13
Out 20

Léxico: «sparring»

Atitude incompreensível

 

      «‘Segunda Viagem’ [integrado no livro Desoras, de Julio Cortázar] conta a história de um pugilista mediano, Ciclón Molina, que se agiganta com a possibilidade de vingar a morte no ringue de um lutador seu amigo, de quem foi sparring (assistente de treino), só para repetir o desfecho trágico, como se tivesse sido arrancado de si mesmo, e transformado em marioneta, pelos desígnios sádicos de um deus cruel» («Desajustes», José Mário Silva, «Revista E»/Expresso, 4.01.2020, p. 70).

      Assistente ou auxiliar de treino. Sucedem-se as oportunidades para corrigir e melhorar os dicionários bilingues, mas ninguém agradece nem aproveita.

 

[Texto 14 140]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | favorito

Léxico: «dordonhês»

Desprezamos tudo

 

      «Os esqueletos de Côte d’Azur desassemelham-se dos de Vezère, os de Placard distam dos dordonheses, os do Solutré não seguem as medidas exatas de Cro-Magnon, os de Combe-Capelle têm, para Moschi, caracteres australóides» (Civilização e Cultura, Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1983, p. 123).

 

[Texto 14 139]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «umbandista»

Agora é este

 

      «“Confesso que para quem é umbandista está muito difícil. Quando a gente perde alguém para esse vírus, como foi meu caso de perder minha mãe muito rápido, a responsabilidade se torna maior, e o cuidado é triplicado”, ressalta Azevedo, que perdeu a mãe recentemente par ao novo coronavírus» («Pretos Velhos: dia sem celebração», Yuri Eiras, O Dia, 13.05.2020, p. 6). «Queria pesquisar urbanista?», quer saber a Porto Editora.

 

[Texto 14 138]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «peteiro»

Não pode ser

 

      Até na Enciclopédia Brasileira Mérito vamos encontrar o regionalismo minhoto peteiro como sinónimo de mealheiro. No dicionário da Porto Editora, é apenas o «que ou aquele que tem o hábito de dizer petas ou mentiras».

 

[Texto 14 137]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «aneleira | aneleiro»

Nada de caixinha

 

      Lia não via a aneleira — porque não sabia o que é uma aneleira. «Ah!, era aquele objecto côncavo, como um cestinho esmaltado, com três perninhas arqueadas em laçada» (O Elétrico do Exílio, Margarida Rios. Lisboa: Publicações Europa-América, 2001, p. 107). À minha frente tenho uma aneleira um pouco diferente, da Sociedade de Porcelanas de Coimbra, oferecida por um antiquário: uma espécie de pratinho de 9,5 cm de diâmetro com um só pé, ou coluna, com 8 cm, adornada com motivos florais. Muito diferente da aneleira do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «caixinha para guardar anéis». Como era o único tipo no tempo de Cândido de Figueiredo, para os lexicógrafos permanece intocável. E as outras acepções? Também os ourives têm aneleiras, que são enfiadas de anéis de diversos tamanhos, numerados, para medir o dedo dos clientes. Para o mesmo fim há réguas aneleiras, que consistem em réguas com orifícios de diversos diâmetros onde se enfia o dedo a medir. E se se tratar de uma mulher que faz anéis? Sim, será também uma aneleira: «[...] dedicar-se ao ofício de origem, recebido dos pais, que os tinham ensinado à custa de carolos, cotoveladas e palmatoadas, calafeteiro, sirgueiro, cabouqueiro, pedreiro, marceneiro, abegoeiro, algodoeiro, aneleiro, paneleiro, fura-vidas, que é como quem diz, coscuvilheiro, logo tornado em olheiro, espiando a embarcação ou o galpão alheio, ou “língua”, jurubaça, isto é, tradutor e escrivão sínico» (A Cidade do Fim, Miguel Real. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2013, p. 49).

 

[Texto 14 136]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «higienismo | sanitarismo»

É assim

 

      «Então, a minha mãe passou a cozinhar muito mais e sobretudo a fazer, quase diariamente, bolos e salgados. Felizmente, ainda não estávamos na época do higienismo alimentar, que transformou o açúcar e o sal num veneno» («O bolo de aniversário», José Gameiro, «Revista E»/Expresso, 11.07.2020, p. 86).

      Este não o tens, mas tens higienista; como também tens sanitarista, mas não sanitarismo. É assim que se fazem as cousas.

 

[Texto 14 135]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Sempre Brunsvique

Uniformize-se

 

      «Ao sair, em agosto de 2018, mudou-se para Itália, onde foi caçado — vivia na rua em Milão — em mais num [sic] mandado europeu. Brunsvique, última morada na Alemanha, procurava-o» («Colecionador de crimes», Sérgio A. Vitorino, Correio da Manhã, 5.06.2020, p. 10). «Três de maio de 2017. “Noite de copos” num bar de Brunsvique, Alemanha, e Christian Brueckner vê que no canal televisivo ZDF está a dar um programa sobre o 10º aniversário do caso Madeleine McCann — a menina inglesa desaparecida a 3 de maio de 2007, aos 3 anos, de um aldeamento turístico na praia da Luz, Lagos, Algarve» («Confissão em bar trama raptor», Tânia Laranjo e Sérgio A. Vitorino, Correio da Manhã, 5.06.2020, p. 8). Claro que é coisa simples, mas, se no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora a Brunswick fazem corresponder Brunsvique, já no Dicionário de Alemão-Português do adjectivo braunschweigisch de Brunswick, relativo a Brunswick.

 

[Texto 14 134]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito

Então agora é «cinquentésimo»?

Veremos

 

      «Até Zimbardo se esquecera de que tudo não passava de uma experiência. Alertado para o horror, a experiência terminou ali, constatando-se depois que a psicóloga que denunciou o caso era a cinquentésima pessoa a ali entrar e a primeira a protestar. A conclusão, envolta ainda em grande polémica, é que quando há uma ideologia e um enquadramento social que legitime o abuso, é fácil que o comum dos mortais se transforme no que esperam dele» («A Experiência de Zimbardo e os presos afegãos», Isabel Stilwell, Destak, 12.01.2012, 18h55). Acharmos inacreditável que alguém, e mormente quem escreve em jornais, não saiba que ao que, numa série, ocupa o lugar correspondente ao número 50 se dá o nome de quinquagésimo, não cinquentésimo, pode não ser a melhor abordagem. É claramente um caso de etimologia popular — pelo que nasce, logo à partida, legitimada, verificadas que estão todas as condições para vingar.

 

[Texto 14 133]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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13
Out 20

Léxico: «fluoroelastómero»

Mas já por aí anda

 

      O novo relógio inteligente da Oppo, que parece, de facto, muito bom em tudo menos no preço, tem a pulseira intercambiável de fluoroelastómero — palavra que, porém, ainda não aportou nos nossos dicionários.

 

[Texto 14 132]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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