31
Dez 20

Léxico: «presencialidade»

Último do ano

 

       «Neste sentido distinguiu o apóstolo os instantes dos futuros, chamando instantes às coisas que estão (digamo-lo assim) escorregando do estado da futurição para o da presencialidade, e futuros às que hão-de tardar mais» (Nova Floresta, Manuel Bernardes. Lisboa: Lello & Irmão, 1949, p. 335).

      Se, como colectivo, foi o pior ano das nossas vidas, individualmente, e no meu caso, esteve muito longe disso. Foi um ano de rupturas e disrupções, mas o essencial permanece e surgiram pistas e sinais para o futuro.

 

[Texto 14 535]

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31
Dez 20

Como se fala na rádio

Apre!

 

      No noticiário das 10 da manhã de domingo, na Antena 1, a jornalista Rita Soares foi dirigindo o repórter Luís Peixoto, que estava a acompanhar o arranque da operação de vacinação contra a covid-19 no Centro Hospitalar de S. João, no Porto. Faz lá isto, faz lá aquilo, vê lá isto, vê lá aquilo. Momento antológico: «Luís, como é que encontraste esta manhã as pessoas com quem te cruzaste aí no Hospital de S. João, qual é a imagem facial dessas pessoas?» A imagem facial... Se fosse apenas isto: a jornalista deu uma boa amostra dos mais comuns chavões da linguagem, dos erros mais vulgares. A linguagem é a ferramenta dos jornalistas, mas, em muitos casos, ferramenta romba e gasta.

 

[Texto 14 534]

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30
Dez 20

Léxico: «Marufo»

Mais uma casta, mais uma dúvida

 

      «Podem ser filhas de algumas castas já conhecidas, como acontece com a Touriga Franca ou a Tinta Barroca, que são filhas da Touriga Nacional e da Marufo, mas são variedades distintas» («Número de castas nacionais é ainda maior do que se pensava», Pedro Garcias, «Fugas»/Público, 28.11.2020, p. 35).

      A Porto Editora regista marufo, mas não nesta acepção: «1. bebida alcoólica extraída da seiva do bordão (planta); 2. gíria vinho». O étimo indicado para ambas as acepções é o quimbundo ma’lufu. Alguma coisa me diz que isto está errado.

 

[Texto 14 533]

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30
Dez 20

Léxico: «geo-história»

Actualizem-se

 

      «A equipa de investigadores detetou semelhanças com os dentes molares de uma espécie que habitou a Península Ibérica há cerca de 30 mil anos, mas a datação por carbono-14 permitiu “dissipar as dúvidas” e concluir que se trata de um dente com origem no Oeste de África, com cerca de 230 anos, disse Carlos Neto de Carvalho, do Centro Português de Geo-História e Pré-História (CPGP)» («Dente de elefante encontrado no rio Mira dá origem a estudo internacional», TSF, 23.12.2020, 17h18).

      Pois, Geo-História. Só que, por um daqueles motivos secretos, o termo não está em nenhum dos nossos dicionários.

 

[Texto 14 532]

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29
Dez 20

Léxico: «texugo-do-mel» e mais dois

A que se juntam estes

 

      «As restantes nove espécies — hiena, leopardo, chacal, doninha, mangusto-listrado-de-cauda-branca e mangusto-listrado-de-cauda-preta, a geneta e o texugo-do-mel — estavam presentes em todas as áreas, menos nas comunidades locais» («Rodeado de megafauna, Gonçalo Curveira Santos andou a espiar carnívoros na África do Sul», Ana Rita Maciel, Público, 29.11.2020, p. 25).

      Também estes desconhecidos dos dicionários. Foram muitos anos de incúria.

 

[Texto 14 531]

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29
Dez 20

Léxico: «serval» e mais três

A ninguém

 

      «Quatro espécies foram registadas numa das categorias de gestão: o serval na área protegida; o mangusto-dos-pântanos na fazenda de caça; e o gato-selvagem-africano e o mangusto de Selous na comunidade local» («Rodeado de megafauna, Gonçalo Curveira Santos andou a espiar carnívoros na África do Sul», Ana Rita Maciel, Público, 29.11.2020, p. 25).

      Não vamos encontrar nem sequer um no dicionário da Porto Editora. Provavelmente, não há dicionário que registe os quatro. A jornalista, diga-se, escorregou um pouco: se escreveu «mangusto-dos-pântanos», tinha igualmente de escrever «mangusto-de-selous». É certo que os jornalistas nunca têm dúvidas a respeito destas questões, mas, se fosse o caso, a quem iam perguntar?

 

[Texto 14 530]

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28
Dez 20
28
Dez 20

Tradução: «complexion»

Reputações

 

      Também valia a pena alguns tradutores — sobretudo esta, já com reputação firmada — aprenderem que complexion é um falso cognato, não? Isso de escreverem que as personagens tinham «a compleição acinzentada» é capaz de merecer figurar nos anais da ignorância.

 

[Texto 14 529]

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