03
Set 20

Léxico: «brushing»

Não é técnica de cabeleireiro

 

      «O alerta já foi lançado pelo Ministério da Agricultura. À Renascença, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária dá mais informações sobre as sementes que estão a chegar a casa de muitos portugueses. [...] Com base na informação que tem sido partilhada pelas autoridades europeias, em causa parece estar apenas um truque comercial. O “termo técnico é o ‘brushing’”. A subdiretora da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária explica. “As empresas de venda online têm uma cotação, há uma avaliação dos seus clientes relativamente à satisfação do cliente das suas vendas. Isto implica um sistema, uma plataforma eletrónica que gere essas votações”, contextualiza. Através do “brushing”, “estas empresas de comércio eletrónico estão a tentar ludibriar esse sistema enviando elas próprias as encomendas sem serem solicitadas”» («“Mistério” das sementes será tática comercial, mas perigosa», Celso Paiva Sol e Marta Grosso, Rádio Renascença, 2.09.2020, 11h33). Ou será que devíamos dizer «esquema da escova»? «Chama-se “esquema da escova” e o objetivo é melhorar o rating do site com um grande número de avaliações positivas, aumentando, assim, a confiança dos consumidores e, consequentemente, as vendas» («Porque é que há asiáticos a enviar por correio sementes que ninguém encomendou?», Carolina Rico, TSF, 2.09.2020, 10h16).

 

[Texto 13 889]

Helder Guégués às 17:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «autocaravanista»

Só metade

 

      «A Guarda Nacional Republicana (GNR) detetou 200 infrações, das quais 164 relacionadas com campismo e autocaravanismo ilegais, no período entre 26 e 31 de agosto, no Parque Natural do Sudoeste Alentejo e Costa Vicentina, foi anunciado esta terça-feira. [...] A operação decorreu nos concelhos algarvios de Aljezur e de Vila do Bispo — com especial incidência no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina —, locais habitualmente frequentados por centenas de autocaravanistas ao longo de todo o ano» («Algarve. GNR deteta 200 infrações por campismo e autocaravanismo ilegais», Rádio Renascença, 1.09.2020, 18h43).

      Como em tantos outros casos, a Porto Editora só fez metade do serviço: não regista autocaravanista, mas acolhe caravanismo. Não percam tempo: de caravanista e autocaravanismo não se esqueceram.

 

[Texto 13 888]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «espumantizar | espumantização»

Mais palavras

 

      «Portugal tem conhecido nos últimos 20 anos um enorme crescimento da produção de espumantes. É verdade que temos uma tradição que remonta aos finais do séc. XIX quando, na Bairrada, se fizeram as primeiras experiências de espumantização, com conselhos técnicos e castas da região de Champagne. [...] O fabrico tem procedimentos muito claros, mais do que “segredos” e por isso, se se vindimar especificamente para espumantizar – vindimas precoces e uvas com baixo grau e acidez elevada – e se houver o saber básico para não cometer erros (a prensagem das uvas é “o momento” de todo o processo), é possível produzir em qualquer região» («Precisamos delas, agora e sempre», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 8.08.2020, p. 84).

      Precisamos de espumante, mas também precisamos de palavras, e estas nem sempre estão onde esperamos que deviam sempre estar — nos dicionários.

 

[Texto 13 887]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «interesterificar | interesterificação»

Estão a ver?

 

      «O sal e a gordura são controláveis q.b., ou têm alternativas vagamente ‘saudáveis’ — as gorduras ‘trans’ ou ‘interistificadas’ são bem mais nocivas que as naturais, sejam de origem vegetal ou animal — no caso do açúcar há um caminho a percorrer...» («‘Desaçucarar’ sem deprimir!», Fortunato da Câmara, «Revista E»/Expresso, 4.01.2020, p. 91).

      Ena, tantas aspas! E todas desnecessárias, diga-se. Excepto num caso: escreve-se interesterificado, pelo que é como se o jornalista nos dissesse: «Vejam lá, isto não se escreve assim. Só por preguiça é que não fui ver como é a ortografia, e por isso pus aspas.» É o que sai. O dicionário da Porto Editora já regista transesterificação (e o verbo, transesterificar), sugerido por mim.

 

[Texto 13 886]

Helder Guégués às 12:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «escatel | goivadura | retopo»

Vamos afinar isto

 

      Um conjunto de escatéis em meia-lua do motor custam tão-só 5 euros. Estará o vocábulo escatel bem definido no dicionário da Porto Editora? Acho que não, pois falta pelo menos uma acepção, e a única registada não está perfeita: «abertura na extremidade de uma cavilha, para meter a chaveta». É a abertura, um furo, nas pontas e cabeças dos pernos e cavilhas, por onde passam as chavetas. Num motor, não me parece que seja isto. E isto também me leva, por associação de ideias, a uma acepção esquecida de goivadura: furo na madeira em que se embutem as cabeças dos pregos ou parafusos. E há mesmo palavras que simplesmente desapareceram: retopo, que é o pequeno ressalto nas cabeças dos pernos e cavilhas.

 

[Texto 13 885]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | favorito
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Léxico: «pimenta-da-guiné»

A verdadeira malagueta

 

      Avancemos um pouco mais, apesar de nem tudo o que está para trás ter ido para o dicionário. No dicionário da Porto Editora há pimentas para todos os gostos — menos esta pimenta-da-guiné (Aframonum melegueta), sobre a qual D. Afonso V concedeu em 1469 o monopólio do comércio ao mercador Fernão Gomes. «A designação malagueta era já dada, antes da chegada dos europeus à América, em 1492, a uma espécie picante da África Ocidental chamada pimenta-da-guiné» («A arder», Cátia Marques, «Revista E»/Expresso, 19.01.2019, p. 94).

 

[Texto 13 884]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Set 20

Léxico: «enteroviofórmio»

Não havia melhor

 

      «SHANNON: Eu até vos dei comprimidos, dei-vos frascos de enteroviofórmio, porque já sabia» (A Noite da Iguana, Tennessee Williams. Tradução de Idalina S. N. Pina Amaro. Colecção «Os livros das três abelhas». Lisboa: Publicações Europa-América, 1965, p. 27).

      Para combater infecções ou desarranjos intestinais, parece que não havia melhor. Por causa de uns (alegados?) efeitos adversos verificados no Japão, deixou de se fabricar. Nem os dicionários lhe prestam homenagem, só a literatura.

 

[Texto 13 883]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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