24
Fev 21

Léxico: «predação»

E o acto ou efeito?

 

      «O estudo do ictioplâncton é importante para estimar a abundância anual dos mananciais das espécies exploradas na pesca. Todos os anos, nasce uma nova geração de peixes que se junta ao stock já existente. Se, por alguma razão, essa nova geração tiver sido dizimada, por falta de alimento, predação excessiva ou porque as larvas foram arrastadas para um habitat inapropriado, isso vai ter consequências na abundância e ecologia da espécie, e na actividade pesqueira» («Do mar ao céu, “foi sempre a fotografia” que moveu Pedro Ré», Nicolau Ferreira, Público, 21.02.2021, p. 24).

      No dicionário da Porto Editora, lê-se que predação é o «tipo de interacção entre seres vivos em que um (predador) se alimenta do outro (presa)». Ora, no excerto do artigo, não é nada disso — mas simplesmente o acto ou efeito de predar. É então isto que se tem de acrescentar — para o corrigir — ao verbete.

 

[Texto 14 733]

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Léxico: «nanovesícula»

Como temos outros

 

      «O EXO-CD24 combina dois elementos com que a equipa já estava habituada a trabalhar há vários anos, no âmbito da investigação em cancro: a proteína CD24, que “permite regular a resposta do sistema imunitário”; e os exossomas, “nanovesículas excretadas pelas células e que vão estabelecer comunicação intercelular”, diz [Nadir] Arber [professor e médico do Hospital Ichilov, em Telavive]» («O tratamento israelita que promete revolucionar o combate à covid-19», Rui Frias, Diário de Notícias, 18.02.2021, p. 10).

 

[Texto 14 732]

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«Dignitário», de novo

Mais fácil falar

 

      «O titulo [sic] não é meu, mas sim de Javier Marías, escritor que compilou muitas das suas crónicas (El País Semanal) em livros. Nesta (Quando os tontos mandam, Relógio D’Água, 2018, pp. 162-164), Javier Marías insurge-se contra a conduta dos Estados italiano e francês, aquando da visita oficial, do Presidente do Irão, Hassan Rohani em 2016. Os italianos decidiram tapar as estátuas antigas dos Museus Capitolinos, para que os seus nus não ofendessem “o alto dignatário”» («Sem exigências», José Manuel Meirim, Público, 19.02.2021, p. 42).

      Pergunta o leitor R. A.: «O Público errou? Ou foi José Manuel Meirim? Ou foi Javier Marías?» Talvez nenhum, respondi. Se José Manuel Meirim citou bem, o erro é do tradutor e do revisor de Quando os Tontos Mandam. Seja como for, José Manuel Meirim, só neste excerto, já tem erros e más escolhas que cheguem. A pontuação é para esquecer: «aquando da visita oficial, do Presidente do Irão, Hassan Rohani em 2016». Não sei se já vos disse que só usaria «aquando» se me ameaçassem com uma arma, e mesmo assim, depende.

      Voltando ao que mais interessa: o correcto é dignitário. Contudo, o VOLP da Academia Brasileira de Letras, como já aqui lembrei, regista «dignitário» e «dignatário». Mais: é erro tão comum, que o encontramos por todo o lado. Num texto de apoio da Infopédia («Convento de N. Sra. do Carmo (Moura)»), lá está ele: «No lado oposto do Evangelho, o destaque vai para a Capela de S. Martinho, com o seu portal clássico quinhentista, sobrepujado pelo brasão eclesiástico dos Limpos, símbolo heráldico que materializa o patrocinador deste empreendimento, o alto dignatário religioso originário de Moura e que foi arcebispo de Braga, D. Frei Baltasar Limpo.»

 

[Texto 14 731]

Helder Guégués às 09:30 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «lampante»

Alguma vez será

 

      Com efeito, é castelhano — como tantos outros. «Se nos fixarmos no patamar superior de qualidade dos azeites engarrafados e presentes no mercado, é de azeite virgem que falamos e isso só por si indica já que a extração foi feita por processos exclusivamente mecânicos diretamente a partir da azeitona. Temos neste nível três grandes grupos: azeite virgem extra (acidez não superior a 0,8%); azeite virgem (até 2%); e azeite lampante (mais de 2%)» («Tesouros engarrafados de Mirandela», Fernando Melo, Diário de Notícias, 20.02.2021, 7h00).

 

[Texto 14 730]

Helder Guégués às 09:00 | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «gloterar»

Das duas, a pior

 

      A cegonha glotera ou glotora, mas a Porto Editora só a quer a glotorar. (Embora gloterar apareça num bilingue e no dicionário de verbos.) Por acaso a forma ausente é a melhor, porque nela se deu a dissimilação, que é um processo espontâneo e muito usual de aperfeiçoamento fonético.

 

[Texto 14 729]

Helder Guégués às 08:30 | ver comentários (1) | favorito
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24
Fev 21

Como se escreve por aí

Ora bolas

 

      «Produto do Iluminismo inglês, Turner sabia que a cor é uma qualidade da luz e que esta é sinónimo de conhecimento. [...] Habituados, por hábito cultural, a pensar que o impressionismo nasceu em França em 1872 com a “Impressão, Nascer do Sol”, de Claude Monet, esquecemo-nos que meio século antes Turner já se revelara um impressionista (sem ninguém o ter notado)» («A luz é Deus. A pintura de J. M. W. Turner», Jorge Calado, Expresso, 19.02.2021, 13h18).

      Também eu peço: «Mehr Licht!» Então, que raio de critério leva alguém a escrever aqui «Iluminismo» e, cinco linhas à frente, «impressionismo»? Sejamos exigentes com os bons, pois que os maus não têm conserto.

 

[Texto 14 728]

Helder Guégués às 08:00 | favorito
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