18
Set 20

Etimologia: «soleto»

Para fugir à «origem obscura»

 

      O vocábulo soleto, como acabei de anunciar nos comentários, foi hoje registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Ficou assim a definição: «telha de ardósia». Melhor se diria, como faz José Pedro Machado, que é a «telha de ardósia para cobertura de habitações». Cobertura, entenda-se, não apenas dos telhados, mas de fachadas. Não indicam, porém, a etimologia, que é muito simples: houve um tempo em que as minas de ardósia negra de Valongo pertenciam a ingleses, que exportavam quase todo o material para a Grã-Bretanha. Ora, o sleto ou, mais conforme ao português, o soleto que os operários julgavam ouvir era o slate inglês — «ardósia». Não há inúmeros casos assim? Assim de repente, ocorre-me chulipa, cada uma das travessas em que assentam os carris do caminho-de-ferro, que vem do inglês sleeper.

 

[Texto 13 990]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «soleto»

Nos dicionários, nada

 

      O primo Jorge anda a recuperar a casa que herdou. Fachada, tardoz e empenas do primeiro andar, recuado, ficou tudo revestido a soleto de ardósia. Os lexicógrafos é que, infelizmente, não querem saber disto para nada. Usados nos telhados e fachadas desde a Idade Média, os soletos (que são telhas de ardósia) garantem um excelente isolamento.

 

[Texto 13 989]

Helder Guégués às 10:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «cruziana»

Ignoradas

 

     «[Os trilobites] Movimentavam-se arrastando-se pelo fundo do oceano e são essas marcas, denominadas cruzianas, que tanto impressionam os visitantes desta remota aldeia [Penha Garcia, concelho de Idanha-a-Nova]» («Passear pelos fósseis», Miguel Judas, Visão, 2-8.07.2020, p. 73). Denominadas cruzianas, que são icnofósseis, mas desconhecidas de todos os nossos dicionários.

 

[Texto 13 988]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «eliotiano»

É o que vejo

 

      «Autores, diz Eliot, “de índole mais semelhante à minha” e a propósito dos quais o crítico explicita afinidades e elabora “generalizações”, semelhantes às generalizações eliotianas, como a “dissociação da sensibilidade” ou o “correlato objectivo”» («Eliot & Eliot», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 4.01.2020, p. 69). O que eu vejo é que está em vários dicionários. Está também, por exemplo, no VOLP da Academia Brasileira de Letras.

 

[Texto 13 987]

Helder Guégués às 10:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «estrapada»

Agora da relojoaria

 

      Não deve haver relojoeiro em Portugal que desconheça a palavra estrapada — que, todavia, não encontramos, com este sentido, nos nossos dicionários. Trata-se de uma ferramenta que serve para montar a corda dos relógios. Vem do francês estrapade («Outil pour monter le grand ressort d’une pendule», diz Littré), e este do italiano strappata.

 

[Texto 13 986]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «pica»

Numa mão, a G3, na outra, a pica

 

      «“O soldado português foi, pelo menos para mim, o primeiro choque com a realidade. A boa e a má. A boa foi ter a certeza que, com eles e como eles, havia de sobreviver. Os manuais de tática resumiam-se a sobreviver, a desenrascar. Palavra que devia constar do hino nacional. A instrução era um curso acelerado de sobrevivência e desenrascanço: para acampar, comer, marchar. Não deixa de ser curioso lembrar que a formação de combate mais utilizada era a fila por um — a bicha de pirilau — assim como não deixa de ser relevante que as tropas portuguesas tenham feito a guerra sem uma mochila adequada. Ou que o aparelho para detetar as minas tenha sido uma vara de aço, a chamada pica”, descreveu Carlos Matos Gomes numa comunicação pública em 2007» («A história dos primeiros soldados a embarcar para a Guerra do Ultramar», Marta Martins Silva, Sábado, 15.02.2020, 8h22).

      Como seria de esperar, mas é lamentável comprovar, nenhum dicionário nosso regista esta acepção de pica.

 

[Texto 13 985]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «bolinadela»

Destas, às centenas

 

      «Diz com todas as letras. “A ria de Aveiro nunca devia deixar de fazer barcos”. Apaixonou-se e quer que outros sintam o mesmo. Lança-se à ria “só para dar umas bolinadelas”. “Levar o mastro para cima, encher a vela. Eu gosto disto. Sou apaixonado pela vela”» («Portugal à vista!», Luís Octávio Costa, «Fugas»/Público, 15.08.2020, p. 2).

 

[Texto 13 984]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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Plural: «palavra-chave»

Não podemos esperar mais

 

      «“Uma história de resistência em favor da memória e da democracia”, acrescenta o autor [Álvaro Filho], que especifica — salvaguardando que é suspeito para falar — que “memória e política são duas palavras-chaves nesta segunda [volta] pós resultado das eleições no Brasil”» («Escritor brasileiro Álvaro Filho estreia-se em Portugal com um romance e um conto», Observador, 18.10.2018, 9h42). É muito mais comum encontrar este plural no Brasil, mas não deixa de se encontrar também deste lado do Atlântico. Mais: não falta quem defenda que é o único plural admissível. Não é o meu caso, que o considero determinante específico invariável, e assim o uso. Como se compreende, é nestes casos que os falantes precisam de orientação. O VOLP da Academia Brasileira de Letras indica que tem dois plurais, palavras-chave e palavras-chaves. O dicionário da Porto Editora não diz nada. Ora, ainda anteontem à tarde, Raul Vaz, comentador de política da Antena 1, disse várias vezes «sectores-chaves», o que demonstra que não convém nada deixar estas questões por definir.

 

[Texto 13 983]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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18
Set 20

Léxico: «vila-caense»

E com razão

 

      Viram o novo balneário do GCD de Vila Caiz? Segundo se diz, de fazer inveja a alguns clubes da Primeira Liga. Deve é haver muitos vila-caenses zangados, ou, quando menos, estupefactos, por o gentílico não estar nos dicionários.

 

[Texto 13 982]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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