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Linguagista

Ortografia: «Êutiques | Heraclio»

Acentua, desacentua 

 

      «Assim o escreveu no século passado tão imprudente como ignorantemente Lutero, ressuscitando as antiquíssimas heresias de Êutiques, Dióscoro, Sérgio, Pirro e Paulo e de todos os eutiquianos divididos em tantas blasfémias como seitas» (Sermões, Vol. 4, António Vieira. Porto: Lello & Irmão, 1959, p. 180).

      Ainda bem que o diz. E eutiquiano, lê-se no dicionário da Porto Editora, é o adjectivo «relativo a Eutiques, heresiarca grego (378-454), ou à sua doutrina». Ora, na página 436 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, é Êutiques que se lê. Pois, sobre Heraclio nada diz Rebelo Gonçalves, mas só pode ser esta a grafia correcta. Aqui, a Porto Editora tanto grafa Heraclio como Heráclio.

 

[Texto 14 814]

Plural: «éon»

Meio caminho

 

      «Importa contudo sublinhar as debilidades intrínsecas da teoria dos éones de Eugenio D’Ors, tal como de outras, que, por exemplo, advogam a transtemporalidade ou meta-historicidade de períodos, escolas, correntes, filosofias, etc.» (Lusofilias: identidade portuguesa e relações internacionais, Paulo Ferreira da Cunha. Porto: Edições Caixotim, 2005, p. 73). Se os dicionários não indicam o plural do vocábulo éon, já sabemos que é meio caminho para vermos erros por aí.

 

[Texto 14 813]

Léxico: «apagão»

Boa opção

 

      Ultimamente, ando a ver a série Motel Bates. Uma das personagens principais, Norman Bates, tem frequentes apagões — para usar a palavra da tradução —, perdas momentâneas da memória ou da consciência, quando se torna extremamente violento, capaz de matar. No original, a palavra que se usa é blackout. Boa opção do tradutor. Infelizmente, esta acepção de blackout (ou, como escrevem no Brasil, blecaute) não a vamos encontrar no verbete de apagão no dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 14 811]

Definição: «canhangulo»

Antigo? Artesanal, caseiro

 

      «Sem que José soubesse, a terra já não estava preta nem branca, mas vermelha – de sangue. “Houve um levantamento e estão a matar todos os brancos, mestiços e negros que não queiram seguir as suas ordens. Já há milhares de mortos. Vamos embora, não sei se chegaremos vivos ao Songo”, informaram-no, na fazenda do tio. Milhares de guerrilheiros da União dos Povos de Angola (UPA), munidos de catanas e canhangulos (armas de fogo artesanais), tinham-se insurgido naquela madrugada e atacado vilas e fazendas, eliminando colonos, os seus trabalhadores angolanos (bailundos, do Sul, na maioria), incluindo mulheres, crianças e bebés de colo» («Massacres em Angola: As milícias da vingança branca», Tiago Carrasco, Sábado, 10.03.2021).

      A Porto Editora insiste em que é a «espingarda antiga de carregar pela boca». Contudo, a característica mais definidora é a da sua construção artesanal, como se pode ler aqui e ali.

 

[Texto 14 810]

Léxico: «destransição»

Porque o mundo não parou

 

      No noticiário das 10 da manhã de sexta-feira na rádio Oxigénio, ouvi pela primeira vez a palavra destransição — que vem do inglês detransition, língua em que já está dicionarizada: «the process of stopping changes, which may be social, legal, or medical, that lead to someone living as a person of a different gender to the one they were said to have at birth» (Cambridge Dictionary). Também dita retransição. Para os arrependidos, para quando não corre bem.

      Nova realidade, novo termo. Bem sei que alguns (sobretudo anónimos, nem por acaso) não queriam que se adoptassem termos surgidos depois das 15h15 do dia 1 de Junho de 1890, hora da gatilhada fatal, mas a verdade é que o mundo continuou a girar, e agora a uma velocidade comparativamente vertiginosa. Novas, múltiplas realidades nos mais diversos campos da vida surgiram desde então, e nem sempre podemos bastar-nos com as palavras que já temos. Além de que, em especial no campo da ciência, a univocidade devia ser requisito.

 

[Texto 14 809]