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Linguagista

Léxico: «legrar | pinho-bravo»

Esqueçam por agora a medicina

 

      Num dos episódios de Olhá Festa, na SIC, ficámos a conhecer um colhereiro de Arganil. Um colhereiro, disse, só usa quatro ferramentas: machada, faca, legra e enxó. Legrar, ao contrário do que se lê no dicionário da Porto Editora, não é apenas um verbo usado em medicina («MEDICINA operar, limpar ou examinar com a legra»), mas relativo ao uso de qualquer dos dois tipos de legra. A madeira usada é pinho-bravo (outra por dicionarizar) ainda verde.

 

[Texto 14 120]

Léxico: «furão»

Mamíferos, mas bípedes

 

      «Uma busca a uma moradia, na Guia, realizada esta terça-feira, ao final da tarde, por agentes da Esquadra de Investigação Criminal (EIC), vulgo “furões” da PSP de Cascais, culminou na apreensão de uma pistola, calibre 9 milímetros, bem como de 34 munições» («Busca de “furões” da PSP de Cascais a moradia na Guia apanha pistola 9 m/m e 34 munições», Cascais24, 7.08.2020).

 

[Texto 14 119]

Léxico: «tinoni»

O habitual

 

      «Logo de seguida, as portas da ambulância cerraram-se e um “tinoni” angustiante abriu alas por entre a multidão. O Gabriel não hesitou um segundo sobre o que queria fazer» (O Mistério do Poço da Morte, Carlos Correia. Lisboa: Editorial Caminho, 1988, p. 40). Não está nos dicionários — mas usa-se.

 

[Texto 14 118]

Léxico: «neurópata»

São três, não quatro

 

      «“Acasalará a leoa com um cão banal e doméstico?” O lendário encontro entre a rainha do Sabá e o rei Salomão é uma daquelas histórias que foram feitas para incendiar a imaginação de alguém como Nerval, nervopata consabido, embebido por leituras das mais heterodoxas, colhidas em biblioteca familiar» (recensão da obra Balkis, de Gérard de Nerval. José Guardado Moreira, «Revista E»/Expresso, 4.01.2020, p. 70).

      O que não pode ser colhido, em biblioteca familiar ou pública, é a grafia «nervopata». Pode ser um erro de simpatia — Nerval, nervopata. Aqui, quase uma homenagem. Mas não, José Guardado Moreira, já nos chegam as duas variantes, neuropata e nevropata. Diga-se que o VOLP da Academia Brasileira de Letras só regista a primeira, mas fica empatado com o dicionário da Porto Editora, pois também acolhe — e bem, porque é a forma regular — neurópata. Sendo assim, três variantes.

 

[Texto 14 117]

Léxico: «filetar»

Esqueça

 

      «Comece por filetar os carapaus e retirar as espinhas» (Os 100 Melhores Azeites de Portugal, Edgardo Pacheco. Alfragide: Lua de Papel, 2016, p. 246). Esqueça, Edgardo Pacheco, a Porto Editora não deixa: «1. ornar com filetes; 2. fazer as espiras ou roscas dos parafusos». Não filete, use antes a aplicação da Uber Eats.

 

[Texto 14 115]

Léxico: «paleco | paneiro»

É mesmo paisagem

 

      «Na Nazaré, com ou sem ondas gigantes, vai-se recuperando a circulação de pessoas na Avenida Manuel Remigio. “Há menos palecos e palecas”, diz Francelina, a pé desde as quatro, cinco da manhã, referindo-se aos forasteiros. Apesar de tudo, vem estender o peixe nos paneiros» («Portugal à vista!», Luís Octávio Costa, «Fugas»/Público, 15.08.2020, p. 6).

      Calma aí, Porto Editora: esta acepção de paneiro não a tens. Já quanto a paleco, tanto quanto vejo, não está em nenhum dicionário.

 

[Texto 14 114]

Léxico: «tortosendense»

O resto é paisagem?

 

      «Foi ali, no Tortosendo, que nasceu um manual escolar, validado pela Direção-Geral da Educação, que aborda a cultura cigana. A Renascença foi conhecer Tiago, Mário, António, Rosa e outros ciganos. Celeste não é cigana, mas casou com um elemento desta comunidade» («São ciganos? São tortosendenses!», Liliana Carona, Rádio Renascença, 10.08.2020, 9h38). Coitados, outros que ficaram fora dos nossos dicionários. São tantos, que já nem temos tempo para nos surpreendermos.

 

[Texto 14 113]