10
Set 20

Léxico: «árbitra»

Está mais do que na hora

 

      «Para já, um feito histórico em Portugal: esta noite, pela primeira vez, uma mulher vai arbitrar nos campeonatos profissionais portugueses de futebol. Vanessa Gomes vai ser árbitra assistente no jogo Estoril-Arouca desta noite, que marca o arranque da II Liga» (Frederico Moreno, noticiário das 9h00 na Antena 1).

      Na verdade, já se vai enraizando, nos meios de comunicação social, o uso de árbitra. Por isso, não se vai manter por muito mais tempo a indicação do dicionário da Porto Editora de que se trata do «adjectivo feminino singular de árbitro». Não é preciso pompa nem comunicados à imprensa. No Dicionário da Real Academia Espanhola, está apenas assim: «árbitro, tra». E chega.

 

[Texto 13 934]

Helder Guégués às 11:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «vitivinífero»

Também é nossa

 

      «A região vitivinífera de Chablis está centrada na cidade de mesmo nome, localizada no vale do rio Serein, no nordeste da França, rodeada por colinas» («Chablis: a terra da Chardonnay», Eduardo Milan, Revista Adega, 6.03.2019, 17h00).

      Até pode ser mais comum no Brasil, mas acabei de a ouvir nos 90 Segundos de Ciência, na Antena 1.

 

[Texto 13 933]

Helder Guégués às 11:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «estilete»

O falante dispõe

 

      O lexicógrafo põe e o falante dispõe. «No hardware, estes dois ‘dobráveis’ [Galaxy Note 20 e Galaxy Note 20 Ultra] têm tudo para se tornar as principais referências dos telemóveis que disponibilizam estilete» («De estilete em riste», Hugo Séneca, «Revista E»/Expresso, 15.08.2020, p. 86).

[Texto 13 932]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve e pensa por aí

Mais diligência

 

      «As cargas mais leves são transportadas em alforges colocados sobre burros, caso raro no monte. O meio de transporte mais importante é o carro de vara, com esta ligada à canga metálica que assenta nos mulins» (Memórias de Um Desertor, Sérgio Palma Brito. Lisboa: Edições Colibri, 2020, p. 34).

      Em «mulins», remete para uma nota de rodapé de quatro linhas em que se lamenta que o termo não esteja no Dicionário da Academia. Num livro publicado em 2020, é esta a referência do autor, o Dicionário da Academia. Se o livro tivesse revisão, eliminariam a nota, pois a ortografia consagrada é molim — que está em todos os dicionários. Mas abundam nele erros crassos e gralhas, o que é pena, já que não lhe falta interesse. Em alguns trechos, é quase certo que nem sequer foi relido pelo autor, quanto mais revisto. Mas lá figura o nome do editor: Fernando Mão de Ferro.

 

[Texto 13 931]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | favorito

Léxico: «holoprosencefalia | prosencéfalo | rombencéfalo»

Vá-se lá perceber o critério

 

      «A família negou desde logo a teoria de que a jovem teria abandonado o quarto e fugido sozinha. Os pais sempre insistiram que seria muito improvável, uma vez que Nora tinha dificuldades de aprendizagem e um atraso no desenvolvimento, causado por uma holoprosencefalia (má formação no cérebro que foi detetada logo após a nascença)» («O que realmente aconteceu a Nora? Um ano depois, morte de jovem britânica na Malásia vai ser investigada», Expresso, 24.08.2020, 11h24).

      Desta vez, nem no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora. Também não se percebe porque está no dicionário geral apenas mesencéfalo, tendo sido remetidos para o dicionário especializado prosencéfalo e rombencéfalo.

 

[Texto 13 930]

Helder Guégués às 10:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «paulóvnia»

Alternativa ao eucalipto?

 

      «Nesta primeira fase, o parque não oferece ainda muitas sombras naturais, mas essa é uma questão mais de Verão. “É um dos handicaps”, admite Jorge. “Mas no Inverno, as pessoas querem é sol”. De qualquer modo, já estão plantadas muitas árvores, entre os alvéolos e outras zonas. “Oliveiras, nespereiras, jacarandás, árvores de fruto e muitas mais”, enumera Jorge, incluindo também algumas de crescimento rápido, como as paulownias» («No coração do Alentejo há Terra Nua, um novo parque naturista», Luís J. Santos, Público, 10.09.2020, p. 17).

      É paulóvnia, mas não apenas o jornalista não se lembrou de ir ver o nome em português, como também a Porto Editora se esqueceu de o dicionarizar. Está em alguns bilingues.

 

[Texto 13 929]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tomate-maçã»

Para uma mesa mais composta

 

      «Não foi por isso surpresa ver desde tomates-maçã amarelos, beringelas delgadas em tom lilás, pimentos carnudos e malaguetas brancas, tomates-cereja cor de chocolate ou curgetes de várias cores e formas» («Fomos ‘comer’ São Miguel», Fortunato da Câmara, «Revista E»/Expresso, 27.08.2020, p. 78).

 

[Texto 13 928]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «viralidade»

Lá esqueceram também este

 

      «O que importa a esta tecnologia de comunicação é a viralidade, é o foco da atenção, é a controvérsia, é não deixar folga para respiração: o algoritmo busca mecanizar o sucesso deste efeito avalancha, criando uma realidade paralela que tem de ser alimentada torrencialmente» («A estratégia do bufão», Francisco Louça, «Revista E»/Expresso, 15.08.2020, p. 38).

 

[Texto 13 927]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «campinar | verguilha | berguilha»

Muito mais vasta

 

      Como sabem (eu soube há cinco minutos), a Festa do Colete Encarnado foi a vencedora no concurso 7 Maravilhas da Cultura Popular. Do que me lembrei agora foi de ouvir numa meia-final o representante desta candidatura, o campino Luís Santos, dizer que a sua era a arte de manear o touro bravo e de campinar. Nos nossos dicionários é que não consta o verbo campinar. No seu ar hirto e sério, ainda teve tempo de corrigir Catarina Furtado, pois do traje do campino fazem parte os calções, e não calças. E que mais? Dali, nada mais. Contudo, na página na Internet da Casa Brincheiro (com morada — vejam bem o nome — na Rua Batalhoz, no Cartaxo), lê-se isto: «Este traje é derivado da indumentária erudita do século XVIII, muito embora tenha sofrido algumas alterações decorrentes da moda e da confecção oitocentista. Assim, as calças apresentam-se na forma de calção com abotoadura lateral idêntica ao calção setecentista, muito embora tenha uma verguilha em vez da abertura em alçapão.» Verguilha, berguilha, braguilha — a língua é muito mais rica do que a pintam nos dicionários.

 

[Texto 13 926]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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10
Set 20

Léxico: «radiomontador»

Não é por nada

 

      «— Leva o rádio ao nosso sargento rádio-montador... — disse o alferes, quando chegámos ao aquartelamento — que o examine. Se estiver avariado, que te dê outro. Não te demores» (Traficantes de Miragens, Francisco Forte Faria. Lisboa, edição do autor, 1989, p. 69). Tem quase o nome do filólogo, Francisco Forte de Faria Torrinha (1879-1955). Radiomontador, fosse qual fosse a sua importância na Guerra Colonial, é que não está nos nossos dicionários. Não é por nada.

 

[Texto 13 925]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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