda de militar em vídeo de “rapper” minhoto», Joaquim Gomes, Jornal de Notícias, 31.07.2020, 19h55).

      Joaquim Gomes, não aprendeu isto, pelos vistos não lê nem relê, enfim. O mais estranho é não o corrigirem aí no jornal.

 

[Texto 13 844]