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Linguagista

Léxico: «petauro-do-açúcar»

Como se vê

 

      «São pouco conhecidos em Portugal, mas o número de interessados em ter um petauro-do-açúcar [Petaurus breviceps] como animal de estimação tem crescido nos anos mais recentes. O petauro-do-açúcar é um marsupial originário da Austrália e da Indonésia, onde vive nas árvores, em colónias com entre 11 e 15 indivíduos» («Petauros-do-açúcar são cada vez mais populares», Fátima Mariano, Notícias Magazine, 18.01.2021).

      Anda perdido — e apenas como «petauro» — num dicionário bilingue da Porto Editora, scoiattolo volante.

 

[Texto 14 589]

Léxico: «keynesiano»

Mas não

 

      «Uma parte importante da ascensão de Salazar está relacionada com o que fez com as finanças públicas e o défice externo. Todavia, ao contrário do que a máquina de propaganda oficial quis fazer crer, nada foi feito de novo e tudo poderia ter sido feito em democracia. Que não haja dúvidas, pois Portugal sempre foi europeu. Aliás, o ano da viragem financeira do país não foi 1928, quando o ditador em ascensão tomou conta das finanças, mas sim 1924, quando, ainda no período da República, as finanças europeias e, por conseguinte, as portuguesas se reequilibravam. Veio depois a crise de 1929, que muito afectou a Europa, sobretudo a central, e menos Portugal, graças às políticas de pensamento keynesiano que acabaram finalmente por ganhar voz no mundo atlântico, dos Estados Unidos da América ao Reino Unido» («Salazar, o ditador», Pedro Lains, Jornal de Notícias, 15.02.2021, 7h07).

      E eu que pensava que keynesiano estava em todos os dicionários da língua portuguesa actuais.

 

[Texto 14 588]

Léxico: «liberalizante | democratizador»

Um par em parte incerta

 

      «A Segunda Revisão (1989) alastrou o espírito “liberalizante” e “democratizador” da Primeira Revisão ao âmbito da constituição económica, saneando o texto constitucional da retórica da “irreversibilidade das nacionalizações”, da “reforma agrária”, da “apropriação colectiva dos meios de produção” e abrindo caminho à reprivatização dos activos nacionalizados após o 25 de abril de 1974» («Há um problema com a nossa Constituição?», Gonçalo de Almeida Ribeiro, Jorge Fernandes, Rui Ramos e Tiago Fidalgo de Freitas, Observador, 16.04.2015, 00h33).

      Só para que saibam: não estão em nenhum dos nossos dicionários. Estão ambos no VOLP da Academia Brasileira de Letras, por exemplo.

 

[Texto 14 587]

Léxico: «cabra-montês | cabra-montesa»

O caminho

 

      «O urso e a cabra-montesa estão, pois, extintos, mas o carácter de relativo isolamento que caracteriza toda a zona serrana e a protecção acrescida que deriva da própria natureza do terreno permitiu a permanência de toda uma variedade de animais, com especial referência para a avifauna, em que se destacam as aves de presa diurna — águia-real, milhafre-real, águia-de-asa-redonda, falcão, etc. — para além de nocturnas, como o bufo real, a coruja-do-mato e o mocho-de-orelhas-pequenas» (Parques e Reservas Naturais de Portugal, Pedro Castro Henriques, ‎Augusto Cabrita. Lisboa: Editorial Verbo, 1990, p. 18).

      Decerto, cabra-montês está correcto, pois alguns adjectivos, como cortês, descortês, montês, pedrês, são uniformes. Contudo, não afunilemos: a Porto Editora apenas regista cabra-montês, mas o VOLP da Academia Brasileira de Letras tanto acolhe esta como cabra-montesa. É este o caminho.

[Texto 14 586]

Léxico: «enfermeiro-chefe»

É por isto

 

      «Na aparência, só uma coisa distingue este domingo de qualquer outro dia da semana, nos corredores do serviço de ambulatório do São João, no Porto: em vez de estarem sentadas, à espera da consulta, duas mil pessoas enchem os corredores em grupos, de olho nos painéis a indicar o gabinete em que serão vacinadas contra a covid-19. Poucas se sentam nas cadeiras das salas de espera. “São mais indisciplinadas” do que os utentes, brinca Rui Dias, enfermeiro chefe do serviço de consulta externa» («Um dia de exceção para recuperar a normalidade», Alexandra Figueira, Jornal de Notícias, 27.12.2020, 18h13).

      É por isto que defendo que todas estas palavras têm de ser dicionarizadas. Se estivesse a escrever em inglês, Alexandra Figueira não errava: era head nurse e já está. O negregado Acordo Ortográfico de 1990 veio dar a machadada final, e os jornalistas são os primeiros a não saberem aplicá-lo.

 

[Texto 14 585]