16
Nov 20

Evacuar | transferir | remover

Não vamos deixar

 

      «Combalido pelo sofrimento e pelas contínuas privações que havia suportado, fui removido, numa longa composição de ambulâncias, para o hospital central de Peshawur» (Um Estudo em Vermelho, Arthur Conan Doyle, Tradução de Silveira de Mascarenhas. Lisboa: Editora Livros do Brasil, 1985, p. 28).

      Sim, não são só as nódoas que são removidas, também nós, sejamos militares ou não. O verbo remover é suficientemente abrangente para incluir este sentido — e evita-se o erro recorrente de evacuar pessoas, como se andassem por aí gigantes glutões que nos comessem e depois nos evacuassem. Quer dizer, há por aí muitos, alguns até anões, que nos querem comer, mas basta não deixarmos. Vão bardamerda!

 

[Texto 14 339]

Helder Guégués às 10:00 | favorito

Léxico: «fonomímico | recolher obrigatório»

Conflito social? Não apenas

 

      Ontem de manhã, antes do recolher obrigatório, passei por uma FNAC e um dos livros que vi, publicado pela Porto Editora, era com cartões fonomímicos («treino de consciência fonológica e correspondência som-letra adequado a dislexia e disortografia»), da «Colecção Método Fonomímico Paula Teles» — mas de fonomímico nada consta no dicionário da mesmíssima Porto Editora. Cheguei a casa e vi que também têm de corrigir a definição de recolher obrigatório: «medida excepcional imposta em situações de conflitos sociais que implicam risco de violência física, que obriga as pessoas a permanecer em suas casas durante um período determinado, sobretudo nocturno». Em conclusão, tenho de sair mais vezes de casa.

 

[Texto 14 338]

Helder Guégués às 09:45 | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «daiquiri»

Lições de dicção

 

      Acabei de ver a palavra «haraquíri» e veio-me logo à mente a peça Bruscamente, no Verão Passado, que vi no Teatro Experimental de Cascais. Uma actriz não pronunciava muito bem a palavra «daiquiri», que o dicionário da Porto Editora também não regista — o que acaba por ser mais grave.

 

[Texto 14 337]

Helder Guégués às 09:30 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «farmacoterapêutico»

Já lá está «farmacoterapia»

 

      «Com o objetivo de levar os utentes a ter a situação clínica controlada, a farmácia dispõe do serviço de acompanhamento farmacoterapêutico destinado a todos os utentes que se suspeitem estar descompensados e que inclui não só a análise mais detalhada da situação por parte de um farmacêutico, mas também a realização de exames bioquímicos» («Farmácias apostam em serviços que vão muito além dos medicamentos», Cláudia Pinto, Notícias Magazine, 3.08.2019).

 

[Texto 14 336]

Helder Guégués às 09:15 | ver comentários (1) | favorito
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Topónimo: «Islamabade»

Ou possam entrar

 

      «Zaavan, um elefante residente num jardim zoológico paquistanês, tornou-se um símbolo para os ativistas de direitos animais espalhados pelo mundo, quando, em 2012, perdeu o parceiro. Após 35 anos de confinamento nas instalações do zoológico de Islamabade, onde o seu estado de saúde se foi agravando, o mamífero encontra-se em condições médicas consideradas adequadas para abandonar o local» («A aventura de Kaavan. Elefante mais solitário do mundo volta ao meio natural 35 anos depois», Catarina Maldonado Vasconcelos, TSF, 7.09.2020, 12h26). Na Infopédia, creio que apenas num dicionário bilingue se encontra esta grafia — que devíamos preferir. Ora, até no texto do Acordo Ortográfico de 1990 se lê isto: «Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente. Exemplo: Anvers, substituído por Antuérpia; Cherbourg, por Cherburgo; Garonne, por Garona; Genève, por Genebra; Jutland, por Jutlândia; Milano, por Milão; München, por Muniche; Torino, por Turim; Zürich, por Zurique, etc.»

 

[Texto 14 335]

Helder Guégués às 09:00 | favorito

Léxico: «teleimpressora»

Coerência, por favor

 

      «Esta teleimpressora foi instalada, com a ajuda de Manuel Pechirra, numa casa na Avenida Júlio Dinis, para que de forma ininterrupta fossem recebidos e transmitidos telegramas de coordenação entre o isolado Biafra e a porta para o mundo: Portugal» (Os Falcões do Biafra, Fernando Cavaleiro Ângelo. Alfragide: Casa das Letras, 2019, p. 120).

      De novo, sim. Eu fiz duas afirmações, Porto Editora: que a forma teleimpressora também existe e que há outra acepção além daquela que registas em teleimpressor. Aquela de que falei, encontrada numa tradução, no original era uma teleprinter — «a machine that prints out telex messages that have been typed in another place and sent by phone lines» (como se lê no Oxford Advanced Learner’s Dictionary). Ou seja, não se trata de um aparelho telegráfico. Mais e mais decisivo: no dicionário de alemão-português, acolhes o termo Teledrucker, e o domínio é o da informática e a tradução, tu o dizes, é «teleimpressora». A coerência tem de ser levada até ao fim.

 

[Texto 14 334]

Helder Guégués às 08:30 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «vice-prefeito»

E esta?

 

      «Perto de 150 milhões de brasileiros vão escolher neste domingo os seus novos, ou velhos, prefeitos, vice-prefeitos e vereadores de entre uma imensidão de perto de 700 mil candidatos a mais de 5570 municípios» («Candidatos assassinados, muitos nomes bizarros e alianças impossíveis. Eis as municipais do Brasil», João Almeida Moreira, TSF, 14.11.2020, 17h37).

 

[Texto 14 333]

Helder Guégués às 08:15 | ver comentários (1) | favorito
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16
Nov 20

Léxico: «bich»

Nem esta?

 

      «(Chama um bichano imaginário) Bich... Bich... Bich... anda cá, tareco! (Apanha-o, e acaricia-o) Não sabes que o teu lugar é em casa?...» (Casaco de Fogo, Romeu Correia. Lisboa: Prelo, 1970, p. 8).

      Já sabemos — disse-o várias vezes — que estamos muito mal servidos de interjeições nos dicionários. Nada de significativo mudou entretanto. Então nem esta, que serve para chamar gatos, uma das mais vulgares, está nos dicionários? Que vão pensar os estrangeiros que estão a aprender a nossa língua?

 

[Texto 14 332]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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