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Linguagista

Léxico: «repasse»

Nem tudo passou

 

      «Trump corta repasse à OMS enquanto reafirma poder» (Lucas Alonso, Folha de S. Paulo, 15.04.2020, p. A11). Trump já lá está para trás (obeso, falso e mentiroso), mas os nossos dicionários não registam este repasse brasileiro.

      Era escusado dizer que servimos melhor assim a chamada lusofonia — registando todos os termos e acepções usados nos países de língua oficial portuguesa — do que seguindo, como se faz, destrambelhadamente o destrambelhado Acordo Ortográfico de 1990.

 

[Texto 14 870]

Léxico: «boga-de-lisboa | boga-de-boca-arqueada»

Vamos recolhê-la

 

      «Entre as mais ameaçadas, Maria João Collares-Pereira destaca o saramugo, que “só existe em algumas zonas da bacia do Guadiana e está criticamente em risco de extinção”, vários escalos, “que estão muito ameaçados”, a boga de Lisboa, “cuja presença em afluentes do Tejo inferior é vestigial” e o ruivaco do Oeste» («Investigadores lançam guia de bolso para dar a conhecer os peixes dos rios portugueses», Rui Silva, TSF, 23.03.2021, 7h34).

      É a boga-de-boca-arqueada ou boga-de-lisboa (Iberochondrostoma olisiponensis).

 

[Texto 14 869]

Inventar quando é necessário

Não é o caso

 

      «No fundo, a Central acrescenta valor à produção que sai do pomar, o que permite uma melhor retribuição aos “pericultores”. É uma sociedade anónima sui generis porque o objectivo não é obter lucros chorudos para distribuir dividendos, mas valorizar o produto em abono dos sócios-produtores» («A República da Pêra-Rocha resiste ao “Brexit” e à pandemia», Carlos Cipriano, Público, 20.03.2021, p. 37).

      São melhores a inventar palavras desnecessárias do que a descobrir as que existem e de que precisam. Aquele que se dedica à cultura de árvores de fruto em pomares é o pomicultor.

 

[Texto 14 868]

Léxico: «dissectar»

Apostila a todos os dicionários

 

      Voltando aos mapas dissecados, vemos que Almeida Garrett se ocupou deles: «Para começar porém, depois de lhes mostrar e fazer conceber o globo, o melhor sistema, e mais próprio para crianças é o dos mapas dissecados (ou dissectados, segundo mais queiram dizer). Recorta-se delicadamente uma carta pelas divisões naturais dos rios, montes, etc., ou pelas estremas artificiais de reinos, cidades, etc., tendo-a primeiramente colado bem aderente a uma folha de madeira» (Obras de Almeida Garrett, Vol. 1, Almeida Garrett. Lisboa: Lello & Irmão, 1966, p. 787).

      Segundo mais queiram dizer? Ah, apetece-me dar-te uma berlaitada nessa peruca... Oh, João Baptista, então tu não sabes que os modernos dicionários não registam o verbo dissectar? Convenhamos que é mais natural dizer-se mapa dissectado, ou seja, cortado, do que dissecado, pois neste caso pensamos logo em cadáveres.

 

[Texto 14 867]

Uma temporada nas obras

Só seis meses

 

      Muitos dos nossos tradutores precisavam — além de estudar melhor a língua, claro — de uma temporada nas obras. (Para os mais literatos, uma temporada no Inferno, sem Rimbaud nem cerveja.) Quantos deles, coitados, confundem azulejo com mosaico, tecto com telhado, ombreira com padieira? Umas boas desgraças, não haja dúvida. E alguns, ingratos, brutos que nem portas.

 

[Texto 14 866]

«Tipar»?

Passamos

 

      De quando em quando, convém falar de casos estranhos, como este: «Acontece que o seu físico rotundo e a sua cara bolachuda têm-no tipado quase sempre para papéis de totó, daqueles de quem nos rimos, mas esquecemos logo a seguir» («Os grandes ausentes. Paul Walter Hauser», J. L. R., «Revista E»/Expresso, 8.02.2020, p. 4).

 

[Texto 14 865]