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Linguagista

Sobre «negro» e «preto»

Erro no lugar

 

      «É algo que o actor [Jonathan Majors], que nasceu na Califórnia há 30 anos, mas cresceu no Texas, tem experiência. “Estou acostumado ao racismo declarado, tendo crescido onde cresci. Para se viver uma vida plena nesses bairros, tens de ter experimentado isso. Não é bom, mas é a vida. E aceitas. Há tanta nuance no racismo. Alguém pode chamar-te a n-word e dar-te um copo de água, como alguém pode não ousar dizer a palavra e recusar-se a dar. Lidamos com isso. Com o Atticus, sinto que ele percebe a nuance, e o que é viver dentro dela.” Majors fala da morte “dolorosa” de George Floyd. “Mas o nascimento de um mártir é uma bênção, dá-nos algo por que lutar, uma prova visual e visceral de que há algo que tem de ser feito”, continua» («Lovecraft Country, uma viagem pelo racismo dos anos 1950 e de agora», Rodrigo Nogueira, Público, 17.08.2020, p. 28).

      Cá ainda não chegámos, nem é provável que cheguemos, a tais exageros. Cá, todo o debate se centra no par negro/preto. Por vezes, estupidamente, também são chamados à colação «africano» e «de cor». Já todos ouvimos a opinião, para lhe chamar alguma coisa, de que os negros até preferem que se lhes chame pretos, mas há aí claramente um problema de representatividade da amostra. Embora a forma como se diz a palavra — o contexto, a intenção (extralinguística, mas denunciada nos gestos) — tenha o seu peso, a meu ver, «negro» é de longe a palavra com menos, ou nenhuma, carga pejorativa. É meramente descritiva, e, logo, é útil. Ao contrário de certos utopistas, que até podem estar a mentir a si próprios, não vejo que se possa prescindir sempre dela para descrever uma pessoa. Poder-se-á prescindir dela na África Subsariana, não em Portugal. Querer situar essa questão aqui não deixa de ser um anatopismo. (Que pena a Infopédia só o registar como termo relativo ao estado psíquico. Não, não é só isso. Vejam o Michaelis: «Localização errônea, equivocada, fora do lugar conveniente.»)

 

[Texto 13 868]