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Linguagista

Léxico: «negativo»

Do que me lembro

 

      Acho que nunca vi isto: «Também numa sondagem realizada numa zona muito rochosa, na parte mais elevada do monte, foi descoberta “uma estrutura de pedras, com buracos de negativo de postes”, o que prova que ali existiu uma cabana ou um abrigo, e, no meio, junto com alguma cinza e carvão, foram encontradas sementes, que foram enviadas para João Tereso, da Universidade do Porto, um especialista no estudo de sementes antigas» («Escavações arqueológicas revelam imponente arco gótico no castelo de Vila do Touro», TSF, 12.11.2020, 11h03). Só pode encaixar num sentido figurado — que não está nos dicionários.

 

[Texto 14 328]

Léxico: «termodesinfectadora»

Também as temos

 

      «A prefeitura comprou mais de 18 mil equipamentos, no valor de R$ 370 milhões. Já chegaram ao Brasil um tomógrafo, que vai ampliar a precisão do diagnóstico do vírus; duas autoclaves e duas termodesinfectadoras para esterilizar instrumentos médicos e materiais hospitalares» («Prefeitura do Rio quer respiradores de volta», Rachel Siston, O Dia, 17.04.2020, p. 4).

 

[Texto 14 327]

Léxico: «vacilão»

É muita coisa

 

      «Ao mesmo tempo em que a sociedade se esforça para ser mais solidária no combate ao novo coronavírus, sempre tem vacilões que resolvem seguir na contramão. Prova disso foram os dois furtos de dispensers de álcool em gel 70% registrados ontem pela Supervia» («Tem vacilão na estação», Meia Hora, 6.05.2020, p. 6).

      Na verdade, e ao contrário do que se vê em alguns dicionários, vacilão é polissémico. Não o encontramos, infelizmente, no dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 14 326]

Léxico: «ensombrecer»

Deixa-te disso

 

      «Na semana em que o país iniciou tranquilamente o processo de desconfinamento, o mundo político ensombreceu-se numa floresta de equívocos e de contradições. É sinal de que estamos a regressar à normalidade» («O sacrifício de Centeno», Francisco Assis, Público, 16.05.2020, p. 23).

      Até parece que a Porto editora quer fazer passar a ideia de que o verbo ensombrecer é castelhano. Deixa-te disso.

 

[Texto 14 325]

Léxico: «swedenborgianismo | swedenborgiano»

De escassa utilidade

 

   «Este princípio nocturno é directamente tributário da estética genialista (o Witz) romântica, de Novalis, Schlegel e Hölderlin, estética do claro/escuro, das trevas e da luminosidade, dos céus e infernos swedenborgianos» (Tópica Estética: filosofia, música, pintura, Carlos M. Couto. Lisboa: INCM, 2001, p. 243).

      A Porto Editora regista, é verdade, ambos — swedenborgianismo e swedenborgiano — num dicionário bilingue, só que isso não chega, porque de pouco serve.

 

[Texto 14 324]

Léxico: «libertarismo | libertarianismo»

Assim não nos safamos

 

   «Uma das primeiras críticas a Rawls foi formulada pelo libertarianismo, em especial por Robert Nozick» (A Democracia depois do Liberalismo: ensaios sobre ética, direito e política, José Eisenberg. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 103).

      Está bem, libertarianismo vem do inglês libertarianism, mas tu, Porto Editora, também não acolhes o termo libertarismo. Assim, não nos safamos.

 

[Texto 14 323]

Léxico: «inorganicidade»

Num bilingue: inorganicità

 

      «Mas já tenho observado alguns teóricos, defensores de um certo sentido de inorganicidade dos movimentos, que depois, no terreno, resvalam rapidamente para protagonismos individuais de pura substituição de dinâmicas e afirmação colectivas» (Novas Formas de Mobilização Popular, José Rebelo (coord.). Porto: Campo das Letras, 2003, p. 42).

 

[Texto 14 322]

Tradução: «colored people»

Só com explicação

 

      «Clarke, que na terça-feira se demitiu da presidência da FA, usou a expressão “jogadores de cor” para se referir a atletas negros, durante um debate no qual se falava de homossexualidade e a dificuldade de a assumir no futebol» («Greg Clarke deixa vice-presidência da FIFA após comentário racista», TSD, 12.11.2020, 11h28).

      Será a melhor tradução? É que «pessoas de cor» não é propriamente ofensivo em português. Pode ser uma expressão imprecisa ou idiota, mas não ofensiva ou pejorativa. Logo, se não se traduzir de outra forma, tem de ir acompanhado de uma nota. Lê-se na página da Internet da CNN: «Speaking at a UK parliamentary committee, Clarke used the word “colored” to describe Black, Asian and minority ethnic football players. He had also been criticized for his comments concerning people from South Asia, gay players and female footballers at the same meeting.»

 

[Texto 14 321]

Léxico: «semipúblico»

Crime é isso

 

      «A mesma fonte refere a importância da denúncia destes crimes por parte das vítimas. Este é um crime semi-público e as denúncias podem evitar novos casos e até mesmo ajudar a localizar outros crimes que ainda estejam em curso» («Dirigente de associação de apoio a carenciados detido por crimes sexuais», Liliana Monteiro, Rádio Renascença, 12.11.2020, 10h53). Como o dicionário da Porto Editora anda ali apenas por semiputo e semipútrido, Liliana Monteiro teve muitas dúvidas — e escolheu mal. (Ah, semipúblico... Nunca me esqueço daquele meu vizinho, sempre armado em carapau de corrida, que quis confirmar comigo se o estacionamento indevido à frente de garagens não era crime semipúblico.)

 

[Texto 14 320]