09
Set 20

Léxico: «homeostética | homeostético»

Como esta

 

    «Na escola de Belas-Artes, chamaram-se a eles próprios homeostéticos. Era notório que queriam que reparassem neles, pois iriam ser todos grandes artistas» («A caixa de tintas e pincéis», José Loureiro, Público, 26.08.2020, p. 27). A eles não — a si próprios. (Também pode ser a inveja a afectar a gramática.) Vamos ao que interessa: fingimos que a palavra não existe? Impedimos que todos os falantes saibam do que se trata?

 

[Texto 13 924]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «ligadela»

As palavras invisíveis

 

      «— Vou ali à cabina telefónica junto do pub e dou uma ligadela à minha mãe a dizer que afinal vou pescar à noite. Uma mentirinha inofensiva» (As Horas Invisíveis, David Mitchell. Tradução de Manuel Alberto Vieira. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2016, p. 51).

      «Queria pesquisar lixadela?» Bem sabes que não — é mesmo ligadela, palavra usada diariamente de norte a sul.

 

[Texto 13 923]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «multifocalidade»

A chama e o foco

 

      «Segundo a mesma nota, o Garcia de Orta “é o único hospital público a realizar em Portugal o tratamento inovador Supracor-Lasik, que permite corrigir a presbiopia”, mais conhecida como “vista cansada”. [...] “O Supracor-Lasik consiste num tratamento laser com multifocalidade na córnea, que permite aumentar a visão de perto e intermédia. O procedimento é normalmente realizado só no olho não dominante e é rápido, simples, seguro e eficaz”, indicou» («Tratamento inovador corrige “vista cansada”», Rádio Renascença, 17.08.2020, 8h50).

      Por acaso, recebi ontem uma carta — sim, ainda se escrevem cartas — em cujo endereço do remetente se lia «Rua Garcia da Horta». Remetente, diga-se, licenciado em Contabilidade. Se fosse uma carta de amor, que não é, extinguia-se logo ali, de supetão, a chama.

 

[Texto 13 922]

Helder Guégués às 11:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «botellón»

Como vão saber?

 

      «“No meio destes jovens também temos menores de 15 e 16 anos”, nota [António Fonseca, presidente da Associação de Bares da Zona Histórica do Porto]. “A maior parte dos bares até estão abertos, só que sem espaço de dança”, algo que potenciou o fenómeno do botellón nas ruas da Invicta» («Fim de semana de botellón no Porto. Associação de bares pede maior ação policial», Gonçalo Teles e Ana Cristina Henriques, TSF, 6.09.2020, 10h03).

    Não é tão usado entre nós que se possa afirmar que é um estrangeirismo. Pelo menos na minha percepção. Contudo, os falantes ficam tão desamparados que, ainda que queiram, nem sequer no Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora vão encontrar o termo. Isto é normal?

 

[Texto 13 921]

Helder Guégués às 11:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Definição: «picanço»

Não é assim

 

      «Um ‘picanço’ entre dois motociclistas na madrugada de domingo, no IC19, terminou quando um deles colidiu a alta velocidade contra a traseira de um carro-patrulha da PSP que estava na faixa da esquerda a sinalizar um acidente ocorrido minutos antes. A vítima, de 54 anos e que conduzia motos há mais de 30, deixa dois filhos» («‘Picanço’ no IC19 termina em tragédia fatal para motard», João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 8.09.2020, 10h11).

      Um picanço entre dois motociclistas, pois claro. (Mas deixe as aspas em paz, João Carlos Rodrigues.) Na definição de picanço do dicionário da Porto Editora, contudo, lê-se que é a «competição ilegal em que dois carros arrancam, lado a lado, a alta velocidade, em direcção a uma meta pré-definida». Nada, nem só de carros nem tem de haver uma meta predefinida (é assim que se escreve).

 

[Texto 13 920]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «gamba | camarão»

Fica provado que não

 

      «Os camarões», afirma o Pingo Doce, «pertencem à espécie dos crustáceos e... têm o coração na cabeça. E sim, uma gamba é um camarão. É apenas outro nome pelo qual é conhecido este simpático crustáceo.» A Porto Editora parece concordar, pois no verbete de gamba lê-se que é a «designação comum, extensiva a diferentes espécies de camarão graúdo utilizadas na alimentação». Será mesmo?

      «Dentro dos crustáceos, há contudo várias celeumas universais que animam bólogos, gastrónomos e fóruns de internet. Por exemplo, o que distingue o camarão da gamba? A cultura popular diz-nos que a gamba é maior do que o camarão, mas não é bem assim. Algumas variedades de camarão podem ser maiores do que as de gambas. As diferenças estão sobretudo nas pernas e no exoesqueleto: nos camarões, as pinças maiores são as frontais, nas gambas as pernas maiores são o segundo par; de resto, os camarões têm só duas pernas com garras, enquanto as gambas têm três. Ainda assim, a distinção mais notória está nos segmentos da casca, que nas gambas não se encaixam. Esta característica é, porventura, a mais visível, uma vez que por causa dela as gambas são mais retilíneas, encaracolam-se menos» («O mundo fascinante dos mariscos», Ricardo Dias Felner, «Revista E»/Expresso, 15.08.2020, p. 24).

      Se não encontrarmos rigor nos dicionários, onde o vamos encontrar? Para onde nos viramos se o máximo a que se chega é ao assim-assim?

 

[Texto 13 919]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | favorito

Léxico: «hipossalino»

Um erro demasiado repetido

 

      «Cristina Lourenço, subdirectora-geral da Direcção-Geral de Energia e Geologia, explica o fenómeno. “O facto de dois terços de Portugal Continental estarem ocupados por rochas graníticas e afins, faz com que cerca de 80 % das águas minerais naturais e de nascente engarrafadas sejam hipossalinas, ou seja, de baixa mineralização total, ao contrário da maioria das águas existentes nos restantes países comunitários.” [...] Só a partir dos 1500 mg por litro uma água é considerada muito mineralizada ou hipersalina» («As águas gourmet e o intruso alcalino», Ricardo Dias Felner, «Fugas»/Público, 22.08.2020, p. 4).

      Porto Editora, quando registaste hipersalino, tinhas de registar igualmente hipossalino. É um erro demasiado repetido, e mais próprio de amador, a meu ver.

 

[Texto 13 918]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «astrofotógrafo»

Assim não ajuda

 

      «Esta noite celebrou-se o reconhecimento com uma observação do céu, junto à Anta de Zedes no concelho de Carrazeda de Ansiães. É ali, ao lado do monumento megalítico, quase sem luz à volta e com um céu totalmente estrelado que Miguel Claro, astro-fotógrafo descreve o que se vê e o que se poderá ver» («Parque Natural do Vale do Tua certificado como destino turístico de excelência para observar estrelas», Afonso de Sousa, TSF, 27.08.2020, 11h07).

      Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registasse apenas astrofotografia, talvez isto acontecesse menos.

 

[Texto 13 917]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «glicocorticóide»

Pecado capital

 

      «A base do medicamento é um glicocorticóide ou corticosteróide, reprodução sintética da cortisol, uma hormona da família dos esteróides, produzida pela parte superior das glândulas suprarrenais localizadas na parte superior dos rins» («Dexametasona. Medicamento milagre ou simples bóia salva-vidas?», Graça Andrade Ramos, RTP, 18.06.2020).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o regista, e, contudo, emprega-o num verbete do Dicionário de Termos Médicos.

 

[Texto 13 916]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Set 20

Léxico: «complicatório»

Não deixou de ser assim

 

      «“A ortografia portuguesa enferma de complicatórias regras de acentuação gráfica, que a maior parte das pessoas que escrevem não respeita, porque a complicação já de si é provocadora de desordem, de anarquia”» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: As Bases da Ortografia Luso-Brasileira, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Livraria Bernardo, 1948], p. 38).

 

[Texto 13 915]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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